Diretora argentina Lucrecia Martel fala sobre 'Zama', filme que chega nesta quinta (29) aos cinemas

No filme, ela aborda "a identidade como uma armadilha" por meio da história de um funcionário da Coroa espanhola numa fronteira sul-americana

por Silvana Arantes 29/03/2018 08:58
Vitrine Filmes/Divulgação
Daniel Giménez Cacho interpreta Don Diego de Zama. Elenco conta também com atores brasileiros, incluindo Matheus Nachtergaele, (foto: Vitrine Filmes/Divulgação)

Enquanto o cardume se agita na água lamacenta, a voz diz: “Há um peixe que passa a vida em vaivém, lutando para que a água não o expulse, porque a água o rejeita. A água não o quer. Esses peixes sofridos, tão apegados ao elemento que os repele, empregam todas as suas energias na conquista da permanência. Você nunca os encontrará no meio do rio, mas sim nas margens”.

Exibida nos minutos iniciais de Zama, a cena prepara o espectador para a trajetória do personagem-título do quarto longa-metragem da diretora argentina Lucrecia Martel, que estreia nesta quinta (29), no Brasil. Don Diego de Zama (Daniel Giménez Cacho) é um peixe pequeno no esquema da América colonial. Funcionário de cargo mediano do governo espanhol, Zama está num ponto fronteiriço (às margens) da América do Sul, onde o pagamento chega atrasado, as cartas com notícias de sua mulher e dos filhos escasseiam cada vez mais e a autorização do rei para sua almejada transferência a um lugar melhor nunca vem.

Cercado por brancos espanhóis e sul-americanos, negros escravizados e forros, índios “mansos” e guerreiros e diversos animais (lhamas, cachorros, cavalos, insetos povoam as cenas), num contexto de exploração pela Coroa, muita bandidagem local e alguma resistência moral, Zama tenta nadar a favor da corrente, até perceber que essas águas o rejeitam, e decidir explorar outros territórios. É quando entra em cena (já na segunda metade do filme) o personagem do ator brasileiro Matheus Nachtergaele, sobre o qual dizer mais seria estragar a surpresa do espectador.

Lucrecia Martel, de 51 anos, impressionou o universo do cinema com seu primeiro longa, O pântano (2001), no qual exibiu um domínio narrativo e uma clareza, uma profundidade e uma precisão do discurso coerentes com os de um talento maduro. Seus filmes posteriores – A menina santa (2004) e A mulher sem cabeça (2008) – confirmaram seu lugar ao lado dos grandes autores contemporâneos.

Com Zama, a cineasta filma pela primeira vez uma história que não foi originalmente escrita por ela, mas sim baseada no livro de um terceiro – o argentino Antonio Di Benedetto (1922-1986) – e cuja trama não se desenrola no tempo presente.

Lucrecia Martel veio ao Brasil para acompanhar a estreia aqui de Zama, exibido pela primeira vez na Mostra de Veneza do ano passado. Por telefone, ela falou ao Estado de Minas sobre sua decisão de filmar uma superprodução histórica, sobre como lidou com o câncer diagnosticado durante a realização do filme, a contribuição brasileira à produção e também sobre o assassinato de Marielle Franco, que ela julga ser “o ato de violência que mais deveria fazer a América Latina refletir, mais que os ataques terroristas na Europa e nos Estados Unidos. Isso que ocorreu é uma bomba para a intelectualidade da América Latina”. Leia a entrevista seguir.

Você escreveu o roteiro de seus três filmes anteriores, cuja inspiração eram as conversas que ouvia nas casas de sua avó e de sua mãe. Depois de se tornar conhecida como uma cineasta radicalmente autoral, por que decidiu filmar uma história escrita por outra pessoa?
O que me fez sentir que esse livro (Zama, de Antonio Di Benedetto) havia me modificado tão profundamente a ponto de eu querer fazer um filme com isso foi a ideia de alguém ficar preso a algo que acredita ser. A identidade como uma armadilha, algo que nos obriga a ser de determinado modo diante dos outros.


E o aspecto em que esse filme se parece muito com os outros é justamente o fato de estar baseado em conversas, numa tradição oral. Ele foi escrito como um monólogo ou um solilóquio, no qual aparecem muitas vozes, algumas pessoas são identificadas; outras, imagina-se de quem se trata. Para mim, o procedimento foi converter todas essas vozes na cena.


Fizemos esse filme como se fosse uma ficção. Fomos completamente livres para criar a cenografia, para excluir a Igreja do discurso, para representar a mistura de tudo e representar os indígenas sem essa submissão absoluta que nos contaram que eles tinham no passado.

Você disse que criou o filme com liberdade absoluta, e ele trata de temas como a herança colonial. No Brasil, Vazante, de Daniela Thomas, que também se refere a esse período histórico, recebeu no ano passado uma reação indignada e em parte agressiva da militância negra. Em algum momento da preparação do filme você se perguntou que tipo de reação ele suscitaria?
Os que reagiram ao filme da Daniela têm razão. O pensamento da militância negra e tomara que muito em breve o da militância indígena são os únicos que talvez provoquem um pouco de reflexão na história latino-americana. Todos nós repetimos uma quantidade de bobagens e asneiras – e estou falando dos meus próprios filmes, não do de Daniela Thomas – que precisamos que nos façam pensar melhor. Ainda bem que isso está acontecendo. É muito difícil pensar bem sozinho.

