Regina Navarro Lins volta a atacar o moralismo que embala relacionamentos conjugais em novo livro

Depois do polêmico A cama na varanda, psicanalista carioca lança O livro do amor, no qual também questiona a maneira como se tratam sexo e casamento

por Sílvia Laporte 27/08/2012 09:18

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Editora BestSeller/Divulgação
Regina Navarro Lins não vê motivos para que se abra mão do prazer em nome de normas criadas (foto: Editora BestSeller/Divulgação)
 
Quando A cama na varanda (Editora Rocco, 1997) foi lançado, a psicanalista carioca Regina Navarro Lins entrou no foco da atenção da mídia. Com a afirmação de que o casamento tradicional estava fadado ao fracasso e que a fidelidade conjugal não tinha sentido, Regina provocou alvoroço. A obra, no entanto, dizia bem mais do que isso. Argumentando que a maneira como as pessoas encaram o amor e o sexo depende do contexto social, a autora convidava os leitores a refletir: se o que é decoroso ou indecoroso muda ao longo dos tempos, por que o ser humano se sujeita a abrir mão do prazer para se enquadrar às normas ditadas pela moralidade?

A nova obra de Regina, O livro do amor, aprofunda o assunto. "Como ocorre com todo o meu trabalho, a maior preocupação é contribuir para a mudança das mentalidades, para que as pessoas se livrem do moralismo e dos preconceitos e possam viver com mais prazer", explica Regina, que lança a nova obra em Belo Horizonte nesta segunda-feira, 27, às 19h30, no auditório da Cemig, por meio do projeto Sempre um papo.

Nesse seu 11º livro sobre relacionamentos, Regina começa pela pré-história e segue por todos os períodos da história do Ocidente: Grécia e Roma antigas, Antiguidade tardia, Idade Média, Renascença, Iluminismo, romantismo, século 20 e atualidade. Como o tema, além de vasto, a fascina, durante cinco anos ela leu, fichou e cruzou informações de mais de 200 livros. O resultado foi uma obra mais alentada do que o inicialmente previsto: o livro, publicado pela Editora BestSeller, foi dividido em dois volumes (R$ 29,90 cada), que somam mais de 750 páginas. O que não é motivo para o leitor desanimar: o texto é claro e cheio de relatos interessantes sobre o cotidiano de cada período abordado. "Conto casos da época, como as pessoas viviam e pensavam. Enfim, qual era a mentalidade que havia. E mostro como o que se viveu no passado nos afeta hoje. Minha intenção é que o leitor se sinta vivendo cada época e, ao terminar o livro, não tenha dúvidas de que podemos escolher a forma como queremos viver". 

Os sinais de que essa é uma tendência que se firma dia a dia estão aí, diz Regina. "Apesar de nosso tabu cultural contra a infidelidade, são cada vez mais comuns as relações extraconjugais". Mesmo com os conflitos, medos e culpas e que os costumes sociais estimulem o investimento de toda a energia sexual em uma única pessoa – marido ou esposa –, homens e mulheres são profundamente adúlteros, observa ela. "Penso que está mais do que na hora de começarmos a questionar se fidelidade tem mesmo a ver com sexualidade", afirma, arrematando: "Acredito que não."

Regina conta que ficou "surpresa" com o que descobriu ao pesquisar o que estudiosos do tema pensam sobre as motivações que levam a uma relação extraconjugal na nossa cultura. "As mais diversas justificativas apontam sempre para problemas emocionais, insatisfação ou infelicidade na vida a dois", resume. "No entanto, não li em quase nenhum lugar o que me parece mais óbvio: embora haja insatisfação na maioria dos casamentos, as relações extraconjugais ocorrem principalmente porque as pessoas gostam de variar, até mesmo quando o casamento é plenamente satisfatório do ponto de vista afetivo e sexual."

Repressão
No painel montado por Regina, a violência que as mulheres vêm sofrendo desde que o sistema patriarcal se instalou, há 5 mil anos, e "o absurdo que foi a repressão sexual nos últimos 2 mil anos" também são tópicos de destaque. "A fronteira entre os papéis do homem e da mulher estão se dissolvendo desde a segunda metade do século passado, e isso é ótimo", comemora ela, que aplaude também a gradual mudança de mentalidade em relação ao patriarcalismo, que faz com que o homem machista seja "cada vez menos aceito e desejado". "Estamos no meio de um processo profundo de transformação", avalia.

Embora admita que pouca gente tem coragem de "tentar novos caminhos" para viver mais plenamente, pois "o desconhecido assusta", Regina tem a firme convicção de que é possível sim fazer com que os relacionamentos deixem de ser fontes de sofrimento. "Pensa-se no amor como se ele nunca mudasse, mas ele é uma construção social, apresentou-se de formas diferentes em cada época da história", diz. 

Quando o amor romântico que preconiza a fusão de almas e corpos dos amantes sair de cena, as pessoas vão saber que a exclusividade não é pré-requisito para as relações amorosas. "Ninguém deveria ficar preocupado se o parceiro se relaciona sexualmente com outra pessoa. Homens e mulheres só deveriam se preocupar em responder a duas perguntas: sinto-me amado(a)? Sinto-me desejado(a)?. Se a resposta for sim para as duas, o que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito", explica Regina. "É bem possível que, daqui a algumas décadas, menos pessoas desejem se fechar numa relação a dois e mais gente opte por relações com parceiros variados", torce ela, antes de concluir: "O que não significa que deixarão de estabelecer vínculos profundos com as pessoas amadas." 
 
O livro do amor
Lançamento do livro de Regina Navarro Lins. Sexta-feira, 27 de agosto, às 19h30, no Auditório da Cemig, Av. Barbacena, 1.200, Santo Agostinho, no projeto Sempre um papo. 


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