Tela de Caravaggio roubada pela máfia move trama de longa italiano

Crime ocorrido em 1969 é o mote de "O Caravaggio roubado", de Roberto Andò, que estreia nesta quinta (23)

por Silvana Arantes 23/05/2019 08:30

Pagu pictures/Divulgação
Em O Caravaggio roubado, que estreia hoje, Valéria (Micaela Ramazzotti) é a verdadeira autora dos roteiros que tornaram Alessandro Pes (Alessandro Gassman) famoso (foto: Pagu pictures/Divulgação)
O cineasta Roberto Andò era criança quando ocorreu em sua cidade o que hoje se considera um dos 10 maiores crimes contra a arte, ainda sem solução. A tela Natividade com São Francisco e São Lourenço, de Caravaggio, foi roubada do Oratório de São Lourenço, em Palermo, no dia 17 de outubro de 1969 – Andò nasceu em 1959. A partir da história do sumiço do quadro, ele construiu a trama do longa O Caravaggio roubado, que estreia nesta quinta-feira (23) no Brasil.

“O roubo causou uma impressão muito forte na minha família. A ideia de que uma obra-prima como aquela pudesse ser roubada me deu a sensação de que era uma cidade, como de fato era naquela época, nas mãos da máfia”, diz o diretor, em entrevista ao Estado de Minas. “Tivemos o processo de assassinatos, os grandes julgamentos, mas esse episódio é, para mim, uma espécie de alegoria da atitude da máfia. Eles roubaram também a beleza”, afirma.

Por ter feito dessa “ideia de revelar a beleza escondida” a sua profissão, Andò retomou o desaparecimento do quadro num filme que homenageia “a formidável beleza de Palermo” em cenas que mostram a exuberância de sua paisagem e o refinamento de suas construções. Mas o maior tributo prestado pelo longa é ao próprio cinema.

“É sobre a mágica que é escrever um filme, a infidelidade à realidade que sempre existe em cada ficção”, resume o cineasta. “O que mais me impressionou é que, anos depois do roubo, houve ao menos uma dezena de ‘arrependidos da máfia’ (delatores nas investigações) que falaram dessa história dando versões diferentes, que sempre se revelaram falsas. É como se mesmo os ‘arrependidos’ agissem como roteiristas, pegando elementos da realidade e manipulando-os numa ficção.”

Quem desfia a trama do mistério em O Caravaggio roubado é Valéria (Micaela Ramazzotti). Trabalhando como secretária numa produtora de filmes, ela é, na verdade, a ghost-writer de Alessandro Pes (Alessandro Gassman, filho do ator Vittorio Gassman), famoso – e muito bem pago– por seus roteiros considerados brilhantes. Quando Alessandro encomenda o argumento de um novo filme a Valéria, ela decide escrever sobre o roubo da Natividade pela máfia, com as informações que recebe de um misterioso senhor que se apresenta a ela como especialista em descobrir segredos.

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O filme dentro do filme reconta a história do roubo da Natividade pela máfia, despertando a fúria dos chefões da Cosa Nostra (foto: Pagu pictures/Divulgação)

ELO COM A MÁFIA O que Valéria não podia prever é que o sócio investidor do filme é um laranja da máfia, cujos chefões se enfurecem ao ver a história do roubo contada tal qual ocorreu. A reação que têm é típica. Decidem vingar-se do roteirista, que creem ser Alessandro. E assim Valéria coloca por um fio a vida do homem que ela ama com uma pontada de ódio e ressentimento.

Como observa o diretor, “a história tem diversos níveis correndo em paralelo, há o nível dos personagens principais, centrado na mulher roteirista; depois o nível do filme que ela escreve e nos deixa ver e, por fim, o nível das relações entre eles”. Além de seu amor confuso por Alessandro, Valéria tem uma relação conflituosa com a mãe, Amália (Laura Morante), que também é uma mulher brilhante por trás de um homem que leva os louros por seus conhecimentos, e desenvolve uma parceria improvável com o Sherlock que a aborda na rua e sobre quem não tem nenhuma informação.