Você se refere ao cinema como um espaço de diálogo. Mas não acha que o público tem demonstrado pouca disposição para a escuta e o diálogo, encurtando cada vez mais o “breve momento de atenção” dedicado às obras?

Você diz em relação à militância negra?

Não. Digo de forma geral.
A estupidez da nossa época teremos que ver como resolvê-la. Não acredito que seja para sempre. Não se pode ser estúpido para sempre. Até a estupidez é finita. Mas todos nós estamos numa atitude defensiva. Mas é diferente a atitude defensiva que eu ou Daniela (Thomas) possamos ter e a atitude defensiva que possam ter pessoas que estão representando uma enorme parte da população humilhada há séculos, excluída, e que até hoje é vítima de assassinato.


O caso de Marielle Franco é o ato de violência que mais deveria fazer a América Latina refletir, mais que os ataques terroristas na Europa e nos Estados Unidos. Isso que ocorreu é uma bomba para a intelectualidade da América Latina. A distorção que querem fazer do discurso dessa mulher é sobre o que mais temos que falar e pensar, porque isso coloca em perigo todos nós, não somente no Brasil, mas em toda a América Latina. É um sinal alarmante.
Em primeiro lugar, o que me parece elementar é que esse é um crime que mais uma vez quer nos fazer acreditar que a insegurança é fruto de atos delituosos sobre os quais o governo não tem nenhuma responsabilidade. Vejamos a violência que sofrem setores da sociedade que estão excluídos de todos os benefícios de ser cidadãos, sem acesso à saúde pública de qualidade, sem perspectiva de trabalho. Se essa violência exercida sobre as pessoas agora, ainda por cima, passa a ser vigiada pela polícia, é sinal de que se distorceu toda a perspectiva de análise. Marielle Franco tinha muita clareza sobre isso, e seu assassinato é uma tentativa de silenciar essa verdade. Esse pensamento bárbaro que acredita que a insegurança não vem da exclusão, que pensa que a violência ocorre nas ruas, e não por parte do Estado sobre o cidadão, exige uma reflexão.

Zama é uma coprodução com o Brasil e tem Matheus Nachtergaele num papel de destaque. Como foi essa parceria?
O melhor desse filme é que a razão da coprodução era narrativa, não financeira. É um filme que transcorria na fronteira e precisávamos de personagens que pertencessem aos países envolvidos nessa fronteira. A contribuição criativa do Brasil fez com que o filme desse um salto. Agora, não sei se vou querer fazer outro filme somente argentino.

Como foi trabalhar com Matheus Nachtergaele?

Tive excelentes atores. No caso particular de Matheus, acho que vocês têm um monstro. É um cara que está na categoria de monstruosidade, e isso é necessário para que apareça um personagem – alguém que esteja acima da mediocridade moral, que esteja acima da preocupação com sua carreira, alguém que deseja e persegue o risco. Ele deu ao personagem uma dimensão que, a meu ver, é mítica.

A cena crucial entre Zama e o personagem de Nachtergaele é marcada pela ambiguidade e consegue desvelar a atmosfera de ilusão que há por trás dos conceitos de “herói” e “bandido”. Quanto trabalho foi necessário para chegar a esse resultado?
Isso é mérito de Di Benedeto, com sua maneira de escrever o romance que nos envolve muito. Ele se opõe a esse formato judaico-cristão da nossa cultura de acreditar que o sentido está no final e que, por isso, é preciso tolerar qualquer sofrimento. Essa parte do pensamento judaico-cristão da qual o poder na América Latina tanto se serviu – aguentar, aguentar, aguentar.


O que sinto sobre essa raiva que se vê agora da parte das mulheres e dos militantes negros é uma espécie de “já, agora”. Chega de falar sobre uma linha do tempo que só o homem branco rico pode pensar. O futuro é algo que não serve ao presente. Negando-se o presente, nega-se o corpo. Gosto que Zama chegue a essa conclusão, mesmo arriscando-se a ser mutilado ou morto por causa disso.

Como você lidou com o diagnóstico de câncer que teve durante a realização do filme?
Foi um dos anos mais interessantes da minha vida. Temos uma cultura que afasta o tempo todo a morte, o que torna as coisas muito mentirosas, porque a morte, na verdade, está muito perto. Fisicamente, foi muito doloroso, mas, no plano da emoção e do pensamento, foi dos anos mais interessantes.


O câncer é muito maligno não pela doença em si, mas pelo modo como as pessoas ao redor tratam o doente, tentando fazê-lo crer que ele é o responsável por sua doença. É uma teoria às vezes bem-intencionada. É tão doloroso ver alguém sofrer que as pessoas preferem pensar que essa pessoa é culpada.


 Sinto que tive uma vida muito feliz e não sinto que merecia essa doença, o que é um pensamento tão absurdo quanto o outro. O que hoje digo aos doentes de câncer é: tivemos azar, vamos usar isso para pensar, para encarar coisas que adiamos, mas sem jogar a culpa em nós ou deixar que outros a joguem.

 

Abaixo, confira o trailer de Zama

 

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