Menino branco se apaixona por garota indígena em longa com Cauã Reymond

História de 'Não devore meu coração!' se passa na fronteira do Brasil com o Paraguai e estreia em BH nesta quinta

por Mariana Peixoto 23/11/2017 07:56
Duas Mariola/Divulgação
A garota indígena Basano (Adeli Gonzalez) e o menino branco Joca (Eduardo Macedo) vivem um quase romance tumultuado pelas circunstâncias em 'Não devore meu coração!'. (foto: Duas Mariola/Divulgação)

 

“O que é que você quer na minha cidade?”, foi a primeira coisa que o realizador carioca Felipe Bragança ouviu da adolescente paraguaia Adeli Gonzalez. “Estou escrevendo uma história e preciso de pessoas para me ajudar”, ele respondeu. A menina retrucou: “Me conta a história. Se eu gostar, te dou a informação.”


Depois dessa curta apresentação, Bragança não precisou de muito para saber que aquela adolescente um tanto marrenta era quem ele precisava para a principal personagem feminina de seu novo filme. Adeli seria Basano, a menina que rouba o coração do adolescente Joca (Eduardo Macedo). Esses dois personagens, mais o motoqueiro Fernando (Cauã Reymond), conduzem a narrativa de Não devore meu coração!, que estreia nesta quinta-feira, 23.

É um filme sobre violência, perdão, diferenças. Trazendo uma memória da Guerra do Paraguai (1864-1870), o maior conflito armado ocorrido na América do Sul, o longa-metragem apresenta um olhar contemporâneo para uma região sobre a qual o cinema se debruça muito pouco: a fronteira Brasil/Paraguai – aqui, na divisa do Mato Grosso do Sul.

 

 

A história surgiu a partir do livro de contos Curva de rio sujo (2003), do escritor e designer gráfico mato-grossense Joca Reiners Terron. Das 30 e poucas narrativas curtas, com vivências e lembranças da infância e juventude do autor, Bragança escolheu duas delas. Uma falava de um amor idílico juvenil e outra, sobre uma gangue de motoqueiros.

FAMÍLIA Em Não devore meu coração!, o Rio Apa marca a fronteira Brasil/Paraguai. Do lado brasileiro vive Joca, um menino de 13 anos que mora com o irmão mais velho, Fernando, e a mãe, Joana (a atriz mineira Cláudia Assunção). A mulher, abandonada pelo marido, César (Leopoldo Pacheco), está em constante depressão. A ausência da mãe faz com que Joca seja criado por Fernando, que tem uma relação ora afetuosa, ora agressiva com o menino.

Mas o garoto só tem olhos para Basano, uma menina indígena que vive do outro lado do rio. As comunidades fronteiriças estão em conflito, ainda mais porque corpos de índios estão aparecendo nas margens do Apa. Entre esses dois mundos também convivem os motoqueiros da Gangue do Calendário, grupo do qual Fernando faz parte.

Em sua primeira direção individual (seus dois outros longas  – A fuga, a raiva, a dança, a bunda, a boca, a calma, a vida da mulher gorila, de 2009, e A alegria, de 2010 – foram divididos com Marina Meliande), Bragança viajou durante quatro anos para a região até rodar o filme. “Não tinha nenhuma relação, tampouco conhecia o Mato Grosso do Sul. Mas tinha uma vontade ancestral de fazer um filme sobre o imaginário indígena brasileiro. É um filme que lida com minha herança guarani (sua bisavó era dessa etnia, mas viveu no litoral do Espírito Santo) e vi nele uma possibilidade de falar sobre isso”, diz.

Bragança queria trabalhar com atores não profissionais – as exceções são Cauã Reymond, que atua também como coprodutor do longa, Leopoldo Pacheco e Claúdia Assunção, os dois últimos em papéis menores. Nas viagens ao Mato Grosso do Sul, foi escolhendo seu elenco. “Mais do que a paisagem geográfica da região, me interessava a paisagem humana. O processo foi lento, longo, de ir procurando pessoas nas ruas, nos bares.”

