Entrevista - Ana Elisa Ribeiro

Cronista mineira fala sobre a seleção de textos para a obra "Chicletes, Lambidinha e Outras Crônicas", revela suas influências e fica na 'diplomacia' ao comentar a relação web/papel

por Emerson Campos 23/07/2012 21:04

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Alan Rocha/Divulgação
Escritora mostra seu primeiro livro de crônicas, lançado este mês pela editora Jovens Escribas (foto: Alan Rocha/Divulgação)

Desde que a escritora mineira Ana Elisa Ribeiro começou a publicar no site 'Digestivo Cultural' já se vão praticamente dez anos com contribuições quinzenais, o que torna tarefa complicada precisar exatamente quantas crônicas assinadas por ela foram postadas por lá. Mais difícil ainda é escolher as 'preferidas', mas, em comemoração à década como cronista virtual, Ana aceitou o desafio e garimpou entre mais de uma centena de textos os que queria transportar para o papel. Ela lança neste mês, pela editora Jovens Escribas, a obra "Chicletes, Lambidinha e Outras Crônicas", que reúne em 208 páginas os textos "mais diversificados" que foram ao ar desde 2003 no 'Digestivo'.

Em entrevista ao Portal Uai, Ana Elisa - que também é professora e pesquisadora na pós-graduação de Estudos de Linguagem do Cefet-MG - falou sobre o trabalho de seleção para o livro (seu primeiro de crônicas), contou quais são suas influências na poesia, explicou o 'mineirês' em alguns textos e foi diplomática ao comentar a relação web/papel: ''eu curto ambos''. Confira a entrevista:

Portal Uai - Primeiro vamos ao livro. O que os leitores vão encontrar em "Chicletes, Lambidinha e Outras Crônicas" e o que eles não acharão de forma alguma nas 208 páginas da obra?

Ana Elisa Ribeiro - "Chicletes, Lambidinha" foi um título ambíguo, de propósito. O leitor vai achar muitas crônicas no livro, claro, mas vai achar nelas humor, sensibilidade e narrativas leves, bem leves. Fizemos o possível para compor um volume com crônicas menos datadas, de temas menos "moda", entende? Pra deixar o leitor viajar nos textos, identificar-se com as histórias. É um livro mais narrativo do que dissertativo. Isso o torna um livro fácil de ler, acho. O menos chato possível. O leitor não vai encontrar pornografia (embora o título deixe algumas pessoas arrepiadinhas) e nem comentários sobre política e esportes.

Portal Uai - São dez anos de crônicas. Imagino que selecionar e reunir os textos em um número limitado de páginas dê muito trabalho, ainda mais quando se está acostumada com o espaço "infinito" da internet. Como foi esse processo? Alguma ajuda especial?

Ana Elisa Ribeiro - Muita ajuda especial sim. Tenho muitos amigos leitores e escritores. Alguns são até famosos, sabe? E pedi ajuda a alguns deles, aqueles com quem tenho trabalhado, de alguma forma, nos últimos anos. É muito difícil selecionar crônicas depois de dez anos escrevendo quinzenalmente. Aliás, é difícil fazer escolhas de qualquer jeito! E é especialmente difícil escolher entre as coisas que a gente mesma faz. Ou tudo parece bom ou tudo parece ruim. Sou mais deste último time, da autocrítica. Aí, com muita cara-de-pau, pedi a ajuda de três amigos: o escritor fera Sérgio Fantini, a iniciante Maria Luiza Tavares e o poetaço Bruno Brum. São pessoas que gostam das palavras, sabe? Precisa ter isso no olho e na veia pra conseguir ajudar. E outra: precisa ser sincero, franco, mas também elegante. E eles são. E me ajudaram a escolher crônicas legais. A gente separou um outro volume (que ainda virá) só sobre o tema leitura. Mas o "Chicletes" ficou com os textos mais diversificados. Aceitei os comentários dos meus leitores e mandei ver. Olha, fiz essa tentativa por anos. Nunca consegui fazer essa seleção sozinha. Sempre achava ruim. Foi bom fazer dez anos como cronista. Agora tem mais material e mais peso.

