Muito próxima da nova geração por causa da filha, a também cineasta Júlia Murat, Lúcia está longe de se sentir uma estranha no ninho dedicado aos realizadores em início de carreira. “Na medida em que a minha filha cresceu e passei a ter contato com essa turma, acho ridículo falar em atualizar. É uma vivência. Um outro olhar que para mim tem sido muito importante. A geração deles tem uma força que nenhuma outra teve desde o Cinema Novo. Força como coletivo, como proposta estética”, analisa.
Em seu novo longa, Murat dialoga com o presente, sem esquecer o passado. Principalmente o dela, marcado pela militância e posturas ideológicas. “Diria que o filme é um balanço de geração. A relação entre minha geração e seus filhos”, explica a diretora. 'A memória que me contam' vai além. Tendo a ditadura brasileira como pano de fundo, o longa fala sobre as utopias da geração que lutou pela democracia, mas é, sobretudo, um tratado sobre a amizade sem deixar de lado discursos sobre o peso do passado, papel da política e da arte na vida das pessoas.
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Utopia
“Os personagens de 'As invasões bárbaras' têm uma vivência da mesma época que a minha. Tem aquela utopia, mas eles não sofreram. Minha geração, ao contrário deles, foi torturada, assassinada, passou por um sofrimento barra pesada e, ao mesmo tempo, hoje está no poder”, comenta. A diferença entre o filme dela e o de Denys Arcand é que, ao retratar os jovens, a brasileira opta por não caricaturar o vazio utópico. Em vez de drogados e capitalistas, são pessoas com preocupação social e artística. No filme, Simone Spoladore é Ana, figura que simboliza a memória do que Vera representou para os amigos. Irene Ravache interpreta o alter ego de Lúcia Murat.
Apesar de ser inspirado em algumas pessoas do círculo de amizade da diretora e da inclusão de imagens de arquivo do período da ditadura, 'A memória que me contam' é obra de ficção. Como costuma alternar gêneros, o próximo trabalho de Lúcia, o longa 'Quatro histórias e meia', será um documentário no qual retomará a história da tribo indígena kadiwéu, abordada por ela no filme 'Brava gente brasileira'. “Viabilizar documentário é mais fácil. Mas tem também uma necessidade própria. São dois mundos muito diferentes que gosto de aproximar”, conclui.
Em nome da história e contra o esquecimento
Além de 'A memória que me contam', a exibição em Tiradentes do documentário 'Dossiê Jango', de Paulo Henrique Fontenelle, reforça a safra de filmes latino-americanos que propõem olhares diferenciados sobre os períodos de ditadura da região. Assim como a produção chilena 'No', de Pablo Larraín, o longa de Lúcia Murat incentiva uma reflexão sobre o tema, sem necessariamente ser explícito. Para Lúcia Murat, a sutileza da produção contemporânea é fruto do tempo. “Quando fiz 'Que bom te ver viva' (1984) a dor ainda era muito presente. A relação do filme era muito próxima. Hoje não. Realmente é o passado”, diz.
Mesmo sendo um documentário, a obra de Fontenelle tem o mesmo propósito. “É um documentário que ao mesmo tempo é um thriller de política, uma obra que pareceria de ficção se não fosse verdade”, descreve. Produzido nos últimos três anos, 'Dossiê Jango' investiga as razões da morte do ex-presidente João Goulart. A partir da entrevista de um agente secreto uruguaio, o diretor procura entender os mistérios que envolvem Jango em seu exílio. Temas como a participação americana no golpe brasileiro, a inoperância do Estado na investigação e o descaso com os mortos da ditadura são abordados no documentário.
“Acho que o que está levando a América Latina a finalmente discutir esse período é que se trata de uma história que nunca acabou e sempre foi escondida debaixo do tapete. Na Argentina até houve julgamento, existem memoriais. No Brasil pouco se fala. É como se as coisas fossem se ajeitando aos poucos, mas a ferida continua aberta. Os filmes são importantes para conhecer um pouco sobre nossa história”, defende Paulo Henrique Fontenelle.
* A repórter viajou a convite da organização da mostra.
Destaques desta segunda-feira
» Cine Tenda
15h – Longa –Sudoeste (ficção, de Eduardo Nunes)
18h – Curtas – O tradutor, de Grace Iwashita; Fui à capadócia e lembrei de você, de Larissa Figueiredo; Invisíveis, de Anderson Fregolente; Mauro em Caiena, de Leonardo Mouramateus; Serra do Mar, de Iris Junges.
19h30 – Longa, Mostra Aurora – Ventos de Valls (documentário,
de Pablo Lobato)
22h30 – Curtas – Olho mágico, de André Sampaio; Pátio, de Aly Muritiba; Mãos mortas, de Arthur Tuoto; Orwo foma, de Karen Black e Lia Letícia; Púrpura, de Tavinho Teixeira; O Ouvido de Vinicius, de Sergio Oliveira e Ezequiel Pierri
» Cine Praça
21h – Curtas – Linear, de Amir Admoni; Aluga-se, de Cris Azzi; Quinto andar, de Marco Nick; Passo compasso, de Caroline Fioratti; Arremate, de Rodrigo Luna
» Cine Tenda Bar Show
0h30 – Blue Drop Jazz Quartet