Primeiro longa do francês Ladj Ly aborda a violência contra os jovens em Paris

Los Misérables, que foi exibido em Cannes, é contado por um jovem que relata a dura relação da polícia com a juventude dos subúrbios

por 19/05/2019 11:00
AFP / Laurent EMMANUEL
"Estou cansado de que os outros contem nossas histórias em nosso lugar" - Ladj Ly, cineasta (foto: AFP / Laurent EMMANUEL )
Paris – Os distúrbios de 2005 na França explodiram nos subúrbios em que ele cresceu: agora, o diretor Ladj Ly, que começa a ser chamado por alguns de “Spike Lee francês”, apresenta seu olhar sobre esta juventude revoltada no Festival de Cannes.

“Tudo que há neste filme é baseado em experiências pessoais”, diz Ly, de 39 anos, em referência a seu primeiro longa-metragem, Los misérables, que disputa a Palma de Ouro. Para Ly, o subúrbio nos arredores de Paris em que ele vive é seu cenário: Montfermeil, perto de Clichy-sous-Bois, epicentro da revolta urbana que explodiu em 2005 na França, depois que dois adolescentes morreram eletrocutados durante uma fuga da polícia.

A onda de violência, com um pano de fundo de pobreza e desemprego, algo sem comparações no país desde maio de 1968, foi o tema escolhido pelo diretor autodidata, filho de pais malineses.

“Durante cinco anos, filmei tudo o que ocorria no bairro, sobretudo os policiais. Eles chegavam, eu pegava minha câmera e registrava, até o dia em que filmei um verdadeiro confronto”, explicou Ly.

Los misérables narra a história de três agentes durante os distúrbios de 2005 e complementa seu curta-metragem de mesmo nome, indicado no ano passado para o César, a premiação do cinema francês.

“Os subúrbios são barris de pólvora: há clãs e, apesar de tudo, tentamos viver juntos para que não ocorra o caos. É o que mostro no filme. Como cada um administra seu dia a dia para seguir adiante”, completa o cineasta, que lembra ter sido revistado pela primeira vez pela polícia quando tinha 10 anos.

Ly, que destaca a irritação dos jovens que se sentem abandonados pela sociedade, evita cair no maniqueísmo e demonizar as forças de segurança. “Os policiais também estão em modo de sobrevivência, também vivem na miséria”, afirma.

O bairro do diretor, de 5.400 habitantes e com índice de desemprego de 40%, é sede da escola de cinema que ele fundou com o coletivo artístico Kourtrajme, formado por figuras como o artista urbano JR, criado na mesma região.

A matrícula é gratuita, e para as 30 vagas disponíveis em cada especialidade – roteiro, direção e pós-produção – a escola recebe mais de 1.500 candidaturas, a grande maioria de moradores dos subúrbios das grandes cidades da França.

O cineasta quer demonstrar que “é possível fazer filmes sem montanhas de dinheiro” e compartilhar conhecimentos e contatos com quem “não tem nenhum”. “Estas são portas que não se abrem para quem vem de certas classes sociais”, afirmou poucos dias antes do festival.

VOZ PRÓPRIA


Ly estudou na prestigiosa faculdade de cinema Femis, em Paris. Ao mesmo tempo, o diretor acredita que o cinema está começando a se abrir à diversidade. “Porque também se trata disso: estou cansado de que os outros contem nossas histórias em nosso lugar”.

Enfim, ele poderá contar sua história no maior festival de cinema do mundo, evento em que seu filme disputará a Palma de Ouro ao lado de pesos pesados como Quentin Tarantino, Terrence Malick, Pedro Almodóvar e Ken Loach. (AFP)

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