Espaços culturais públicos de BH ainda não atraem todos os interessados

População se sente inibida em entrar em algumas instituições e cobra informações sobre programas gratuitos

por Thaís Pacheco 27/04/2012 07:00

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Fotos: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
A estudante Carina Gabrich está ligada em programação cultural de graça e não perde exibição de filmes no CCBH (foto: Fotos: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)
 
Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena; Centro de Cultura Belo Horizonte, na esquina da Rua da Bahia com a Avenida Augusto de Lima, ambos no Centro; e Memorial Minas, na Praça da Liberdade, no Bairro Funcionários. São todos espaços públicos. Eles pertencem à população. Oferecem cultura em programação diversa, que vai de visita a museus, bibliotecas e sessões de cinema até peças de teatro e apresentações musicais. No Centro de Cultura Belo Horizonte (CCBH) e Memorial Minas, a programação é sempre gratuita. No Palácio das Artes, também há eventos com acesso gratuito, outros com preços populares e eventos privados que definem o valor dos ingressos.

Esses são apenas três exemplos. Belo Horizonte tem 16 centros culturais com programação gratuita em diferentes regiões da cidade, mais de 20 museus, muitos deles com entrada franca ou preço popular, incluindo as casas do Circuito Cultural Praça da Liberdade, bibliotecas e galerias. Mantidos pela prefeitura, governo do estado e iniciativa privada, eles estão de portas abertas. Mas fica a pergunta: o público sabe disso?

Quantos, dos 2,2 milhões de moradores da cidade, frequentam de fato esses lugares? Quem, por falta de costume, chega a ter medo de entrar em alguns desses espaços por não saber como se portar, desconhecer valores de ingressos e programação? E, não menos importante, o que esses lugares fazem para atrair o público?

Anna Cecília Santana do Amaral e Henrique Lima têm 20 anos. São namorados, universitários e estudam medicina. Na tarde de quarta-feira, no intervalo entre uma aula e outra, conversavam sentados num banco da Praça da Liberdade, em frente ao Memorial Minas. “Já foram ao memorial?”, perguntou a reportagem do Estado de Minas. “Não. Onde?”. Eles ainda não tinham ouvido falar no espaço. Mas aceitaram o convite para uma voltinha rápida. Foi a título de reconhecimento do local, já que a visita guiada leva duas horas.

Ao fim do trajeto, estavam satisfeitos. “Só costumo visitar museus quando viajo para outra cidade ou país. Os que visitei na Escócia, não achei tão bons quanto esse. Lá não tem essas coisas de multimídia e interação. Gostei muito. Achei a infraestrutura muito boa, a interação das salas antigas com outras de tecnologia mais avançada é muito interessante”, resume Henrique Lima.

A namorada, Anna Cecília, garante que vai voltar e levar a mãe, com quem já foi ao Inhotim. Eles não sabem explicar por que, mas simplesmente não sabiam da existência do local. Henrique aproveita para deixar uma dica: “Você passa aqui e não vê nada. Apenas uma placa da Secretaria da Fazenda. Não sabe que tem um memorial e gratuito”. Além da falta de sinalização, um segurança de terno na porta ajuda a intimidar os transeuntes com menos coragem de entrar e perguntar o que funciona ali.

No Centro de Cultura Belo Horizonte (CCBH), entre cidadãos apressados, é um pouco mais difícil encontrar alguém com tempo disponível para conhecer um novo local na cidade. Todos têm pressa e compromisso marcado. Alguns se prontificam a voltar depois, com tempo, para conhecer o espaço. Mas Paulina Maria, de 19, aceita o convite. Mora em Belo Horizonte há apenas dois meses. Veio de Maceió para estudar na cidade, onde espera encontrar melhores condições de estudo e oportunidades de trabalho. 

Ainda não havia entrado, mas já sabia tudo o que rolava no CCBH. Isso porque Paulina mora com Carina Gabrich, estudante, de 18, que faz curso pré-vestibular no Centro de BH. Tanto no Palácio das Artes quanto no CCBH, Carina é do tipo que chama os seguranças pelo nome, assídua que é. “Procuro programação na internet e descubro muita coisa pelo Facebook”, conta. 

A programação preferida de Carina é a cinematográfica. No Cine Humberto Mauro, do Palácio das Artes, acompanhou as mostras dos irmãos Coen e Luis Buñuel. No CCBH, gosta da sessão das quartas-feiras,  às12h30, o projeto Cinema de bolso. “É um incentivo, você está na correria e tem a chance de um momento de diversão no almoço”, diz.

