Arte do barroco ao contemporâneo

Cidades do interior de Minas Gerais são verdadeiras galerias a céu aberto para quem se interessa por arte, do barroco ao contemporâneo, passando por modernos e neoconcretos

por Sérgio Rodrigo Reis 08/09/2012 14:16

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Alexandre Guzanshe/EM/D.A/Press
Painel As fiandeiras, de Portinari, executado por Américo Braga, pode ser visto em Cataguases, cidade que abriga acervo modernista (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A/Press)

A consolidação do Inhotim como o maior espaço ao ar livre dedicado às artes contemporâneas no Brasil desviou o foco da produção artística atual para um lugar até então improvável e fora do circuito convencional: Brumadinho. Para além do município no interior mineiro, distante 60 quilômetros de Belo Horizonte, outras cidades se tornaram referências na área, funcionando como verdadeiras galerias a céu aberto. Para quem busca entendimento sobre alguns dos mais expressivos movimentos estéticos da história da arte nacional, como o barroco, o rococó, o modernismo e o neoconcretismo, algumas localidades mineiras, hoje, se configuram como parada obrigatória.

Principal referencial estético de Minas desde os tempos de colonização portuguesa, o barroco é um estilo de arte que floresceu na arquitetura, na pintura e em manifestações como a música e a poesia. Nas construções e nas talhas, aparece nas curvas e contracurvas, na iluminação irregular, no gosto pelas massas escultóricas (talha gorda), nas colunas espiraladas, na abundância do uso do ouro como elemento decorativo e na assimetria das decorações. O termo barroco significa pérola irregular e, em Minas, floresceu entre o último quartel do século 17 chegando até 1760. Porém, pela sua força e expressidade, os seus valores intrínsecos se estendem até o século 19 e, ainda hoje, permanecem como atávicos na cultura local.

Mesmo tendo como referencial do estilo barroco as cidades de Ouro Preto, Diamantina, Serro, Mariana, Tiradentes e Sabará, não é nenhuma delas que a pesquisadora Adalgisa Arantes Campos, uma das principais estudiosas no assunto, sugere como roteiro para se conhecer, nos dias atuais, o antigo estilo. Para ela, o melhor panorama é o apresentado por São João del-Rei. Localizada no Campo das Vertentes, a 185 quilômetros da capital, na cidade estão presentes as condições para se conhecer bem não só estilo do século 18, como também as manifestações artísticas presentes no 19 e no 20. “Ali encontramos uma arquitetura tradicional portuguesa convivendo com construções arrojadas de feição rococó, presentes nas igrejas São Francisco de Assis e do Carmo, além de excelente museu de arte sacra. Os estilos convivem de maneira harmoniosa na volumetria”, explica.

As demais cidades oferecem diferentes contribuições aos estudiosos do barroco. Enquanto Ouro Preto exibe a pujança do período e ainda mantém boa parte do centro histórico preservado, Tiradentes, apesar de conservar a volumetria original, virou um ponto turístico. “Lá é um presépio. Manteve-se preservada, mas perdeu do ponto de vista antropológico, pois a população foi vendendo as casas e se mudando para as periferias. O que se vê lá é algo artificial.” O mesmo não acontece em Catas Altas, a 120 quilômetros da capital, que, nas últimas décadas, tem restaurado o núcleo histórico. “Dá para se ter uma aula completa de barroco.”

A contribuição aos pesquisadores da história da arte que oferece Congonhas, a 89 quilômetros da capital, é outra. A riqueza e o desenvolvimento advindos da mineração destruíram a maioria do casario antigo, restando aos visitantes o conjunto do Bom Jesus de Matosinhos, com as capelas com as cenas alusivas ao Antigo e Novo Testamentos. Trata-se de um conjunto eminentemente rococó, estilo que veio após o barroco, de 1760 até meados do 19, cujas origens formais advêm da França e da Europa Central e que, por aqui, exibe um perfil mais religioso que mundano. “Aparece na talha mais despojada, requintada, e também na pintura. As colunas são retas, lisas, com caneluras ou frisos, os fundos são claros e o ouro só aparece nos relevos”, enumera.

O novo é belo

Para além da cultura barroca e rococó, cujos principais representantes são Aleijadinho (escultura) e Manuel da Costa Ataíde (pintura), as artes visuais no estado foram profundamente modificadas pelo pensamento modernista. Tendência cultural da segunda metade do século 20, baseada nos preceitos de que as formas tradicionais das artes plásticas, literatura, design, organização social e da vida cotidiana tornaram-se ultrapassadas, encontrou seguidores na capital, com a construção do complexo da Pampulha e, no interior, em Cataguases. Segundo os seus preceitos, era necessário, então, abandonar as antigas raízes acadêmicas e partir para outra cultura, aceitando o novo também como bom e belo.

A mudança cultural em Cataguases teve como principal protagonista o mecenas Francisco Inácio Peixoto, o mais novo de uma família dona de uma fábrica de tecidos, que enriqueceu com a industrialização durante a Segunda Guerra Mundial. Depois de um período estudando no Rio de Janeiro, ele, que era intelectual, amigo do escritor Marques Rebelo e também ex-integrante da revista Verde, uma publicação local de arte e cultura, decide convidar à terra natal um grupo formado, entre outros, pelo arquiteto Oscar Niemeyer e pelo paisagista Roberto Burle Marx.

“O grupo faz o Colégio Cataguases, que hoje é a Escola Estadual Manuel Inácio Peixoto, onde além da arquitetura de Niemeyer foi criado um jardim do Burle Marx e foi feito o mural de Cândido Portinari. Depois de vendida, a obra foi transferida para o Memorial da América Latina, em São Paulo. O arquiteto também construiu a casa de Francisco Ignácio Peixoto, ainda pertencente à família”, conta a professora de história, Lúcia Helena Peixoto. Para ela, a atuação do mecenas foi fundamental na evolução cultural da cidade. “Provocou mudanças importantes que permanecem até hoje. Colocou Cataguases dentro de uma visão bastante moderna.”

Expressividade

O neoconcretismo é outro estilo artístico importante que, por uma coincidência de fatores, começa a transformar a realidade estética de Dom Silvério, a 180 quilômetros da capital. Surgido no Rio, no fim da década de 1950, o movimento foi uma reação ao concretismo ortodoxo, que defendia a arte somente a partir de conceitos geométricos puros. Ao contrário, os neoconcretistas achavam que as suas criações também deveriam trazer sensibilidade, expressividade e subjetividade. Um dos maiores representantes do grupo foi o escultor mineiro Amilcar de Castro (1920-2002), cujo principal colecionador é o empresário Márcio Teixeira, natural de Dom Silvério.

Depois de expor sua coleção numa série de cinco exposições que reuniu em torno de 500 obras, entre elas esculturas em grandes dimensões nas praças JK e da Liberdade, em BH, ele tinha duas possibilidades: ou devolvia os trabalhos para os depósitos ou transformava sua cidade numa grande galeria a céu aberto. Optou por mudar a realidade visual da terra de origem. “O fato de a repercussão das exposições indicarem Dom Silvério como destino final das obras criou, entre a população, um sentido de pertencimento e a receptividade foi bastante positiva. As pessoas ficaram encantadas. Quatro anos depois não houve sequer um único ato de vandalismo. Isto me permitiu, já que não estou com o local do museu definido para a guarda das obras, realizar uma prémiere do que será o futuro espaço”, avalia o empresário e colecionador.

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