'Quando eu era vivo', de Marco Dutra, raro exemplo de horror nacional, estreia hoje em BH

História de Lourenço Mutarelli tem no elenco Marat Descartes, Sandy e Antônio Fagundes

por Carolina Braga 07/02/2014 08:00

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Vitirne Filmes/Divulgação
Júnior (Marat Descartes) retorna à casa do pai e se depara com fantasmas do passado (foto: Vitirne Filmes/Divulgação)
Sem meias palavras: 'Quando eu era vivo', filme dirigido por Marco Dutra que estreia hoje no Cine 104, é um longa de horror. Só por aí já sai na frente. Mas existem outros aspectos que valem a aposta em vê-lo. Além de ser um gênero pouquíssimo explorado na recente cinematografia nacional, o trabalho chama a atenção para a potência que a obra do quadrinista/escritor/ator Lourenço Mutarelli consegue alcançar. Se 'O cheiro do ralo', dirigido por Heitor Dhalia, já demonstrava isso em 2006, 'Quando eu era vivo' confirma uma trajetória.

Foi justamente o que fisgou Marco Dutra para fazer do romance 'A arte de produzir efeito sem causa' (Companhia das Letras) um longa-metragem. O livro apareceu na vida dele quando pesquisava a obra de Mutarelli para outro roteiro no qual trabalhava, a adaptação do álbum de quadrinhos 'Desgraçados'. No caso, seria um curta. “Para me preparar para a pesquisa, senti  necessidade de ler tudo dele. 'A arte…'tinha acabado de sair em 2008”, conta o diretor. Marco percebeu que não seria nada fácil. “Achava que tinha um jogo entre pai e filho no apartamento que poderia dar boa dramaturgia.”

O cineasta sabia que se tratava de um jogo doentio entre pai e filho, em um espaço delimitado, que ao mesmo tempo poderia servir como uma alegoria sobre as relações familiares. Instigado, chamou a roteirista Gabriela Amaral Almeida para dividir a empreitada. Acreditava ser importante dialogar com o olhar de outro profissional. Foram cerca de cinco meses de trabalho constante. Vai e volta no roteiro, até chegar à versão final.

“A literatura é fonte de muita história boa e acho que o trabalho de adaptação é tão importante quanto a criação de roteiro original. Às vezes, até mais complexo”, comenta a roteirista, que desenvolveu mestrado nos Estados Unidos justamente sobre adaptações literárias para o cinema. O primeiro desafio no processo de transformação do livro em filme foi a decisão sobre qual seria a voz narrativa da trama na tela.

Se na literatura as estratégias de construção do enredo estão mais ligadas à narração do que à dramaturgia, ou seja, se fala em primeira ou terceira pessoa, essa é sempre uma questão para os roteiristas. “Muita coisa ocorre na cabeça dos personagens e a beleza dessa obra está mais na construção do que no encadeamento dos eventos”, explica Gabriela. Porém, cinema é imagem. Era preciso encontrar um jeito de externar a angústia daqueles personagens. “Quer adaptar um livro? Vai ter de ler até desvendar o que tem por trás daquele encanto”, recomenda a roteirista.
FOTOS: VITIRNE FILMES/DIVULGAÇÃO
Antônio Fagundes e Sandy Leah: parceria inusitada que funciona (foto: FOTOS: VITIRNE FILMES/DIVULGAÇÃO)

A opção por apostar no horror tem a ver com isso. Por mais que tenha uma estética sombria, Lourenço Mutarelli não se alinha diretamente ao gênero. A decisão, como Gabriela conta, funciona como uma maneira de colocar o espectador em certo estado de ânimo, para deixar a narrativa fluir. “Tínhamos no romance do Mutarelli uma sugestão de possibilidade de loucura ou não. Resolvemos nos aprofundar nessa oscilação”, explica a roteirista.

Loucura

'Quando eu era vivo' tem no elenco Martat Descartes, Antônio Fagundes e Sandy Leah (sim, a cantora, que usa o sobrenome nos projetos de atriz). A história gira em torno da volta de Júnior (Marat) à casa do pai (Fagundes), depois de se separar da mulher e perder o emprego. Viúvo, ele aluga o quarto para uma estudante de música (Sandy). À medida que Júnior se reencontra com objetos do passado guardados naquela casa, o clima de suspense se instala.

Mistérios envolvendo a morte da mãe e a doença do irmão são elementos potencializadores da loucura guardada naquele local. A direção de arte e a caracterização dos personagens têm papel fundamental no clima do filme. É como se cada objeto contribuísse para gerar o estranhamento que pouco a pouco domina a tela. “O apartamento evoluía com a dramaturgia conforme o personagem se afundava nas obsessões. É um processo de contaminação”, diz Marco Dutra.

Se o diretor acerta no clima, o elenco também chama a atenção. Em um primeiro momento, o triângulo formado por Martat, Fagundes e Sandy poderia parecer combinação improvável. O primeiro tem uma larga trajetória em teatro e participações no cinema contemporâneo; Fagundes é mais conhecido por papéis na TV, embora também tenha vários filmes no currículo; e Sandy é estreante no cinema. O trio funciona bem.

'Quando eu era vivo' ficou pronto dois dias antes de estrear na Mostra de Cinema de Tiradentes, em 24 de janeiro. Atrasou uma semana para chegar ao circuito comercial em Belo Horizonte por absoluta escassez de salas voltadas para a produção nacional independente na cidade. Para Marco Dutra, a sensação é de dever cumprido. “Quando vi que as pessoas em Tiradentes vinham conversar sobre temas que eu estava totalmente habituado a abordar, fiquei feliz. Percebi que estava comunicando”, conclui.

Autor e ator


Lourenço Mutarelli andou dizendo por aí que abandonaria a literatura e os quadrinhos. Se vai, de fato, ninguém sabe. O que é verdade é que a agenda dele anda bem ocupada – com o cinema. Autor do livro que deu origem a Quando eu era vivo' (A arte de produzir efeito sem causa ), ele faz uma pequena participação no longa como motorista. Atualmente, está no set rodando Chamada a cobrar, de Anna Muylaert. Produzido pela Gullane e África Filmes, o longa é adaptação para o cinema do telefilme 'Para aceitá-la continue na linha' (2010). Mutarelli protagonizou a adaptação de seu romance 'Natimorto' (2009) e interpretou um segurança em 'O cheiro do ralo' (2006), também baseado em livro escrito por ele.

Fique de olho

Parceira de Marco Dutra na adaptação de 'Quando eu era vivo', Gabriela Amaral Almeida é nome promissor no cinema brasileiro. Roteirista e diretora, ela atualmente trabalha no novo longa de Walter Salles, ao mesmo tempo em que adapta o livro 'De repente nas profundezas' do bosque, do escritor isralense Amós Oz, para Cao Hamburger filmar. Fora os projetos autorais. Com previsão de filmagem para o fim deste ano, o primeiro longa da carreira dela como diretora será 'A sombra do pai', protagonizado por Irandhir Santos. Detalhe: Gabriela acaba de voltar de Sundance (EUA), onde participou de laboratório de roteiros com o projeto do filme. Entre os professores ilustres que deram pitacos no futuro filme estão Quentin Tarantino e Michael Goldenberg. Em 2012, a cineasta faturou prêmios nos festivais de Gramado e de Brasília com o curta 'A mão que afaga'.

QUANDO EU ERA VIVO
De Marco Dutra, com Antônio Fagundes, Marat Descartes, Sandy Leah, 108min, classificação etária 12 anos. Cine 104 (Praça Rui Barbosa, 104, Centro, (31) 3222-6457), às 20h30.

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