Foi numa dessas incursões que ele se deparou, por acidente, com Adeli Gonzalez. “Depois que conversei, ela aceitou a ideia de experimentar o cinema. Em momento algum ficou deslumbrada porque ia fazer um filme, havia uma certa desconfiança e queria saber o tempo inteiro como o filme lidaria com a imagem dos guaranis”, conta Bragança. Para o papel de Joca houve uma seleção com uma centena de garotos de Campo Grande.

Não devore meu coração! é falado em português, guarani e castelhano. “No cotidiano dos paraguaios, só se escuta o guarani. O castelhano é mais usado quando eles se comunicam com os brasileiros e, mesmo assim, é meio misturado. A grande questão da língua é que, naquela fronteira, o Brasil ocupa uma posição meio imperial. Então, é natural que quem viva do outro lado aprenda o português, e não o contrário. Há, ali, um jogo de poder de colônia com o colonizador”, afirma o diretor.

Lançado em janeiro no Festival de Sundance, Não devore meu coração!, coprodução Brasil/Holanda, percorreu o circuito de festivais internacionais até chegar às salas comerciais. “Em Sundance, como o público era quase todo norte-americano, as pessoas se surpreenderam, porque viram que aqui houve uma corrida para o Oeste. Então houve comparações entre as colonizações nos EUA e aqui. Já na Europa, ficou claro que as pessoas conhecem muito pouco da Guerra do Paraguai. Muitas ficaram chocadas em saber que no Brasil, que, no imaginário coletivo é um país pacato, houve um episódio tão sangrento”, conta Bragança.

Resta saber como será a leitura dessa história no Brasil. Sobre a fronteira, o diretor comenta que só há uma certeza: “Os paraguaios querem que a gente (os brasileiros) vá embora. Para eles, aquilo tudo faz parte da nação guarani. A fronteira é invenção do homem branco.”


Duas Mariola/Divulgação
Cauâ Reymond diz que gosta da notoriedade que a TV lhe dá, mas é 'inclinado a trabalhar no cinema de arte'. (foto: Duas Mariola/Divulgação)

Três perguntas para...

CAUÃ REYMOND, ator

Dos irmãos Omar e Yaqub, da série Dois irmãos, você foi direto para o Fernando, o irmão de Joca, em Não devore meu coração!. Como foi o processo?
Quando acabaram as gravações da série, eu estava exausto. E o dinheiro para o filme saiu na mesma época. Precisei ser convencido pelo Felipe a fazer o filme, pois em 10 dias deixei a série (rodada em Manaus e no Rio de Janeiro) e fui para o Mato Grosso do Sul para fazer este terceiro irmão. A partir do momento em que aceitei, comecei a trabalhar a prosódia, pois naquela região há uma mistura de sotaques. Quando cheguei, descobri que tudo o que tinha estudado fazia sentido. E fiquei impressionado como é fácil cruzar a fronteira. Cruzei de bicicleta e moto e ninguém me parou.

Galã na televisão, no cinema você tem priorizado produções mais autorais. As possibilidades de atuação são muito maiores no cinema?
Gosto da notoriedade que a televisão me dá. Produtos populares me levam ao contato direto com o grande público. Sou sempre inclinado a trabalhar no cinema de arte. Agora, gosto de levar meus personagens (da TV) para um lugar mais experimental. Tento me comunicar com os nichos, e as séries têm cumprido esse papel. Eu me sinto sortudo por ter participado de Dois irmãos e Justiça.

Neste ano você filmou Piedade, história em que seu personagem tem um relacionamento com o de Matheus Nachtergaele. Como foi trabalhar num filme de Cláudio Assis, um dos cineastas mais importantes e polêmicos da produção contemporânea?
Cara, foi muito bom. Ele tinha me sondado para um outro filme, mas eu não tinha agenda. Fiquei triste. Quando veio o convite de novo, aceitei na hora, antes mesmo de ler o roteiro. (Trabalhar com Assis) É muito diferente, desafiador. E foi muito bom reencontrar a Fernandona (Fernanda Montenegro), voltar a trabalhar com o Irandhir Santos e o Matheus. Agora, depois de participar de projetos densos, decidi me aventurar novamente nas comédias, que não fazia desde Reis e ratos (2012). Filmei também neste ano Uma dupla quase perfeita, com a Tatá Werneck.

 

Abaixo, confira o trailer de Não devore meu coração!

 

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