Artista plástico Mário Azevedo faz da matéria a parceira de sua obra

Acrílico, pigmentos, fitas e, sobretudo, papel ganharam dimensão poética nos trabalhos expostos em Ouro Preto

por Walter Sebastião 15/06/2012 08:39

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Marcos Vieira/EM/D.A Press
O mineiro Mário Azevedo participou da emblemática mostra Como vai você, geração 80?, no Rio (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
A estante do alquimista. O artista plástico Mário Azevedo usa essa imagem para falar da exposição que está apresentando no Centro Cultural e Turístico do Sistema Fiemg, em Ouro Preto, até 1º de julho. A mostra reúne desenhos-pinturas, objetos e instalações criados com papel, pigmentos, sinais, acrílico e impressões. As peças, conta ele, trazem “em outro ciclo” questões sempre presentes em seu trabalho, como o despreender de elementos pictóricos e gráficos dos suportes a que estão convencionalmente associados.
“Gosto de pensar que estou desdobrando códigos. Trabalho com as possibilidades da linguagem humana, que está vilipendiada, expandida e recriada a partir da representação material delas”, observa Mário. As obras trazem textos não verbais, acredita ele.
“Arte é encontro da linguagem com a matéria, com a cultura. Busco encontrar lugares onde isso ocorra de forma instigante e poética”, explica Mário. Ele se recusa a desconsiderar a materialidade na – e da – arte em favor apenas do pensamento sem que isso implique desapreço pela elaboração intelectual. “As matérias são minhas parceiras. É relação de afeto”, observa.
Um dos exemplos disso é a longa, multifacetada “e insistente” dedicação ao papel, presente ao longo de toda a obra dele: “Não é só matéria, tem significado cultural”, explica. Já o acrílico, usado pela primeira vez, possibilita explorar a cor como luz e matéria.
“A operação artística tem algo da alquimia”, acrescenta Mário Azevedo, ao se referir a operações com materiais, que também visam às transformações de ordem espiritual.
Mário Azevedo tem 55 anos e é formado pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. Lá, fez mestrado em poéticas visuais e, desde 1994, dá aula de pintura. Doutorou-se em teoria, história e crítica de arte na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com estágio na Université de Picardie Jules Verne, na França, dedicando-se a textos do pintor uruguaio Torres Garcia.
O mineiro participou da famosa mostra Como vai você, geração 80?, realizada em 1984 no Parque Lage, no Rio de Janeiro, considerada por ele a “Semana de Arte Moderna dos artistas contemporâneos”. A carreira de Mário começou em 1980, no Salão Nacional de Arte da Prefeitura de Belo Horizonte. Em 1981, fez a primeira exposição individual, na galeria Gesto Gráfico, em BH.
 
Três perguntas para... 
MÁRIO AZEVEDO
ARTISTA PLÁSTICO 
 
O que os anos 1980 trouxeram para a arte?
A resposta é difícil, pois, para mim, aquilo tudo aconteceu outro dia mesmo e não consigo ter afastamento suficientemente neutro para falar. Mas posso afirmar: foi ali que nós, artistas jovens e brasileiros, nos abrimos para o mundo. E o mundo começou a se abrir pra nós. Assumimos a liberdade de pensamentos, de linguagens e, mesmo, de uma abordagem da cultura, da história e da nossa identidade, que vinha se empobrecendo tristemente. Independentemente disso, o legado dos anos 1970 foi fundamental e muito importante para isso ocorrer. Prefiro não acreditar em antagonismos e, assim, pensar em sobreposições; uma coisa não exclui a outra. Daí que os anos 1980, ao menos em sua produção plástico-visual, vai desaguar escancaradamente na produção dos anos 1990. Talvez só tenha ocorrido alguma ruptura disso no fim da década de 1990 e início dos anos 2000, com a afirmação dos meios e mundos digitais entre nós.
O que o artista-professor aprende dando aulas? O que se pode ensinar sobre arte?
Aprendo, principalmente, a não deixar minhas motivações se perderem, a não me conformar, a me manter antenado, em guarda, como um guerreiro e/ou diplomata, tentando me aprofundar cada vez mais naquilo que tenho feito desde que pus os pés como aluno na escola onde hoje dou aulas. A permanecer, sempre, como um estudioso. O sentido tradicional do termo ensinar não se aplica muito bem no caso das artes. Depois de acumular alguma experiência, posso estar ao lado de quem procura estreitar suas relações com a linguagem da arte e com a sua elaboração. Busco desenvolver um projeto de trabalho junto com eles. É claro que posso ensinar muito sobre o fazer, mas espero construir sobretudo uma reflexão sobre o fazer arte. Toda criação tem um pensamento junto, interior. Considero a prática da/com a arte como a construção de um conhecimento, exatamente como ocorre nas ciências e em outros domínios do saber.
Que artistas você admira?
Vou ficar com um repertório anterior à minha geração: sou admirador da obra de Antônio Dias, Dudi Maia Rosa e do “estouro” Hélio Oiticica. Mas, anteriormente, sou amante da obra de Paul Klee, Mira Schendel e do genial Amílcar de Castro. Voltando mais atrás, fico com o Volpi e o Guignard, prestando meus créditos ao pensamento lírico-construtivista mais livre da história da arte brasileira. Ultimamente, tenho refletido afetuosamente sobre os trabalhos da Ione Saldanha, do Raimundo Colares, do Torres-Garcia e da Maria Helena Vieira da Silva. Encontro muito estímulo nos textos do John Cage e nas aprontações do grupo Fluxus. Minha geração tem artistas muito talentosos, com obra em curso de alta qualidade. Como tenho grandes amigos no meio e sou admirador do trabalho de muitos deles, não vou apontar um nome. 
 
MÁRIO AZEVEDO
Desenhos/pinturas, tiras e objetos. 
Centro Cultural e Turístico do Sistema Fiemg. Praça 
Tiradentes, 4, Centro de Ouro Preto, (31) 3551-3637. Diariamente, das 9h às 19h. Entrada franca. Até 1º de julho. 


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