Paulo Cursino é o roteirista de comédias que caíram no gosto do brasileiro

Defensor do gênero, campeão de bilheteria diz que consegue captar melhor o 'espírito do país'

por Ana Clara Brant 11/03/2018 09:55
Desiree do Vale/divulgação
O roteiro de Os farofeiros brinca com os %u2018micos%u2019 que o turista brasileiro enfrenta na praia (foto: Desiree do Vale/divulgação)

Joe e Jerry são músicos desempregados na Chicago de 1929, desesperados por trabalho. Acidentalmente, testemunham o Massacre do Dia de São Valentim, assistindo ao criminoso Spats Colombo e ao cúmplice aniquilarem Toothpick Charlie e sua gangue. Forçada a deixar a cidade, a dupla aceita o primeiro trabalho que aparece: tocar na banda feminina Sweet Sue e Suas Sincopadoras. Vestidos de mulher, os dois se juntam à trupe. Joe adota o nome de Josephine. Jerry se torna Daphne, mas se apaixona por Sugar Kane, a linda cantora. A partir daí, a dupla se vê às voltas com várias situações tragicômicas.

Essa é a sinopse de um clássico da comédia: Quanto mais quente melhor (1959), estrelado por Tony Curtis, Jack Lemmon e Marilyn Monroe. Com um quê de romance e trama policial, o premiado longa do diretor Billy Wilder entrou para a lista dos filmes mais importantes de todos os tempos. É o preferido do roteirista paulista Paulo Cursino, de 49 anos, um dos maiores especialistas brasileiros em fazer rir.

“Adoro cinema. Vi todos os filmes que disputaram os principais prêmios do Oscar. Revejo clássicos como o próprio Quanto mais quente melhor, uma comédia fantástica. Muita coisa que o cinema já fez pode ser revisitada. Gosto dos conceitos antigos que funcionaram”, ressalta.

Sozinho ou com parceiros, Cursino assina vários fenômenos de bilheteria: os filmes De pernas pro ar, Até que a sorte nos separe e O candidato honesto (cuja sequência estreia no segundo semestre), além de Fala sério, mãe!, Odeio o Dia dos Namorados e Um suburbano sortudo. Porém, a carreira dele começou nas novelas, há 25 anos. Com formação em dramaturgia, ingressou na TV Globo como colaborador de Walther Negrão no folhetim Vila Madalena (1999/2000).

Logo depois, Cursino migrou para o setor da Globo que se tornou “a sua praia”. Passou a escrever seriados – assinando, entre outros, Sai de baixo, Sob nova direção, SOS emergência e Os caras de pau. Ali, teve contato com humoristas que despontavam no fim da década de 1990 e começo dos anos 2000. “A Ingrid Guimarães foi uma das pessoas de quem passei a ser bem próximo, assim como o Marcius Melhem e o Leandro Hassum. Ela virou a estrela do De pernas pro ar. Me convidaram para escrever porque queriam alguém que entendesse de comédia. Foi assim que eu e Marcelo Saback entramos no projeto”, recorda.

De pernas pro ar 1 e 2 atraíram cerca de 9 milhões de espectadores. O terceiro filme está previsto para este ano. Esse projeto marcou a primeira parceria de Cursino com o diretor Roberto Santucci. “A gente se entendeu bem desde o começo, viramos mais que colegas. Acabamos de lançar Os farofeiros e já temos outras coisas engatilhadas, como o filme do Paulinho Gogó, personagem do Maurício Manfrini, e a cinebiografia do Mussum, além de O candidato honesto 2, que vai abordar o conturbado momento político do país”, revela.

ARAGÃO A experiência de Cursino no cinema começou antes do boom das comédias. Como trabalhava com Renato Aragão na TV, foi chamado para escrever os roteiros dos longas O trapalhão e a luz azul (1999) e Didi, O cupido trapalhão (2001), sucessos de bilheteria.

