Tudo começa quando o dentista alemão dr. King Schultz (Christoph Waltz, quase tão incrível quanto no filme anterior do diretor, Bastardos inglórios, que lhe rendeu o Oscar de ator coadjuvante) se une a Django e os dois iniciam a sucessão de crimes com licença para matar. Não é apenas um rastro de sangue que deixam por onde passam. O tempo todo, a dupla incomoda pela ousadia de um negro desfilar montado em um cavalo.
É assim que a obra ganha conotações sociopolíticas, revelando com detalhes a crueza da escravidão. Django livre tem todos os elementos que fizeram de Tarantino quem ele é. Dono de assinatura inconfundível e humor ferino, só e apenas ele é capaz de escrever crônica da sociedade, expor suas raízes e tripas com cinismo e ironia proporcionais ao sangue que faz jorrar na tela. A carnificina não poupa o espectador de cenas de embrulhar o estômago. O absurdo das situações denunciadas revela a impotência dos desprovidos de poder. E o que parece pertencer ao passado mostra-se ainda tão presente.
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A estética Tarantino, outra assinatura inconfundível do diretor, é amarrada por figurinos geniais, closes nos momentos exatos e trilha sonora que pode ganhar vida além das telas. O hip-hop de Rick Ross (100 Black Coffins) rouba a cena. Tem ainda o dueto (póstumo) do rapper 2 Pac com James Brown (Unchained – The Payback/Untouchable) e músicas do maestro Ennio Morricone, só para citar algumas.
A primeira incursão de Tarantino pelo western é tudo o que ele havia prometido. Negros são mostrados como nunca antes no gênero (ainda que o humor tenha incomodado gente como Spike Lee). Na estreia nos EUA, o diretor declarou que queria contar história de um passado para o qual americanos “realmente não querem olhar”. Lembrou que “muitos westerns se passaram durante a escravidão e fizeram o impossível para evitar o tema”, como se costuma fazer sempre por lá. Sobre a violência de seu filme, disse: “Não pode ser mais espantoso, surrealista ou vergonhoso do que a realidade.” Mais uma vez, Tarantino não resiste e entra em cena. E de maneira, digamos, explosiva. Tanto quanto seu filme.

