Cinebiografia de Chacrinha traz a trajetória do ícone que marcou a TV brasileira

Chacrinha: O Velho Guerreiro conta a história de José Abelardo Barbosa. Filme é dirigido por Andrucha Waddington e tem Stepan Nercessian no papel do apresentador

por Ana Clara Brant 08/11/2018 08:30

Suzanna Tierrie/divulgação
(foto: Suzanna Tierrie/divulgação )

Chacrinha continua balançando a pança, buzinando a moça, comandando a massa. Depois de virar livro, musical e programa de TV, ele acaba de se transformar em filme, que estreia hoje em todo o país. Chacrinha: O Velho Guerreiro conta a história de José Abelardo Barbosa (1917-1988) a partir do momento em que largou a faculdade de medicina para se aventurar no primeiro “bico” como locutor de rádio. Vemos a guinada de 180 graus da vida do comunicador, um dos ícones pop mais celebrados do Brasil.

Diretor da peça sobre Chacrinha, que ficou em cartaz durante três anos, e do novo longa, Andrucha Waddington afirma que a cinebiografia é uma extensão dos palcos. “O musical foi a minha primeira experiência com teatro. Quando me chamaram para o filme, a gente ainda estava em cartaz. Tinha feito uma pesquisa enorme, então já tinha muito material para o cinema”, explica.

O musical é mais longo do que o filme. Retrata a trajetória do Velho Guerreiro da infância, em Surubim, interior de Pernambuco, ao auge da carreira na TV Globo, no comando do programa de auditório Cassino do Chacrinha. “É uma experiência sensorial por meio da música. Vamos contando imageticamente o universo dele”, diz Andrucha. “No filme, fizemos um outro recorte – da chegada dele ao Rio ao seu retorno à Globo, no começo dos anos 1980. A gente explora outras nuances”, explica.

APELIDO

O longa revela curiosidades sobre o comunicador, como a origem de seu apelido. Insatisfeito com o trabalho na Rádio Clube de Niterói, que ficava numa chácara no Bairro de Icaraí, Abelardo pediu à direção da emissora para comandar um programa de marchinhas. Rei Momo na chacrinha foi ao ar em 1942 – e vingou. Um de seus bordões mais famosos, “Ô, Terezinhaaa”, foi adotado para substituir “Oh, Clarinhaaaa”, referência à anunciante Água Sanitária Clarinha, empresa que acabou falindo.

A história de jogar bacalhau para a plateia também tem origem pitoresca. Patrocinadora do programa, a Casas da Banha comprou grande quantidade da iguaria, mas as vendas foram ruins. O apresentador teve a ideia de anunciar o produto, atirando-o para a plateia. O ato foi polêmico, mas deu resultado: em dois dias, o estoque acabou.

Coube a Stepan Nercessian, mais uma vez, dar vida a Chacrinha. O ator goiano protagonizou o musical e o especial da TV Globo que foi ao ar em 2017, ano do centenário de nascimento do apresentador. Até os familiares de Abelardo se comoveram com seu desempenho. “Os filhos e a viúva, dona Florinda (que tem 98 anos), diziam que iam me ver para matar as saudades dele. Isso é muito gratificante”, celebra Stepan.

O ator observa que quanto mais se escondesse, melhor seria seu trabalho. “O fundamental é a pessoa esquecer o ator e se lembrar do personagem. Chacrinha tinha de reencontrar o seu público. Acho que consegui. Vira e mexe, escuto na rua as pessoas me chamando pelos bordões dele. É bacana”, ressalta.

 

 

 

SALADA

Stepan Nercessian e Andrucha Waddington destacam o ecletismo de Chacrinha. Todos os tipos de artistas cantaram naquele microfone. “Hoje em dia, em que programa você vê a salada musical que ele promovia? De um lado, saía Nelson Ned, do outro entrava Gilberto Gil. Chacrinha fez muito por nossa música, sem preconceito. Os artistas são muito gratos por isso”, acredita o ator.

O cineasta concorda. “Na pesquisa para o filme, percebi que ele nunca foi um cara seletivo em relação à música. O que botava nas paradas de sucesso estourava. Chacrinha foi o maior disc jockey da música brasileira e, talvez, o nosso maior ícone pop”, afirma Waddington.

