Bad boys de 'Trainspotting', que fizeram a cabeça da geração 90 estão de volta em 'T2'

Agora 'coroas', eles enfremtam crise da meia-idade. Humor negro marca o reencontro dos ex-amigos

por Mariana Peixoto 23/03/2017 07:00
Sony Pictures/divulgação
(foto: Sony Pictures/divulgação)
“Nostalgia. É por isso que você está aqui”, diz Simon “Sick Boy” (Jonny Lee Miller) para Mark Renton (Ewan McGregor).
O personagem de cabelos descoloridos também parece falar para quem está na sala de cinema. Se você não viu Trainspotting 20 anos atrás, não entende o culto em torno do filme de Danny Boyle, tampouco tem vontade de sair correndo pelas ruas ao ouvir o hino Lust for life. Então, esqueça T2 Trainspotting, que estreia hoje no Brasil.

A sequência do melhor filme sobre a geração 90 apela para o saudosismo de quem fez parte dela.

Voltando no tempo: Trainspotting (1996) é a adaptação para o cinema do romance de estreia do escritor escocês Irvine Welsh, publicado três anos antes. Um diretor em início de carreira (Boyle), com um elenco então pouco conhecido (McGregor, Miller, Robert Carlyle, Ewen Bremner e Kevin McKidd), realizou um filme sobre junkies de um subúrbio de Edimburgo, na Escócia. A repercussão foi tamanha que a produção cinematográfica britânica teve uma guinada naquele período.

“Escolha seu futuro, escolha a vida. Mas por que ia querer isso? Escolhi não viver. Escolhi outra coisa. E os motivos… Não há motivos. Quem precisa de motivos quando tem heroína?” – o monólogo de Renton, repetido à exaustão na época, falava diretamente para os jovens. Viva, mas não pense no futuro.

Os personagens eram sujos, mentirosos, ladrões. Só tinham um objetivo: a próxima picada. Vibramos todos com eles, mesmo que não tivéssemos aquelas experiências em nossa própria vida.

E, mais do que nenhum outro filme, Boyle conseguiu fazer de músicas, personagens. A melhor trilha sonora do cinema (isso não é exagero), que dialogou com o britpop então em ascensão (Blur, Pulp), antecipou a explosão techno (Underworld) e ainda resgatou velhos ídolos (Iggy Pop foi apresentado a vários jovens por causa de Lust for life e Nightclubbing, ambas da década de 1970).

Pois isso tudo está em T2 Trainspotting. Assim como o filme de origem, sua sequência teve como ponto de partida outro romance de Welsh (Porno, de 2002). Vinte anos depois, a vida não foi nada bonita para o grupo de desajustados.

AMSTERDÃ Renton, que terminou o primeiro filme dando um golpe nos amigos depois de uma venda de drogas, radicou-se em Amsterdã, onde tenta levar uma vida pequeno-burguesa – ele havia “escolhido a vida” no fim do filme anterior. Mas ela, pelo jeito, não deu a menor bola para ele.

Sick Boy, que deixou o velho apelido de lado e agora responde por Simon, tem uma namorada búlgara. O casal vive de extorquir homens depois de uma noite de sexo. Spud (Bremner) preferiu ser abandonado pela mulher e o filho a deixar a heroína. E Begbie (Carlyle) intensificou na cadeia sua veia psicopata. Foge da prisão e só pensa em se vingar de Renton pelo roubo do dinheiro.

Se na sequência inicial de Trainspotting Renton corria como louco fugindo da polícia pelas ruas de Edimburgo, agora o vemos correndo numa esteira de academia. Ele tem um piripaque no coração e decide ser a hora de voltar, pois é na Escócia que se sente em casa.

“De onde você é?”, ele pergunta à recepcionista, que, no aeroporto, carrega a placa “Bem-vindo a Edimburgo”. “Eslovênia”, a moça responde. Não, esta é a cidade de onde ele fugiu duas décadas antes. E a história está só começando.

A partir do reencontro nada caloroso com os ex-parceiros, o filme segue ora num clima de comédia de humor negro (principalmente na primeira parte), ora como um drama de quarentões frustrados que não conseguem deixar o passado para trás. Há ainda cenas novas de infância mostrando os personagens quando garotos.

Cheio de autorreferências, o novo Trainspotting será um prato cheio para quem assistiu, sem cansar, ao filme original. A antológica cena em que Renton, alucinando, entra na privada do “pior banheiro do mundo” em busca de supositórios de ópio é relida agora, quando o personagem de McGregor entra num banheiro público e olha duas vezes para o vaso sanitário.
Renton chega até seu quarto de menino, decorado com os mesmos papéis de parede de trenzinhos que o acompanharam numa terrível crise de abstinência de heroína no filme original.

MULHERES
Duas personagens femininas também são resgatadas. Gail (Shirley Henderson), a namorada de Spud que não conseguia transar com ele por causa do vício da heroína, acabou virando sua ex-mulher. E Diane (Kelly Macdonald), a colegial com quem Renton transou na casa dos pais, é hoje uma advogada que vai cobrar caro pelos serviços prestados.

E, por fim, a trilha. Doyle traz outras músicas (Queen com Radio ga ga, Frankie goes to Hollywood com Relax, Clash com (White man) In Hammersmith Palais, e recupera os hinos de outrora. Lust for life ganhou um remix do Prodigy e Born slippy uma versão lenta do próprio Underworld, que a rebatizou como Slow slippy.

Ainda que seja engraçado e brutal, dialogue com a narrativa e os elementos visuais do filme de origem, o novo Trainspotting não tem a força do longa de 20 anos atrás. Seus personagens, hoje homens em plena crise da meia-idade, são no fundo tristes, muito tristes.

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