Lúcia Murat envereda pelo thriller psicológico em 'Praça Paris', que chega aos cinemas de BH

Estrelado por Grace Passô, o longa mostra a relação de uma terapeuta e sua paciente cercada pela violência no Rio

por Mariana Peixoto 10/05/2018 08:39

Imovision/Divulgação
Grace Passô interpreta a ascensorista Glória, que foi violentada pelo pai quando criança e cujo irmão está preso por chefiar o tráfico. (foto: Imovision/Divulgação)

''Queria muito uma pessoa que não fosse o clichê da atriz negra, bonita e gostosa”, diz a cineasta carioca Lúcia Murat, de 69 anos. “Mas eu sou gostosa”, responde a atriz mineira Grace Passô, de 37. “É verdade”, completa Lúcia, “mas não é clichê”.

Tal diálogo já foi reproduzido pela dupla algumas vezes para falar sobre o trabalho conjunto em Praça Paris. O longa-metragem de Lúcia Murat estrelado por Grace Passô estreia nesta quinta-feira (10) no Cine Belas Artes – o lançamento, por sinal, ocorre no sufoco, depois de ter ficado duas semanas na geladeira, dada a dificuldade de programar salas de arte na capital mineira. A estreia nas demais capitais brasileiras foi no último dia 26.

Uma das mais celebradas atrizes, diretoras e dramaturgas de sua geração, Grace Passô vinha desenvolvendo sua carreira basicamente no teatro. Até agora. A ascensorista Glória é sua primeira protagonista no cinema. Em 2016, ela fez uma pequena participação em Elon não acredita na morte, produção mineira dirigida por Ricardo Alves Jr.

“Não tinha vivência como atriz de cinema, e muitas colegas de trabalho não têm, por vários motivos. Cinema no Brasil tem uma blindagem muito difícil de furar. A forma que outros convites chegaram até mim sempre foi estranha. É engraçada a postura dos cineastas, a maioria homens, que sonham com determinados corpos de personagens e contratam pessoas para irem atrás daquele ideal. Então, tive convites, mas sempre ligados a estereótipos que não me interessaram. Mantive distância do cinema por causa disso”, afirma Grace, que, após Praça Paris, filmou dois longas mineiros ainda inéditos – Temporada, de André Novais Oliveira, e No coração do mundo, de Gabriel e Maurílio Martins.

E foi o teatro que aproximou Grace e Lúcia. Convidada para fazer a dramaturgia da peça Guerrilheiras ou para a terra não há desaparecidos (2015), dirigida por Georgette Fadel, Grace entrevistou Lúcia, que integrou a luta armada durante a ditadura militar. Mais tarde, quando a produção de Praça Paris começou efetivamente, a diretora foi vê-la no teatro. Grace, desde o início, foi sua primeira opção.

PRÊMIOS
“Quando apresento este filme, em qualquer lugar do mundo que seja, só perguntam dela”, comenta a cineasta. No Brasil, Praça Paris foi exibido no fim de 2017, no Festival do Rio – o evento concedeu os prêmios de melhor direção para Lúcia e atriz para Grace. O FEStin, em Lisboa, também deu o prêmio de atriz para ela.

“Eu tinha uma curiosidade em relação ao trabalho da Lúcia, pois Que bom te ver viva (1989, sobre a vida de mulheres que, como ela, atuaram na guerrilha, foram presas e torturadas) foi um filme que marcou muito minha família em determinada época. Além disso, a proposta da Lúcia, desde o início, era ter um processo grande de construção de personagens. O trabalho que desenvolveu me aproximou mais de um processo cinematográfico, coisa que eu queria viver há algum tempo”, conta Grace.

Praça Paris surgiu como uma possibilidade remota há uma década. Só realizado tantos anos depois, dialoga diretamente com o Rio de Janeiro sob intervenção militar. A trama explora a relação entre uma psicanalista portuguesa, Camila (Joana de Verona) e sua paciente Glória (Grace). As duas têm a mesma faixa etária, mas vivem em situações absolutamente distintas. Camila chegou ao país para desenvolver em uma universidade uma pesquisa sobre a violência. Havia ainda outra motivação para a portuguesa vir ao Brasil – sua avó, lembrada numa foto na Praça Paris, no bairro da Glória, no início do século 20.

Já Glória tem um histórico de agressão familiar. Foi violentada pelo pai quando criança. Hoje, vivendo sozinha numa comunidade, tem como parente mais próximo o irmão preso, chefe do tráfico no morro. As sessões de terapia aproximam as duas mulheres de tal forma que há uma transferência inversa – o medo acaba dominando a psicanalista, em meio a uma explosão de violência nas favelas cariocas.

Foi por meio de uma conversa com uma amiga psicanalista, uma década atrás, que o mote do filme veio à tona. “Isso foi antes das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora). Essa amiga, que coordenava um grupo de terapia para carentes numa universidade, comentou que estava com problemas com meninas de classe média alta, que estavam desenvolvendo transferência, paranoia, com pacientes com histórico de violência.” Lúcia pensou naquele momento que, a partir disso, ela poderia criar um thriller.

A história, como tantas outras, ficou engavetada. Cineasta que passeia pelo documentário e pela ficção, com uma obra que busca refletir sobre a realidade brasileira, Lúcia Murat nunca havia trabalhado num filme de gênero. Com o projeto de Praça Paris em mãos, foi atrás de um parceiro improvável para desenvolver o roteiro, o escritor Raphael Montes (Dias perfeitos, Suicidas, entre outros), jovem autor de suspense e romances policiais.

“Quando recomecei a pensar no projeto, voltei à ideia original do thriller. Eu não tinha experiência nisso e vi que o Raphael, que na época não era conhecido, tinha feito um livro. Ele fez comigo toda a parte da pesquisa e colaborou muito. Ao me conhecer, ele disse que eu não tinha nada a ver com ele”, relembra Lúcia.

Foi de Raphael, por exemplo, a ideia de colocar as personagens atuando na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Grace, inclusive, fez laboratório com as próprias ascensoristas da instituição. A partir da Praça Paris, que dá título ao filme, Lúcia criou uma narrativa que fala sobre conflito cultural e discute colonização, exclusão, preconceito, relações de poder.

O lançamento do filme justamente agora é “uma tristeza, do ponto de vista da realidade”, diz Lúcia. “O filme serve para discutir, mais uma vez, que a militarização no Rio não é uma solução, pois ela chama para mais violência. Quem está morrendo todos os dias são as pessoas na favela. A classe média vive isso indiretamente. Seja na televisão, no contato com a empregada que mora no morro. Basicamente, ela (a classe média) não sofre todos os dias. Ao mesmo tempo, está cada vez mais paranoica, perversa, racista, através do processo que os outros (os moradores das comunidades) vivem de forma extrema”, avalia.

 

Abaixo, confira o trailer de Praça Paris: 

 

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