Confira salas e horários de exibição de 'Tatuagem em BH'
Já na primeira cena Clecio (Irandhir Santos) avisa que a arma do grupo Chão de Estrelas é o deboche. E define o cabaré que apresentam como Moulin Rouge do subúrbio ou o Stúdio 54 da favela (em alusão ao famoso clube da segunda metade dos anos 1970, em Nova York). O que sugere que o escracho dará o tom do filme. No palco, o grupo de teatro de fato apronta todas. Mas o filme se desloca para os bastidores da trupe, detendo-se, com surpreendente delicadeza sobre os sentimentos e a vida dos integrantes. O filme tem aspecto notável: a deslumbrante atuação de Irandhir Santos, em obra na qual todo o elenco marca presença expressiva, individualizando extensa galeria de tipos.
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A onipresença dos dois aspectos até cria desequilíbrio, mas também acaba funcionando a favor de filme que, com muitas provocações, procura, deliberadamente, a divergência estética, a diferença de opiniões, o posicionamento do espectador diante do mostrado. E, nesse sentido, 'Tatuagem' não é memorialismo (ainda que mostre outras memórias dos anos 1970 que não a luta armada). Trata-se, de fato, de uma ficção ambientada no período, deslocamento temporal para fustigar tempos (atuais) de proibicionismo e convencionalismo generalizado. Até pode gerar incômodo uma certa nostalgia que se infiltra nessa abordagem, mas é difícil ficar insensível à celebração da multiplicidade dos afetos, dos delírios da arte ou das utopias libertárias.
Hilton Lacerda é roteirista de 'Amarelo manga' e 'Febre do rato' (de Cláudio Assis), 'Filmefobia' (de Kiko Goifman), 'A festa da menina morta' (de Matheus Nachtergaele) e 'Árido movie' (de Lírio Ferreira, com quem codirigiu 'Cartola – Música para os olhos').
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