Com roteiro de Claudio Paiva e colaboração de Julia Spadaccini e Carla Faour, o filme lembra os bordões que se tornaram parte do nosso dia a dia – “quem não se comunica se trumbica” e “vim para confundir, não para explicar” –, mas também aborda pontos polêmicos envolvendo Chacrinha, mesmo não tão explícitos. É o caso da cobrança de jabá, suborno pago por gravadoras a emissoras de rádio e TV para divulgar músicas e artistas. E do boato sobre o romance do apresentador com a cantora mineira Clara Nunes (1942-1983), interpretada por Laila Garin.

“A gente teve a preocupação de não fazer algo chapa-branca. A ideia era mostrar como ele era, que um herói também tem falhas e o ser humano não é perfeito. O objetivo sempre foi humanizar o Chacrinha, apresentando seus defeitos e qualidades”, observa Andrucha Waddington.

“Chacrinha conquistou tudo a duras penas. Brigou com a censura, com a própria TV, com a Igreja. Foi bombardeado desde os primórdios de sua carreira e sofreu preconceito até ser aceito. Não sei como ele se encaixaria no modelo atual de entretenimento, mas, certamente, não abriria mão de sua originalidade”, defende Stepan Nercessian.



Memória viva
O longa tem como um dos produtores associados José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, amigo e um dos chefes de Chacrinha na TV Globo.“Nós nos aproximamos na época do musical. Boni foi uma fonte incrível de material histórico, inclusive do início da carreira do Chacrinha. Um parceiro, no sentido de trazer essa memória viva do Velho Guerreiro”, pontua o cineasta Andrucha Waddington.Thelmo Fernandes faz o papel de Boni. O elenco traz também Eduardo Sterblitch (Chacrinha mais jovem), Gianne Albertoni (Elke Maravilha) e Karen Junqueira como a famosa chacrete Rita Cadillac.Entre os “calouros” do Velho Guerreiro estão os cantores Criolo, Luan Santana e Daúde, em participações especiais.

Três perguntas para... Stepan Nercessian, ator

Qual foi o maior desafio ao interpretar o Chacrinha no teatro, na TV e no cinema?

Além de ser um personagem de mão cheia para qualquer ator, ele é um grande artista. Assim que você fala o nome Chacrinha, já remete à alegria. Ele era tão fenomenal que todo mundo tem uma imagem, uma memória dele. Mas tem o Abelardo Barbosa também, personagem muito rico. Um homem com suas angústias, suas depressões, seu temperamento forte. Foi um desafio transitar entre esses dois lados e dosar a emoção de ambos.

Desde 2016, você está à frente da Fundação Nacional de Artes (Funarte). Que balanço faz de sua gestão?

Termino meu mandato agora, no fim do ano, com a sensação de que fiz o que foi possível. A gente teve muitas complicações no começo, pois saiu ministro (da Cultura), entrou ministro. Foi uma área que sofreu embates. Apesar dos pesares, a única maneira de contribuir era trabalhar muito, tentar levar a coisa pra frente. Conseguimos manter tudo funcionando. Fizemos uma série de correções, criamos um grupo de trabalho.

Qual é a sua expectativa em relação ao governo Bolsonaro, sobretudo no que toca à Funarte e à cultura?

Cultura é uma área muito abrangente. A Funarte é o braço das artes, está ligada a teatro, música, dança, artes plásticas, circo. Por isso, merece um olhar generoso. Também acho importante fazer um trabalho de esclarecimento sobre a Lei Rouanet (que capta recursos da iniciativa privada para projetos culturais). Muitos acham que é uma farra de grana dos artistas, mas não é bem assim. Deve ser trabalho até dos próprios artistas esclarecer o quanto a nossa atividade é importante do ponto de vista financeiro, econômico. Ou seja, o quanto do dinheiro investido volta em emprego e impostos. Acho que depois da polarização que tomou conta do país, boa parte de nós acabou sendo muito execrada. Fernanda Montenegro diz uma coisa sábia: muitas coisas boas passam, mas muitas coisas ruins também passam. Vamos aguardar...

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