Menalton Braff entrelaça política e trajetória familiar em trama de novo livro, passada durante os anos de chumbo

O autor avisa: "Não se trata de romance histórico"

por Carlos Herculano Lopes 04/08/2012 10:44

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Camila Ruiz/divulgação
Menalton Braff se inspirou em casos contados por um amigo para escrever o seu novo romance (foto: Camila Ruiz/divulgação)
Depois de publicar vários livros com narrativas atemporais, não localizadas no tempo e no espaço, o escritor Menalton Braff optou, em O casarão da Rua do Rosário, seu novo romance, por contar uma história situada no Brasil. Ela vai da 2ª Guerra Mundial ao início dos anos 2000, com ênfase para o período pós-1964, quando os militares tomaram o poder.
Como pano de fundo está a política, que desencadeia verdadeira “revolução” familiar quando, depois de ter o marido sindicalista preso, uma mulher se vê obrigada a voltar com os filhos pequenos para o antigo casarão da família. Ali vivem quatro irmãs solteiras e um irmão com problemas mentais. O outro, funcionário público aparentemente bem-sucedido e casado, instalou-se mais longe. Pelo cargo que ocupa, é o preferido das solteironas. Elas não poupam esforços para agradá-lo, além de oferecer-lhe lugar de honra na mesa.
Não é difícil, num quadro como esse, imaginar o conflito que se estabelecerá com a chegada dos parentes, sobretudo porque os novos moradores não aceitam as normas ditadas a ferro e fogo pela primogênita.
 Gaúcho radicado no interior de São Paulo, Menalton Braff avisa: não se trata de romance histórico, embora esteja cravado na história. “O projeto me fez abrir mão de certas convicções literárias, mas isso foi para o bem. A ideia de desenvolvê-lo surgiu a partir de casos contados por um amigo sobre sua vida familiar. Isso foi o suficiente para desencadear a imaginação. Mas ficou só por aí, pois, no decorrer da escrita, o romance ganhou vida e seguiu os próprios caminhos. Do que me contou aquele amigo talvez não tenha restado nada no livro, além da ideia. Na realidade, ele me deu a espoleta que detonou o tiro”, diz o escritor.
Conseguindo manter média invejável de publicação, acelerada depois de sua aposentadoria como professor universitário, Menalton Braff afirma que O casarão... lhe tomou muito tempo, a exemplo de outros livros seus, como A sombra do cipreste, com o qual ganhou o Prêmio Jabuti em 2000, e A coleira no pescoço. “Se o mais prazeroso é o ato de produzir, então, para que ter pressa? Além do mais, acho que, sem esforço e disciplina, o romance é quase uma impossibilidade. Reescrevi O casarão... uma infinidade de vezes. Sou muito lento e acho ótimo não ter prazos a cumprir”, diz.
Na história narrada na primeira pessoa pelo jovem Palmiro, Menalton conseguiu manter uma trama densa, que se intensifica à medida que a história avança casarão adentro ou no seu entorno cercado de mistérios, segredos bem guardados e lembranças, algumas de arrepiar os cabelos.
EMOÇÃO Numa passagem de grande emoção, a mãe de Palmiro, que luta para se adaptar à nova situação, toma-o pelas mãos e, aos poucos, apresenta-lhe a casa de sua infância. “Na sala, me mostrou como eram as reuniões de família, com seu pai em uma das cabeceiras e a mãe na outra. Os mais velhos, também mais próximos do patriarca, aquele ali, na parede, com as pontas do bigode branco parecendo chifres de búfalo. Sentada no antigo lugar do pai, agora ocupado por sua irmã Benvinda, comigo na cadeira mais próxima, me contou alegrias e tristezas, decisões severas, festas e barulhos”, escreve Braff. 
Praticamente só, essa personagem luta para descobrir o que aconteceu com o marido desaparecido. Está aí um dos pontos sensíveis da trama. O restante do clã é de um reacionarismo atávico. Um dos primos, Rodolfo, chega a se tornar deputado pelo partido que apoia os militares. Lançando mão de uma passagem da história contemporânea do país, Braff mostra como Rodolfo, que esporadicamente visitava o casarão, criou sua versão para a morte do jornalista Wladimir Herzog, ocorrida nos porões da polícia política. Ele pergunta, durante uma conversa: “Não vai dizer que também acredita naquela história de que o Exército matou esse bandido. Como é mesmo o nome dele?”.
Ficção à parte, Menalton Braff, durante os anos de chumbo, chegou a viver durante muito tempo na clandestinidade e foi perseguido pela ditadura. “Um sufoco”, segundo ele.
Dramas familiares, situação política extrema que divide opiniões e pessoas. Tudo isso torna O casarão da Rua do Rosário leitura prazerosa e obrigatória para aqueles que desejam conhecer um pouco da história recente do Brasil. Mesmo que alguns ainda insistam em jogá-la para debaixo do tapete ou fingir que nada aconteceu. 
 
O casarão da Rua do Rosário
De Menalton BraffEditora Bertrand Brasil, 350 páginas, R$ 39 


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