Para 71ª edição, Cannes abre canal de denúncias contra assédio e recebe Godard

Esta é a primeira edição da mostra europeia após o escândalo de assédio sexual que chacoalhou Hollywood

por AFP Agência Estado 08/05/2018 09:13

FOTOS: ANNE-CHRISTINE POUJOULAT
Cartaz do festival reproduz cena de 'O Demônio das onze horas', de Jean-Luc Godard, que retorna ao festival com 'Le livre de l'image', cinco décadas depois de ter liderado o protesto que interrompeu a edição de Maio de 68. (foto: FOTOS: ANNE-CHRISTINE POUJOULAT )

O 71º Festival de Cannes começa nesta terça-feira (8) – sem Weinstein, sem Netflix e sem selfies. Os atores Jean-Paul Belmondo e Anna Karina – Pierrot e Marianne de O demônio das onze horas, de Jean-Luc Godard – se beijam no pôster desta edição, que tinha uma versão gigante terminando de ser instalada na segunda (7), no Palácio dos Festivais.

Mas a atmosfera na Croisette é menos amena. O mundo do cinema se reúne em Cannes pela primeira vez desde a queda do antes todo-poderoso produtor hollywoodiano Harvey Weinstein, acusado de assédio por mais de 100 mulheres – 15 delas o denunciam por estupro.

Cada participante do festival receberá um panfleto lembrando que em Cannes será “exigido um comportamento correto”, com menção de um número de telefone para qualquer vítima ou testemunha de assédio sexual, e uma recordação das penalidades máximas, três anos de prisão e 45 mil euros de multa.

Outro alvo este ano no festival são as selfies, barradas no tapete vermelho. O que está em questão, segundo o diretor-artístico do festival, Thierry Frémaux, é a “a trivialidade” desta prática, e a “demora” que provocava no início das sessões.

Sobre Reed Hastings, CEO da Netflix, não há dúvidas. Depois de ter dois filmes em competição em 2017 e gerar polêmica pelo fato de lançá-los diretamente na plataforma de vídeo, sem a passagem pelas salas de cinema, a empresa rompeu com o festival por se recusar a ceder à exigência de um lançamento convencional no circuito cinematográfico.

Mas Cannes terá outras surpresas a oferecer, especialmente da Ásia e do Oriente Médio. Dos 21 cineastas em competição oficial, apenas três são mulheres, mas 10 são novatos. O retorno à disputa do mestre Jean-Luc Godard, com Le livre de l’image, também gera intensa expectativa.

MAIO DE 68 Há 50 anos, em maio de 1968, Jean-Luc Godard estava na linha de frente do movimento que, com a participação de Roman Polanski e François Truffaut, paralisou o festival em solidariedade às barricadas de estudantes, em Paris. Sobre Le livre de l’image ainda não se sabe nada.

O filme de abertura é Todos lo saben, do iraniano Asghar Farhadi, sobre o qual se sabe bem pouco. O que todo mundo sabe é que Farhadi é um diretor superpremiado – Oscars, no plural, Ursos de Ouro e Prata, troféus em Cannes, mas ainda não a cobiçada Palma de Ouro. Ele assina agora esse thriller sobre uma mulher que volta à Espanha com o marido argentino. Volta para o que se supõe seja uma comemoração, uma confraternização, mas logo os fantasmas do passado ressurgem em sua vida.

O passado cobra sempre seu preço no cinema do autor – um de seus filmes chama-se justamente assim, O passado. Os demais grandes filmes de Farhadi são Procurando Elly, A separação e O apartamento. No elenco de Todos lo sabem,  a almodovariana Penélope Cruz, Javier Bardem (como o marido argentino) e, do passado, surge Ricardo Darín. Esse trio promete movimentar o tapete vermelho de Cannes, mas é só o começo. O festival prossegue até o sábado (19), com a outorga da Palma de Ouro pelo júri presidido por Cate Blanchett.

O Brasil integra a seleção oficial, mas fora de concurso. Cacá Diegues terá direito a gala no sábado (12), às 19h locais (14h no Brasil), com seu O grande circo místico. Outros brasileiros estarão nas demais seções, incluindo Beatriz Seigner, que mostra Los silencios na Quinzena dos Realizadores.

Beatriz está nas nuvens. “Depois de nove anos, 37 editais e uma gravidez surpresa, estou feliz de dar à luz esse outro filhote. Desde Bollywood dream, muita gente chega para mim dizendo que tem história que daria filme. Em geral, não me interessam, mas uma amiga colombiana me contou a história do pai dela, que veio para o Brasil e sumiu, deixando sua mãe com os filhos. Pesquisei mais de 80 famílias na fronteira da Colômbia com o Peru e o Brasil e encontrei muitas histórias similares. Pais que não se sabe se estão mortos ou vivos, e o que isso representa. Quis contar essa história. Meu filme vai chegar ao mundo no maior festival do planeta, tendo passado por uma seleção de milhares em que só 20 foram escolhidos. Não sei nem como comemorar.” 

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