'Django Livre', o faroeste de Quentin Tarantino, estreia em BH

Leonardo DiCaprio e Jamie Foxx estrelam nova aventura narrativa do criador de 'Pulp fiction'

por Gracie Santos 18/01/2013 07:00

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Sony Pictures/Divulgação
Dupla divide atenções e expõe conflitos históricos de maneira dissimulada em cena (foto: Sony Pictures/Divulgação)
Uma história de amor. Princesa é presa pelo pai no alto de uma montanha, protegida por um dragão que cospe fogo. E, como deve ser nos contos de fada, a infeliz mocinha, punida por ter desobedecido ordens, terá que ser salva por um homem corajoso, herói apaixonado que vencerá todos os obstáculos para libertá-la. Tudo bem, isso não se parece nada com um filme de Quentin Tarantino. Ok, a sinopse não é (apenas) essa. O diretor transporta a fábula amorosa para o Sul dos Estados Unidos (o filme se passa em 1858, dois anos antes da Guerra Civil) e a transforma em faroeste.

Sony Pictures/Divulgação
Diretor se arriscou ao explorar estética que não dominava (foto: Sony Pictures/Divulgação)
Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), chamado pelos negros de paizão, é proprietário (acredite se quiser) da Candyland, fazenda que prepara negros para lutas. A princesa em questão é negra e tem nome alemão: Broomhilda (Kerry Washington). O príncipe é ninguém menos que Django Freeman (Jamie Foxx). Na sinopse de Tarantino, dupla de caçadores de recompensa formada por um negro (livre) e um alemão faz justiça com as próprias mãos. Vende corpos de bandidos à Justiça, enquanto um deles procura sua esposa.

Tudo começa quando o dentista alemão dr. King Schultz (Christoph Waltz, quase tão incrível quanto no filme anterior do diretor, Bastardos inglórios, que lhe rendeu o Oscar de ator coadjuvante) se une a Django e os dois iniciam a sucessão de crimes com licença para matar. Não é apenas um rastro de sangue que deixam por onde passam. O tempo todo, a dupla incomoda pela ousadia de um negro desfilar montado em um cavalo.

É assim que a obra ganha conotações sociopolíticas, revelando com detalhes a crueza da escravidão. Django livre tem todos os elementos que fizeram de Tarantino quem ele é. