Cinema mudo ganha trilha sonora ao vivo com projeto musical em BH

Filme do russo Dziga Vertov será exibido com participação do grupo Soundpainting BH. Trilha é criada e executada por músicos enquanto as imagens são projetadas no MIS Cine Santa Tereza

por Walter Felix 23/02/2018 08:30
Alexandre Fonseca/divulgação
O soundpainter João Paulo Prazeres comanda o cineconcerto (foto: Alexandre Fonseca/divulgação)

O cotidiano de um soviético comum no início do século 20 marcou para sempre a história do cinema. Referência para documentaristas, o diretor Dziga Vertov (1896-1954) centralizou seu filme na vida corriqueira do cidadão, exibindo hábitos íntimos e o dia a dia nas cidades de Moscou, Kiev e Odessa. Sem roteiro e atores profissionais, apenas Um homem com uma câmera (1929), como diz o próprio título, presta tributo à sétima arte.

Prestes a completar nove décadas, o documentário será exibido em cineconcerto nesta sexta-feira (23), no MIS Cine Santa Tereza. Produzido no contexto do cinema mudo, o filme ganhará trilha sonora especial criada pelo projeto Soundpainting BH. Em tempo real, músicos executarão as melodias que acompanham as imagens.

Linguagem de sinais destinada a músicos, poetas, artistas visuais e bailarinos, o método soundpainting foi criado e desenvolvido pelo nova-iorquino Walter Thompson a partir da década de 1970. Em Belo Horizonte, é praticado pelo grupo dirigido por João Paulo Prazeres.

A função do soundpainter pode se assemelhar à do maestro ou do compositor, mas João Paulo recusa a comparação. “Não sou compositor, que cria uma partitura, nem maestro, que executa a composição de alguém. O que fazemos é uma criação conjunta durante o concerto. Trabalhamos com a linguagem gestual: cada sinal que faço tem um significado previamente estipulado”, explica.

OFICINA - Ao longo desta semana, João Paulo comandou oficina com os artistas que participarão do concerto, desenvolvendo e aprimorando o diálogo com cada um deles. A pequena orquestra tem 10 músicos, que se encarregarão de bateria, baixo, teclados, guitarra, violoncelo, violino, clarineta, saxofone e vocal.

Enquanto observa a tela, o soundpainter dá instruções aos músicos. “Essa linguagem tem uma sintaxe própria, que me permite dizer ao grupo exatamente o que fazer. É possível trabalhá-la com o cinema e outros formatos, como a dança e as artes visuais”, revela João Paulo.

Não é a primeira experiência do Soundpainting BH com cinema. Ano passado, o projeto foi desenvolvido com o curta-metragem Olhos de Inaiá, do mineiro Marco Antônio Gonçalves Jr., no Cine104. A orquestra sonorizou imagens da bacia do Riberão Arrudas e de paisagens de Belo Horizonte.

Nélio Costa, professor da Una e especializado em som para cinema, sugeriu a João Paulo Prazeres que escolhesse Um homem com uma câmera para o cineconcerto. Ele conta que o filme era sonorizado ao vivo por uma orquestra, na ocasião de seu lançamento. Trata-se de tendência comum naquela época, pois o sistema de áudio e imagem sincronizados era incipiente.

Um homem com uma câmera tem algo muito musical: o ritmo aliado à montagem. Ele é apropriado para experimentações sonoras”, afirma Nélio. Em 1996, os compositores noruegueses Geir Jenssen e Per Martinsen trabalharam em uma música original para o filme, que, segundo orientações do diretor Vertov, deveria ser acompanhado por pianista. Em 2003, a companhia de jazz britânica The Cinematic Orchestra se lançou ao mesmo desafio.

Tradição na tela - Nélio Costa explica que a principal função da trilha sonora é guiar as emoções do espectador. “O soundpainting é muito válido para ampliar as formas de leitura e interpretação da obra. Se encomendasse para 30 músicos a trilha sonora para o mesmo filme, teria 30 composições muito diferentes. Cada um tem  uma leitura muito particular e vai perceber elementos distintos. Por isso a conversa depois da sessão de cinema é sempre agradável, resultando em novas percepções”, afirma.

TRANSGRESSÃO - 
Um homem com uma câmera foi pioneiro em vários aspectos, lembra o professor. “Ele é totalmente transgressor, inserindo-se na época em que ainda se construía o conceito de cinema. Há um dinamismo absurdo ao acompanhar a cidade acordando, ao mostrar da higiene pessoal do cidadão comum à dinâmica das fábricas e ao movimento dos carros e trens. Tudo de uma forma linda, poética e extremamente visionária em termos de proposta estética”, defende.

João Paulo Prazeres é fascinado pela obra de Dziga Vertov. “Esse filme propõe uma experiência muito interessante: a do cinema em seu estado puro, sem qualquer referência a outra linguagem, como teatro ou literatura. A montagem é incrivelmente moderna, principalmente considerando a época em que foi lançada. As transições e o ritmo lhe dão uma forma muito musical”, afirma o soundpainter.

UM HOMEM COM UMA CÂMERA
Exibição do filme de Dziga Vertov, com trilha sonora criada e executada ao vivo pelo grupo Soundpainting BH. Nesta sexta-feira (23), às 19h30. MIS Cine Santa Tereza. Rua Estrela do Sul, 89, Santa Tereza. (31) 3277-4699. Entrada franca.

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