“Eu tinha que misturar tudo isso e ter domínio sobre a história. É o esforço que o diretor faz para achar o tom justo para a história que quer contar”, diz Andò. Na busca pelo tom de O Caravaggio roubado ele decidiu fazer “uma referência e uma homenagem a um certo tipo de cinema, ao cinema que amo”. É o cinema de diretores como Billy Wilder (Quanto mais quente melhor, Sabrina, Se meu apartamento falasse) e Peter Bogdanovich (A última sessão de cinema, Lua de papel).

Para chegar ao resultado que queria, o diretor diz que procurou “encontrar com o fotógrafo (Maurizio Calvesi) a dimensão visual que nos fizesse compreender também o que não vemos”, acrescentou “muita sensualidade, porque o filme é também uma espécie de thriller” e contou com “um elenco formidável”, encabeçado por Micaela Ramazzotti, “alguém que amo muito e convidei para um papel diferente, porque normalmente ela faz comédia”.

NOSTALGIA Andò sabe bem que o tipo de cinema que ele ama hoje é “marginal” nas salas de exibição. “Tenho a impressão de que o cinema virou uma bagunça. A antropologia do cinema mudou completamente. Lembro-me das salas de cinema onde vi os filmes mais belos da minha vida e percebo que hoje os filmes são consumidos de outra forma”, diz, para em seguida fazer uma ponderação. “Mesmo se veem no smartphone ou no iPad, as novas gerações continuam consumido cinema. A ideia de que perdemos é uma ideia da minha geração. É preciso ser lúcido e abrir mão da nostalgia.”

Definindo-se como “um pouco esquizofrênico” por dirigir cinema, teatro e ópera e também escrever livros, Andò avalia que “o cinema se libertou de todos os meios artísticos – a pintura, a literatura – e desfruta hoje de um momento em que “o visual é mais forte do que a literatura”. Ele, no entanto, continua escrevendo. Em janeiro, planeja lançar um livro que posteriormente levará também ao cinema, assim como fez com Viva a liberdade (2013).

Sobre as duas atividades, diz que a recompensa que proporcionam é igual, embora a angústia criativa seja vivida de modos totalmente distintos. “Quando você faz um filme, há 100 pessoas em volta e você tentando encontrar a concentração. Um livro você escreve sozinho no seu escritório. Amo muito os dois.”

No roteiro de O Caravaggio roubado, que ele escreveu com Angelo Pasquini, Andò se permitiu um voo em relação ao destino de um dos personagens, que vai parar no Brasil, como uma estrela de TV. “Nasci em Palermo. A Sicília sempre conviveu com a história desses mafiosos rebeldes. Foi uma fantasia a ideia desse criminoso escondido que escolhe ser diferente e até mesmo se tornar mulher. É uma fantasia irônica”, afirma.

Sobre o fim que levou (na vida real) a Natividade, Andò é otimista e não acredita nas versões segundo as quais a tela foi destruída _ou no momento de sua retirada do oratório ou posteriormente, mofando num depósito ou tendo sido atirada a animais. “Acho que o quadro ainda existe e está na parede da casa de alguém.”


SAIBA MAIS
Roubo histórico

Em sua curta vida (1571-1610), produziu em torno de 70 pinturas, diversas delas consideradas obras-primas, como a Natividade com São Francisco e São Lourenço, que retrata o nascimento de Jesus. Dono de uma vida tumultuada e de um temperamento colérico, Caravaggio pintou a Natividade na Sicília, para onde foi fugido de Roma, depois de matar um homem durante uma briga por uma dívida de apostas. Passou antes por Nápoles e Malta. A tela de grandes dimensões compunha o Oratório de São Lourenço, em Palermo.

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