Em 'Inferninho', diretores levam para a tela traços do teatro

Povoado por personagens que flertam com o surreal, longa dá vida a bar em que quase tudo vale em nome da fantasia

por Pedro Galvão 23/05/2019 08:50
Embaúba Filmes/Divulgação
Samya De Lavor vive Luizianne, cantora de talento escasso: melodrama alterna momentos cômicos e violentos (foto: Embaúba Filmes/Divulgação)
Em mais uma noite ordinária, a cantora Luizianne (Samya De Lavor) desafina no palco cantando um brega romântico. A clientela de sempre é formada por um homem fantasiado de Mickey, outro com o corpo coberto de tinta prateada e mais um que tenta ser parecido com o Wolverine. Enquanto isso, a proprietária, Deusimar (Yuri Yamamoto), cuida do balcão do estabelecimento. Eis que entra um tipo diferente, logo interpelado sobre sua origem pelo funcionário Coelho (Rafael Martins), que veste uma fantasia cor-de-rosa do animal replicado por seu nome. “De longe”, responde o marinheiro Jarbas (Démick Lopes), cuja presença transformaria os dias no Inferninho, que dá nome ao filme dos diretores cearenses Pedro Diógenes e Guto Parente.

“No começo, queríamos um melodrama que falasse de amor”, conta Diógenes sobre o longa que estreia hoje em Belo Horizonte, no Cine Belas Artes. O projeto surgiu da junção de dois coletivos de Fortaleza: o grupo de cinema Alumbramento e o teatral Bagaceira. “Já nos conhecíamos e nos paquerávamos há algum tempo, no sentido de querer fazer alguma coisa juntos. Até que em 2013 surgiu a oportunidade em um laboratório de roteiro no Centro de Arte Dragão do Mar. Lá começamos a desenvolver, até que três anos depois iniciamos as filmagens”, relembra o cineasta.

Embora fosse desde o princípio uma produção cinematográfica, elementos do teatro, como “o improviso, a gambiarra e a imprecisão que se transformam em potência”, tal qual descreve o diretor, foram preservados e levados para as cenas. “O elenco principal é do grupo Bagaceira. O roteiro, os ensaios, exercícios, todo o processo fomos criando com os atores. Cada um focado no seu personagem. Foi uma criação bem coletiva e sempre tivemos em mente que fortalecesse as duas linguagens, sem que cinema sobressaísse ao teatro. Queríamos levar a teatralidade pro filme, o que muitas vezes é visto no cinema como coisa ruim, mas foi dessa mistura que nasceu Inferninho”, explica Pedro Diógenes.

Como o nome do longa sugere, a trama é totalmente ambientada em um desses estabelecimentos encontrados na boemia de qualquer cidade brasileira, entendidos pelo diretor como “um lugar de se libertar fantasias”. Por isso, parte do elenco aparece pitorescamente caracterizada, como o auxiliar Coelho. Segundo Pedro Diógenes, a protagonista Deusimar é fruto da imaginação de seu intérprete, Yuri Yamamoto, que teve uma vivência pessoal na infância em um desses bares. Assim, sua personagem revela ter “crescido ali”, entre uma dose e outra de Campari com Jarbas, o estranho visitante com quem acaba vivendo um turbulento romance.

Sobre a dona do bar, uma mulher transgênero, ser interpretada por um homem cisgênero, o diretor diz que Yamamoto “era a única pessoa capaz de interpretá-la, justamente por ter criado a personagem a partir de suas fantasias, desejos e imaginações”. Embora a diversidade LGBT esteja presente em outros personagens, Diógenes reforça que a ideia central é uma história sobre “amor livre”. “Partindo de todos esses elementos do inferninho, é uma história sobre amor sem barreiras, sem limites, que simplesmente surgisse ali no inferninho, que é onde as pessoas são quem são, sem precisar de máscaras e, ao mesmo tempo, livres pode botar as fantasias para fora”, argumenta.

A ideia de diversidade está presente também nos sentimentos que envolvem a trama. O amor entre Deusimar e Jarbas, que no começo a leva a sonhar apaixonada com viagens pelo mundo ao lado do marinheiro, encontra empecilhos e contornos dramáticos. Primeiro, por um conflito com a cantora Luizianne. Depois, por um grande empreendimento que ameaça a existência do bar. Além disso, a presença do novo amante atrai figuras perigosas que estão atrás dele.

‘ONÍRICO’


Ao melodrama, que alterna momentos cômicos e violentos, os diretores adicionaram traços de surrealismo. “Juntamos elementos ligados à realidade, de bares como esses que conhecemos em Fortaleza, mas já querendo entrar pelo onírico e pelo fantasioso. É a forma de a trama se renovar e não ficar presa naquele ambiente meio claustrofóbico onde ela se passa”, diz Pedro Diógenes sobre a produção, premiada no Festival Internacional de Cinema Queer de Lisboa (Melhor Filme), em 2018, e com o Prêmio Felix Especial do Júri, no mesmo ano, no Festival do Rio.

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