“A comédia chegou naturalmente à minha carreira. A demanda foi tão grande que não tive muito tempo para outras coisas. Não é que não tenha vontade. Faria, sim, um policial e tenho muita vontade de fazer um filme de terror. Mas a comédia é o carro-chefe, a ‘vaca leiteira’ do cinema brasileiro. É o único gênero que consegue competir com os blockbusters americanos. Então, não dá pra largar”, argumenta.

O roteirista refuta a tese de que as comédias monopolizaram as salas de exibição do país. “Muito pelo contrário. Se você pegar a lista dos 150 filmes produzidos anualmente no Brasil, uns 15 são comédia. A maior parte é filme mais cabeça, documentário, drama”, observa.

Cursino atribui a impressão de que as comédias dominam a cena no Brasil ao fato de elas gerarem as maiores bilheterias. “O brasileiro gosta de boas histórias. As biografias fizeram grande sucesso, como foi o caso de 2 filhos de Francisco e Chico Xavier. Tropa de elite, que mescla policial com ação, é outro sucesso. Na minha opinião, falta a produtores e diretores de cinema um pouco de foco, objetivo, coisa que o pessoal da comédia tem. É preciso ter visão de mercado”, frisa.

Cursino diz que boa parte dos cineastas do país parece “odiar” o público, pois não faz filmes que conversam com o brasileiro. “Isso a comédia faz de lavada. Assim se explica o fenômeno de Minha mãe é uma peça, De pernas pro ar e Até que a sorte nos separe, que conseguem atingir o grande público e geram identificação. A indústria da comédia sabe captar o espírito do país, do brasileiro”, afirma o roteirista. E critica: “Muitas vezes, tenho a impressão de que há diretores e produtores que preferem fazer filme para ser exibido em mostra paralela de festival internacional, ganhar prêmio lá fora ou ter uma bela crítica do The New York Times em vez de agradar ao público brasileiro. Cinema é arte popular”, ressalta.

Em 2016, ele deixou a Globo por não conseguir mais conciliar televisão e cinema. Paulo escreve de dois a três roteiros por ano – até simultaneamente. O segredo de um bom filme é a ideia central, infatiza. Cita Os farofeiros, que estreou na quinta-feira passada. O tema – roubadas a que está sujeito quem aluga uma casa de praia – surgiu a partir da cena de Até que a sorte nos separe 2 em que a família briga, dentro do carro, depois de se deparar com um péssimo quarto de hotel. “A gente falava dessa ideia e todo mundo gostava, se identificava. Se você tem um bom conceito, as pessoas se interessam. O segredo é esse”, conclui.

MINAS


Nascido em Taubaté, terra do escritor Monteiro Lobato, Paulo Cursino passou boa parte da infância em São José dos Campos, no interior de São Paulo. “A gente brinca que a cidade é uma estância hidromineral: água embaixo e mineiro em cima”. Porém, o roteirista tem um “pezinho” em Minas. “Meus avós maternos são de Brazópolis e Paraisópolis, nos arredores de Itajubá. Não tenho mais parentes nessas cidades. Infelizmente, há muito tempo não vou lá”, comenta.


Acervo Pessoal
(foto: Acervo Pessoal )

“Faria, sim, um policial e tenho muita vontade de fazer um filme de terror. Mas a comédia é o carro-chefe, a ‘vaca leiteira’ do cinema brasileiro”

“Se você pegar a lista dos 150 filmes produzidos anualmente no Brasil, uns 15 são comédia.


A maior parte é filme mais cabeça, documentário, drama”


Filmografia

Mariana Vianna/divulgação
(foto: Mariana Vianna/divulgação)

Ingrid Guimarães em De pernas pro ar 2, blockbuster nacional
 Gabriel Borges/Divulgação
(foto: Gabriel Borges/Divulgação)

Camila Morgado e Leandro Hassum em Até que a sorte nos separe 3
Páprica Fotografia/divulgação
(foto: Páprica Fotografia/divulgação)

Leandro Hassum em O candidato honesto, sátira aos políticos

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