Livro escrito por pesquisadores das áreas de história, antropologia, política e cultura busca a síntese da mineiridade

Trabalho serviu de base para o Memorial Minas, na Praça da Liberdade

por João Paulo 20/04/2012 10:20

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fotos: Editora UFMG/Reprodução
Carlos Drummond de Andrade: poesia e história (foto: fotos: Editora UFMG/Reprodução)
“Condensar Minas Gerais numa antologia não será o mesmo que prender o mar na garrafa?”. A pergunta de Carlos Drummond de Andrade dá a dimensão da ousadia de Minas Gerais, volume que será lançado hoje, às 17h, no Memorial Minas Vale, na Praça da Liberdade. Organizado pelos historiadores Heloísa Starling, Sandra Regina Goulart Almeida e Bruno Viveiros Martins e pelo design Gringo Cardia, o livro reúne textos de pesquisadores de várias áreas do conhecimento, cujo projeto é oferecer um olhar amplo, compreensivo e plural da sociedade e da cultura mineira. 
O trabalho é resultado da pesquisa feita para a criação do Memorial Minas, que reuniu 53 consultores entre historiadores, cientistas políticos, antropólogos, músicos, escritores, jornalistas e economistas. Com o material na mão, o curador Gringo Cardia partiu para a concepção do memorial, traduzindo em projeto museográfico o conhecimento gerado pelo grupo. O passo seguinte foi reunir todo esse esforço intelectual em livro, o belo volume Minas Gerais. 
Para a historiadora Heloísa Starling, uma das coordenadoras da pesquisa do memorial e organizadora do volume, o que uniu a inteligência e a sensibilidade de tantos estudiosos foi o empenho “em dar um futuro ao passado”. Como Minas é plural e múltipla, a escolha dos temas foi se desdobrando, em diálogo com o projeto do memorial. Desde o início da pesquisa, ficou clara a impossibilidade de sedimentar o conhecimento sobre o estado em um espaço limitado e fixo. Como o tempo não para, o propósito foi ampliar os repertórios, abrir frentes que seriam incorporadas num segundo momento. O memorial, nesse sentido, já tem no livro alguns temas que permitirão sua contínua atualização, em diálogo com a realidade social e cultural de Minas Gerais.
A seleção foi feita tendo em mente o equilíbrio dos textos do livro (que fosse ao mesmo tempo legível e profundo) e o conhecimento destacado dos pesquisadores. Assim, foram convidados especialistas em festas populares, revoltas de Minas, pré-história, literatura, caminhos de Minas e artesãos do Jequitinhonha, entre outros aspectos, além de estudiosos da obra de nomes marcantes da cultura mineira, como Milton Nascimento, Darcy Ribeiro, Humberto Mauro, Guimarães Rosa, Sebastião Salgado e Lygia Clark. “Ficou um conjunto de alto nível e muito equilibrado”, avalia Heloísa Starling.
Ela faz questão de destacar o trabalho de curadoria de Gringo Cardia. “Ele dá uma pegada contemporânea e inteligente aos textos do livro.” E chama a atenção para o ensaio de André Prous, “A arte rupestre e a arqueologia de Minas Gerais”. Como explica Heloísa, Gringo intercala ao texto erudito do pesquisador um conjunto de ilustrações e reproduções de desenhos rupestres que, em sua dinâmica, parecem encaminhar para um painel criado por grafiteiros numa rua de Belo Horizonte. “Lembra Basquiat, que mostra a emergência do pré-histórico no contemporâneo”, compara.
No aspecto visual, o trabalho tem outros lances criativos. Cada artigo surge com programação visual própria e valiosa pesquisa iconográfica – no papel, dá a impressão de ser a imagem de um livro aberto. Como cada seção tem uma programação específica, o leitor se sente folheando um conjunto de livros, uma “bíblia” feita de diferentes olhares e tempos. A ideia é, também, deixar explícito que não é possível esgotar com um livro só a riqueza das Gerais.
Polifonia O historiador Bruno Viveiros Martins chama a atenção para a mescla entre tradição e contemporaneidade presente tanto no livro como no projeto do Memorial Minas. “A tecnologia possibilita uma síntese entre tradição e futuro, fazendo conviver elementos do passado cultural com o olhar do presente. Além disso, a mostra mistura mineiros consagrados, como os do Clube da Esquina, com nomes que começam a despontar, como o rapper Renegado”, explica.
A multiplicidade de assuntos não esgota o universo de conhecimento em torno de Minas Gerais. “Daria para fazer mais quatro livros como este”, provoca Heloísa Starling. E é a abertura a aspectos nem sempre valorizados pela cultura tradicional, como a moda, o artesanato, a viola caipira e a fotografia, que dá ainda mais abrangência a Minas Gerais. Além disso, ao fugir da cronologia – a publicação começa com ensaio de José Murilo de Carvalho sobre a tipologia política de Minas, volta ao século 18 com artigo sobre a Minas rebelada, de Carla Anastasia, e segue pelos caminhos de descaminhos mineiros, em ensaio primoroso de Heloísa Starling –, cria-se a impressão de polifonia, do diálogo continuado de muitas vozes em torno de um mesmo motivo musical.
Mesmo sendo resultado de trabalho voltado para a configuração do Memorial Minas, tem garantida sua especificidade na bibliografia sobre o estado. É, talvez, a mais bem realizada obra coletiva sobre a realidade social e política do estado, escrita em linguagem acessível, amparada por pesquisa atualizada e apresentada com requintes de iconografia e acabamento visual. Vale destacar os artigos de José Murilo de Carvalho (que puxa o tapete dos estereótipos em torno do político mineiro); o estudo sobre os artesãos do Jequitinhonha, de Carlos Antônio Leite Brandão; a síntese sofisticada de João Antônio de Paula, o artigo “Minas Gerais – Mosaico e polifonia”; e a crônica singela e informada sobre o cotidiano das vilas e arraiais mineiros do século 18, escrita por René Lommez Lopes.
Longe de engarrafar o mar, dá vontade de beber ainda mais a história, a política e a cultura de Minas Gerais.
  
