Estrangeiros pré-selecionados ao Oscar expõem tendência da Academia

Fora da premiação mais uma vez, cinema brasileira completa 20 anos sem indicação

por Agência Estado 21/12/2017 08:56

Divulgação
Longa chileno 'Uma mulher fantástica' traz uma transexual como protagonista. (foto: Divulgação)

Em 2018, vão se completar 20 anos que o Brasil não crava uma indicação de melhor filme estrangeiro no Oscar – o último foi Central do Brasil (1998). Todo ano, as comissões que se reúnem para escolher o indicado brasileiro escolhem filmes com a cara do Oscar, seja lá o que isso for. Não tem dado certo. Talvez seja preciso mudar o foco. Este ano, a tentativa foi com Bingo, que conta história inspirada no palhaço Bozo.


Recentemente, a Academia de Hollywood divulgou a lista de nove pré-selecionados para o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2018. Dela vão sair, em janeiro, os cinco concorrentes. Tem latino-americano na parada, e é o Chile, com Uma mulher fantástica, de Sebastián Lelio.

 

Coincidência ou não, os filmes indicados na categoria estão sempre em sintonia com os grandes festivais europeus. Três foram premiados em Berlim: o húngaro Corpo e alma (vencedor do Urso de Ouro), Uma mulher fantástica e o senegalês Felicité. Três, em Cannes: o sueco The square (o vitorioso da Palma de Ouro), o russo Loveless e o alemão Em pedaços. Outros dois foram premiados em Veneza – o israelense Foxtrot e o libanês The insult.

 

 

São todos filmes fortes. Uma transexual em Uma mulher fantástica, já exibido em Belo Horizonte. Um menino criado sem amor em Loveless. Um homem cujo segredo íntimo (a “ferida”) é a homossexualidade, em Os iniciados. Uma discussão sobre a arte contemporânea e os limites do politicamente correto em The square.

MATADOURO
Corpo e alma é sobre um homem e uma mulher que trabalham num matadouro e compartilham o mesmo sonho e se espelham em um casal de cervos numa floresta. Felicité narra a luta de uma cantora para pagar a operação do filho. Em pedaços é sobre a vingança de uma mulher contra os neonazistas que mataram seu marido e o filho. Foxtrot relata a dor de um pai militar que perdeu o filho na guerra. E The insult mostra o impasse que leva um cristão libanês e um refugiado palestino ao tribunal.

É difícil dizer o que esses filmes têm e o que falta ao brasileiro. São intensos, radicais e, em quase todos, o espectador tem empatia pelos personagens. Sofre com eles, torce por eles. No caso brasileiro, a questão é que é difícil experimentar envolvimento com o palhaço de Bingo, e não porque seja um “monstro”, o que basicamente é. Três ou quatro são sobre mulheres fortes, e o empoderamento é o tema da vez.

Augusto, personagem interpretado por Vladimir Brichta, vive para o palco. Nem quando vira evangélico consegue mudar – é só outro palco para brilhar. De novo, a comissão brasileira apostou errado. Talvez, e é só uma sugestão, a passagem dos filmes brasileiros pelos festivais europeus seja um caminho. Central do Brasil havia vencido o Urso de Ouro, e Fernanda Montenegro, indicada para melhor atriz, ganhou o prêmio da categoria em Berlim. Só para lembrar, Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho, mesmo não tendo sido premiado, fez sensação em Cannes no ano passado.

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