Portal Uai - Ainda sobre internet e papel. Agrega mais valor ao trabalho vê-lo eternizado em um livro ou não é bem assim, principalmente se tratando de um espaço on-line que é nobre, como o Digestivo Cultural?

Ana Elisa Ribeiro - O Digestivo é muito lido. Há crônicas minhas lá que foram lidas por quase dez mil pessoas. Já imaginou? A tiragem média de um livro, no Brasil, é de dois mil exemplares. Veja só. Não se compara. Só que fazer o livro continua importante. Tenho crônicas quinzenais esparsas, que vêm sendo lidas todos os dias, há anos. Mas no livro a gente concentra uma energia diferente. E as pessoas que compram o livro nem sempre são as mesmas que me leem no Digestivo. São outras, complementares ao público do DC. Tem gente que se surpreendeu em saber que eu escrevia prosa! (É que me conhecem como poeta por aí). Bom, o livro é um outro tipo de tiro, noutro alvo. O retorno dele é diferente também. Nunca me fizeram uma resenha das crônicas do DC. Do livro, parece que farão. Tem um mecanismo todo diferente nisso. E eu curto ambos. Sem dúvida.

Portal Uai - Dá para explicar a escolha das duas crônicas – Chicletes e Lambidinha – para compor o título do livro ou é segredo de estado?

Ana Elisa Ribeiro - Segredo nada! É que colou bem. Eu estava naquele perrengue pra escolher o título. Tenho certa fama de ser boa de título. As crônicas têm bons títulos também (uma parte, né). Daí eu não queria pedir ajuda sobre isso. Batizar livro é coisa muito séria! É como encomendar o nome do seu filho aos outros, sabe. E aí eu comecei a juntar os títulos das crônicas, aquela coisa de escolher um título de uma delas para nomear o livro. Isso é um clássico. De repente, pintaram Chicletes e Lambidinha. Pronto. Dava uma liga boa, eram títulos de crônicas que estão no livro, são curtos, fáceis, palavras ágeis, espertas. Funcionou. E deu uma ambiguidade gostosa, né? Fácil de gravar. Rolou piadinha. Muita gente me perguntando se eu daria lambidinhas no dia do lançamento... aí ficou batizado. Depois fiquei sabendo que a Sabrina Sato distribuiu lambidinha mesmo em algum evento em São Paulo, uma semana depois. Vai que a coisa pega?

Portal Uai - Falando agora da Ana Elisa Ribeiro, da poeta e da professora. Ela costuma fazer bastante sucesso no Twitter como @anadigital e aparece sempre por lá. Essa 'presença constante' na web ajuda a divulgar seu trabalho como escritora e cronista?

Ana Elisa Ribeiro - Ah, acho que sim. Faço essas coisas há anos, desde que entrei na web, como usuária. Curtia chat, blog, etc. Meus blogs rolaram (e com sucesso!) em 2000 e 2001, cara! Sou veterana nisso. Do tempo em que blog não vinha com ferramenta de comentário. Tem gente descobrindo o blog hoje! Então uso essas ferramentas um pouco por curiosidade, para entender como funciona, outro tanto porque são meio assunto profissional pra mim. Mas, sem dúvida, uso as redes sociais pra divulgar minhas coisas, meus textos, meu trabalho. É ótimo para isso também.

Portal Uai - E o lado professora e pesquisadora em Estudos de Linguagens? Também está presente nas crônicas?

