Ziraldo planeja publicar adaptação de Grande sertão: veredas em quadrinhos

Perto de completar 80 anos, Ziraldo lança novos livros. Artista cobra mais incentivo à leitura no país

por Ana Clara Brant 11/08/2012 09:14

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Ana Colla/Divulgação
Artista com múltiplas realizações, Ziraldo gosta mesmo é de ser chamado de escritor (foto: Ana Colla/Divulgação)
O cartunista e escritor mineiro Ziraldo não vive em Londres, mas nos últimos dias tem agendado seus compromissos seguindo o fuso britânico. Tudo por causa das Olimpíadas. “Não tenho feito mais nada na minha vida. Praticamente, estou por conta dos Jogos Olímpicos. Dou notícia de tudo quanto é esporte. Sempre foi assim. Quando foi na Austrália e na Ásia, até troquei o dia pela noite”, contou enquanto dava entrevista ao Estado de Minas e estava de olho no jogo de basquete da Seleção Brasileira. Prestes a completar 80 anos em outubro, mas com a vitalidade de um “menino maluquinho”, ele está participando da Bienal Internacional do Livro de São Paulo onde lança dois projetos pela Editora Melhoramentos: O grande livro das tias (que reúne três obras de sucesso que homenageiam as infinitas possibilidades do amor de tia) e Os meninos de Marte, quinto livro da série Os meninos do espaço, em que descreve a personalidade e o temperamento de cada criança de acordo com o planeta em que ela vive. 

Ziraldo lembra que, quando criou a série, a intenção era que os meninos de cada planeta viajassem pelo sistema solar e ficassem amigos uns dos outros. “Olha que aventura isso! Já fiz menino da Lua, de Júpiter e vou criar de todos os planetas. Digo que é uma maneira de sempre estar ocupado criando coisas e garantir mais uns anos de vida. Essa série vai durar uns 10 anos e depois quem sabe não faço os meninos de cada mês para conseguir mais uns 12 anos? E dessa maneira vou prolongando. É um grande truque para viver. Não posso deixar inacabado”, brinca. 

Nascido em Caratinga, Ziraldo é um multiartista: pintor, cartazista, jornalista, teatrólogo, chargista, caricaturista, humorista, mas se define mesmo é como escritor e revela que se esmera e se dedica de corpo e alma quando está produzindo um livro. E não é porque boa parte de sua obra é voltada para as crianças, que seja uma literatura menor. “Faço texto para criança, mas não é um texto infantil. É literatura e não tem essa coisa de coelhinho, nuvenzinha, cachorrinho. Não é isso. Fico meses trabalhando, sofro com cada palavra e faço questão de entregar um produto caprichadíssimo. Criança gosta de se encantar e tento levá-la para a reflexão. Esse é o segredo”, acredita. 

Para o autor, o Brasil tem grandes representantes nesse ramo como Pedro Bandeira, Ana Maria Machado e Lygia Bojunga, porém lamenta a falta de prestígio desse gênero, principalmente por parte da imprensa. “De uma maneira geral, a imprensa não estimula a literatura e deveria fazer justamente o contrário. Fazem cadernos de informática superelaborados e esquecem que só compra jornal quem sabe e gosta de ler. Os suplementos infantis dos jornais, por exemplo, são uma porcaria”, alfineta sem papas na língua.

 
SERTÃO EM HQ Famoso por criar personagens antológicos dos quadrinhos, como o Menino Maluquinho e a Turma do Pererê, que deu uma cara bem brasileira ao gênero com tipos do nosso folclore e animais da nossa fauna, Ziraldo revela que sempre gostou de desenhar à mão, para depois colorir com tinta. O computador só serve para dar o complemento. Aliás, o escritor faz questão de frisar que tem um certo pavor de internet, apesar de considerá-la uma ‘dádiva’, e que, para ele, a rede serve apenas como uma fonte de pesquisa. “Sou feliz com o mundo que construí, com os amigos que fiz. E essa coisa da internet, de rede social, tem muito a ver com a solidão humana. Quem não é capaz de fazer amigos com olhos nos olhos tem que partir para isso. E isso me gela o coração”, desabafa.

Outro projeto que finalmente deve concretizar em 2012 é a adaptação de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, em quadrinhos, com roteiro dele e ilustrações do pernambucano Jô Oliveira. O “pai” do Menino Maluquinho enaltece a geração a que pertence e observa que nunca teve tanto oitentão por aí trabalhando e fazendo mil coisas. “O Zuenir não para de escrever, a Fernanda Montenegro também não deixou de atuar. É uma raça danada, uma geração de gente que faz muito e coisa boa. E o mais engraçado é que todo mundo faz um monte de coisa ao mesmo tempo. Na minha época, era comum o artista ocupar vários espaços”, ressalta ele, que não pretende fazer uma grande festa quando virar octogenário. “Quando completei 70, fiz uma das maiores celebrações de aniversário da história do Copacabana Palace. Já fiz a festa, para que vou insistir? A vida já me deu tudo. Acho que sou um devedor, porque ganhei mais do que devia. Mas quero continuar aí e como diria o Zagalo, vão ter que me aguentar por muito tempo. Vocês vão ter que me engolir”, esbraveja. 



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