 
fotos: Editora UFMG/Reprodução
Casarão da fazenda em Alegria Minas, de Sílvio Ravanelli (foto: fotos: Editora UFMG/Reprodução)
 
Porta de entrada 
 
O Memorial Minas é uma espécie de convite ao Circuito Cultural Praça da Liberdade. Para o curador Gringo Cardia, o prédio foi pensado como uma extensão da rua, chamando para o diálogo entre a tradição e o futuro. O equipamento tem atraído turistas e oferece programação voltada para escolas públicas. O historiador Bruno Viveiros diz que tem sido comum o retorno dos alunos com as famílias e amigos. O memorial tem, além do projeto expositivo de natureza tecnológica e interativa, programas voltados para o debate cultural.
 
“O movimento da juventude em Minas exibe vitalidade, caso de manifestações como a Praia da Estação e a retomada do carnaval de rua. Isso é muito bom. O livro Minas Gerais e o memorial apenas arranham essa rica superfície. É preciso incrementar esse diálogo, ampliar a discussão sobre a realidade social e cultural do estado. Depois de ganhar as ruas, está na hora de a juventude tomar o Memorial Minas”, propõe Heloísa Starling. Mais mineira, impossível. 
 
MINAS GERAIS
Lançamento do livro organizado por Heloisa Starling, Gringo Cardia, Sandra Regina Goulart Almeida e Bruno Viveiros Martins. Hoje, às 17h, no Memorial Minas Vale, Praça da L
iberdade, s/nº. O livro custa R$ 190 e chega às livrarias de BH na semana que vem. 
 
MEMORIAL MINAS GERAIS VALE
Praça da Liberdade, s/nº, esquina com Rua Gonçalves Dias. Sábados, terças, quartas e sextas-feiras, das 10h às 18h; quintas-feiras, das 10h às 22h; domingos, das 10h às 14h. Agendamento de visita para grupos e escolas: (31) 3343-7317. 


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