Assim como Henrique, Carina acredita que faltam esforços para atrair o público. “Existe alguma divulgação, mas precisa ainda de mais, e também mais incentivo, porque o brasileiro não está acostumado a consumir cultura. Quantos milhões estamos gastando com o Mineirão e não com cultura?”, questiona.
 
z Portas abertas

l Palácio das Artes
Funciona das 9h às 21h, mas cada espaço tem seu horário. As galerias, por exemplo, abrem às 9h30 e o Grande Teatro e Cine Humberto Mauro abrem as portas para programações pré-agendadas. Espaços comuns, como o jardim e a biblioteca, podem ser usados sem agendamento. Para conhecer todos os espaços e conferir a programação, acesse www.fcs.gov.br ou ligue (31) 3236-7400. Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro.

l Centro de Cultura Belo Horizonte
No espaço há sempre uma exposição fixa de artes plásticas, biblioteca e o BH digital, que oferece uma hora de internet gratuitamente. Na programação atual há o Cinema de bolso, que exibe filmes nacionais às quartas-feiras, às 12h30. Idosos que quiserem ir em grupo podem marcar sessão no programa Cinema, café e companhia. O CCBH funciona de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h, e aos sábados, das 10h às 16h. Informações: (31) 3277-9248 e 3277-4384. Todas as atrações têm entrada franca. Rua da Bahia, 1.149, esquina com Avenida Augusto de Lima, Centro.

Memorial Minas 
O memorial tem visitas guiadas de hora em hora ou visitação individual com monitores à disposição para esclarecer dúvidas. Tudo gratuito. Funciona às terças e quartas-feiras, das 10h às 18h; às quintas, das 10h às 22h, sextas e sábados, das 10h às 18h; e aos domingos, das 10h às 14h. Informações: (31) 3343-7317 e www.memorialvale.com.br. Praça da Liberdade, s/nº, esquina com Rua Gonçalves Dias, no antigo prédio da Secretaria da Fazenda.

Público não se sente à vontade

Com algum incentivo, as pessoas se mostram dispostas a conhecer os espaços culturais. No Palácio das Artes, por exemplo, Isterlei Goulart, de 40 anos, professor de matemática, morador de Lagoa Santa, e o auxiliar de farmácia Cláudio Martins, de 30, morador de Ribeirão das Neves, aceitaram o convite para entrar, pela primeira vez, na instituição. 

Cláudio tem vários motivos para nunca ter ido ao local. “ Às vezes a gente trabalha muito e no fim de semana, no tempo livre, quer descansar. Você também não tem noção de preço das atrações ou programação. Também não tenho pessoas do meu convívio que têm o hábito de vir”, conta. Isterlei, seu colega em um curso de brigadista, apesar de passar pouco pelo local, diz que sente falta de um atrativo externo para convocar a população. “Até vejo algumas coisas nos jornais da TV, mas não sei o que é pago ou não e, em prédios públicos, nem sempre a entrada é acessível”, diz.

Depois de uma volta pelo prédio principal, conheceram os outros espaços, jardim e a galeria Mari’Stella Tristão. Gostaram do que viram. “Nunca fui em galeria de arte. No meu grupo de amigos, nunca ouvi falar de alguém que vai ou frequenta. Do Cine Humberto Mauro eu já tinha ouvido falar, mas não sabia onde ficava”, diz Claúdio. “Pessoas de classe social mais baixa não costumam ter pais intelectualizados que passam boa educação para os filhos, levam ao teatro ou cinema. As pessoas do meu meio, por exemplo, vivem mais do lazer do bairro. Às vezes, não têm nem dinheiro para pegar ônibus e ir a outro lugar”, analisa.

Ele acredita que um local como o Palácio das Artes intimida. “Quem não tem acesso ou convivência com pessoas que consomem cultura se inibe em entrar”, diz. Assim como Anna Cecília, Henrique, Gabriela, Paulina e Isterlei, Cláudio cobra mais estímulo. “Se governo, prefeitura ou empresas estimularem, as pessoas podem conhecer, saber que é de graça, se interessar e criar o hábito de consumir arte”, conclui.

Divulgação A assessoria de imprensa do Memorial Minas garante que ações mensais desenvolvidas na Praça da Liberdade são usadas para estimular a visitação do público. “Há ainda campanhas publicitárias em todas as mídias, distribuição de flyers, site institucional e divulgações pontuais”, enumera o assessor, Marcone Andrade.

No Palácio das Artes, a presidente da Fundação Clóvis Salgado, Solanda Steckelberg, lembra a função da casa. “Cuidamos desse equipamento e, como funcionários que prestam serviço, trabalhamos para 20 milhões de donos, que são os mineiros”, diz. A divulgação de eventos é feita em todas as regionais da Prefeitura de BH e em mídias como relógios de rua, ônibus e rádios comunitárias, incluindo a Rádio Feira, da Feira de Artesanato da Afonso Pena. As ações são divulgadas também por meio de performances dos corpos artísticos da casa, que atraem a atenção de quem passa na rua.

No CCBH, o coordenador Gilvan dos Santos também aposta no Programe BH, guia cultural gratuito distribuído em diversos pontos da cidade, flyers em estabelecimentos da vizinhança, assessoria de imprensa e banners instalados na lateral do prédio. Assim como as demais casas, o CCBH está com as portas abertas para a visitação de escolas públicas e privadas. “Isso é uma forma de divulgação e também de formação do cidadão, que pode reconhecer os espaços como sendo dele. Ele passa a ser multiplicador e se sentir pertencente a esse espaço. Assim, passa a proteger, dar valor e sentido a isso”, afirma Gilvan.


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