Poeta mineira lança livro dissecando a imprecisão dos dicionários

Desnudar a imprecisão dos dicionários convencionais e ainda dissecar sua estéril neutralidade é inspiração poética do novo livro da belo-horizontina Ana Elisa Ribeiro

por Pedro Galvão 20/05/2019 08:25
Adamo Alighieri/Divulgação
O prisma do bom humor também está presente em Dicionário das imprecisões, em que Ana se debruça sobre 47 palavras (foto: Adamo Alighieri/Divulgação )
Imprecisão: substantivo feminino que significa “falta de precisão, de exatidão; ambiguidade, indefinição, indeterminação”, segundo o Michaelis. Não apenas como verbete, a palavra aparece também nos dicionários em geral como característica, quando as definições técnicas de sinônimos não atendem à complexidade da língua portuguesa. Essa ideia foi o gatilho para o novo livro da poetisa e escritora belo-horizontina Ana Elisa Ribeiro, que acaba de lançar Dicionário de imprecisões, pela editora Leme.

Em 125 páginas, que não demoram para serem lidas, ela discorre em versos sobre 47 palavras do nosso idioma, buscando seus significados de forma imprecisa e poética. Por exemplo, no capítulo dedicado a Filho, o termo aparece indicado como “substantivo, aqui masculino e sujeito a plural” e com oito definições dadas pela autora: “1.Diz-se daquele que nasce das entranhas de alguém; 2.Diz-se daquele que se forma a partir da matriz biológica de seus pais e nasce das entranhas da mulher; 3.Diz-se daquele que pode ser adotado por pessoas dispostas ao amor; 4.Diz-se daquele que provê céus e inferno a outrem; 5.É extremamente comum que tenha como mãe uma puta; 6. É também comum que não sejam mesmo putas suas mães; 7.Os pais escapam a essas acusações; 8.Os dicionários não podem definir essas relações satisfatoriamente”.

Foi justamente o único filho da escritora que iluminou a criatividade da mãe. “Eu já tinha a ideia de escrever um novo livro, ainda no fim do ano passado. Não sabia sobre o que seria. Um dia, meu filho, de 15 anos, estava irritado porque procurou o significado de efemeridade no dicionário e a resposta era ‘aquilo que é efêmero’, ou seja, tinha que ir atrás de outro verbete. E essa geração tem pressa, né? Mas isso me deu a ideia de que precisava, e resolvi escrever sobre isso”, relata Ana Elisa, que é doutora em linguística pela UFMG e professora do Cefet-MG.

Segundo ela, a proposta das poesias era não apenas mostrar a imprecisão dos dicionários convencionais ao significar seus verbetes, mas ainda destacar como eles não são neutros. “Se você vai ao dicionário e compara os significados de mulher e homem, por exemplo, você se assusta. Dificilmente eles conseguem acompanhar os movimentos da sociedade. É provável que muitas edições ainda definam um casal dentro da perspectiva heterossexual”, exemplifica a poetisa, que sobre o termo escreveu: “1.Diz-se de uma dupla composta por pessoas de qualquer combinação entre os sexos, em tese unidas pelo amor; 2.Cabe também aos pombos”.

Embora trate de temas sérios em alguns momentos, como no poema Morte, no qual diz “substantivo feminino, comum a todos, mas mais às mulheres por motivo fútil”, o tom predominante é bem-humorado. “O humor está no meu texto em geral, em publicações anteriores. Não consigo deixar de ser um pouco irônica ou escrever de outro jeito. Às vezes, aparenta humor, mas vêm uma crítica, um sarcasmo, entra tudo no meu texto, em qualquer âmbito que eu escreva, faz parte do meu estilo”, define Ana Elisa.

A ideia abarcou uma seleção de palavras feita espontaneamente. “Não escolhi com muito critério, elas vieram. Foram palavras difíceis. Pensava na dificuldade das definições. Então, não foi nada planejado, até por ser sobre imprecisões”, explica a autora, que buscou explorar esse aspecto inalcançado pelos dicionários, na visão dela. “Eles dificilmente definiriam palavras que estão no livro, como eu também não consegui. Mas o meu é de imprecisões, por isso procurei algumas mais abstratas, sentimentos ou sensações”, diz a mineira, que inclui ainda ‘medo’, ‘carinho’, ‘lugar’, ‘inspiração’ ‘saudade’ no trabalho. Essa última, aliás, tem três capítulos dedicados e é a única palavra a contar com uma definição tradicional, encontrada nos dicionários comuns, sobre seu significado.

“A saudade, além da dificuldade de definição, tem aquele papo de que ela só existe em português, mas não é verdade. Tem também espanhol e é engraçado porque não sabemos se a palavra é a mesma. O que é uma palavra numa língua em termos de sentimentos? Só é possível saber se for um falante nativo. Saudade tem muitas definições. Pedi ajuda do dicionário tradicional até como uma forma irônica de mostrar como às vezes as palavras não alcançam aquilo que queremos dizer. Em alguns casos, elas até complicam mais o que queremos expressar”, argumenta.

Em meio a poemas mais extensos, a exemplo das múltiplas interpretações para o significado da palavra sobre a qual se está falando, como em Mulher, alguns são extremamente curtos. É o caso de Branco: “Adjetivo ou substantivo talvez próprio, talvez comum. P. ex., esta página sem isto”. Em Amor, ela diz: “Substantivo masculino, mas de todos os gêneros, singular. Acalmar os ânimos. Arrefecer / Velocidade de cruzeiro / Sujeito a derivações, desvirtuações, vícios e fim / Ver Paixão”, enquanto em Paixão, os versos são: “Substantivo feminino regular. Assombro, susto; desgoverno e desequilíbrio / É químico, insolúvel / Efêmero, graças a Deus”.



INSUFICIÊNCIA

O conceito das imprecisões não fica apenas nos textos. O projeto gráfico traz ilustrações de Wallison Gontijo, publicadas em papel vegetal, sobre alguns poemas. “Uma das características do livro é assumir a insuficiência das palavras. Levamos isso para os outros aspectos do livro. O Wallison fez as ilustrações e escolhemos aquelas com traço mais borrado, menos preciso”, observa a escritora. Além disso, outros detalhes, como a ausência de uma orelha na capa. Na quarta capa, há um poema publicado que propõe justamente a explicação imprecisa sobre esse termo gráfico, em vez de uma síntese do livro, como normalmente é feito. O volume está à venda em Belo Horizonte nas livrarias Quixote, Scriptum e no site www.impressoesdeminas.com.br.


Delícia
Adjetivo


Gostoso e mais. Ao que se diz que é gostoso,
nem sempre se chega à delícia.
Presume-se mais aproximado ao erótico.
Delícia é restrito a certos gostos poderosos
e aos amores de início.



Dicionário de imprecisões

. Editora Leme
. 125 páginas
. R$ 35
. www.impressoes deminas.com.br

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