Ana Elisa Ribeiro - Bastante. No livro "Chicletes, Lambidinha" até que não. As crônicas ali são meio cotidianas, aquele negócio batido de dizer que o cronista observa a vida. Mas o outro volume, que virá depois, concentra as crônicas sobre formação do leitor, leitura, livros. Sempre falo disso nas crônicas. A que está no ar se chama "A herança e a partilha" e fala do processo de alfabetização do meu filho, que tem 8 anos. É bacana. As pessoas se emocionam, comentam comigo. O cronista é um cara meio inserido na vida das pessoas de um jeito diferente do poeta, do romancista. A interação com o público é outra. Teve gente que chegou perto de mim e disse: "eu sempre leio você e gosto. Aquele seu texto sobre X ou Y me emocionou". Às vezes nem lembro direito o que escrevi. A pessoa leu uma crônica de 2004 e minha vida mudou toda! É bem divertido. Muito professor que usa meus textos em aula. É muito bacana. A professora e pesquisadora está ali, tentando dar fundamentação às coisas, mas evito o dito "tom professoral" nas crônicas. O espaço ali é para um bate-papo, simétrico com o leitor, entende? Acho que consigo.

Portal Uai - Ana, qual sua maior influência para escrever? Algum estilo ou escritor em especial?

Ana Elisa Ribeiro - Influência na poesia é fácil: o Cacaso, o Chacal e o Leminski. Eu li muito, muito mesmo, enquanto estava no ensino médio (e não foi por conta da escola). Muita coisa deve ter me influenciado. Mas o que acho fundamental mesmo é que eu experimentei e arrisquei até achar um jeito meu de escrever. Acho que ele está nos meus textos. Isso é influência que vira marca. Sei lá. Na crônica eu não sei como foi. Não fui leitora assídua de cronistas. Claro que li os mineiros, li o Sabino demais, li o Verissimo e o Millôr, lógico. Amo as crônicas do Eduardo Almeida Reis. Curto muito o Carlos Herculano Lopes. Mas não sou uma especialista. Minha crônica é uma espécie de derivação da minha poesia misturada com meu jeito de conversar.

Portal Uai - E o que é crônica para você?

Ana Elisa Ribeiro - Um texto leve, livre e ágil. Um jeito de salvar nossas percepções das coisas, tenham elas a importância que for. É difícil definir. No livro há umas tentativas.

Portal Uai - Você acha que o "mineirês" presente em alguns dos textos, como "O Twitter e as Minhas Escolhas", pode ajudar no sucesso da obra aqui nas alterosas?

Ana Elisa Ribeiro - Ah, eu nem reparei que tinha tanto mineirês assim, sô! Estou dizendo que o livro é uma conversa! Somos bons de papo. Se o leitor entrar no livro pra trocar uma ideia comigo, ele vai conseguir! Não é um livro sisudo, inacessível. É um bate-papo, como eu disse. Muita história de família (toda mineira), muita situação simples. Mas olha, não é um livro sobre mineiros, para mineiros. É só meu jeito de falar que deve estar ali.

Portal Uai - Onde acho seu livro para comprar em BH? E não estando aqui, como fazer?

Ana Elisa Ribeiro - O livro é da editora Jovens Escribas, de Natal (RN). O editor que me provocou lá foi o Carlos Fialho. Eles fazem um barulho danado em Natal, não apenas lançando livros, inclusive de autores de fora de lá (como eu e o Fantini), mas promovendo a formação de leitores, por meio de eventos que envolvem escolas públicas, etc. Trata-se, portanto, de uma editora pequena, com distribuição difícil. Haverá venda pela internet, mas ainda não está disponível. O "Chicletes, Lambidinha" está à venda na livraria Scriptum, em BH, ali na Fernandes Tourinho, na Savassi, perto da Cristóvão Colombo. Eles promoveram o lançamento da obra este mês e têm lá exemplares. Vou lançar o livro em São Paulo, na livraria Martins Fontes da Paulista, na próxima quarta, dia 25, e em Natal, dia 19 de agosto. Esses serão os focos do meu livro. Se as pessoas quiserem me escrever, dar uma tuitada (@anadigital), eu indico o caminho.

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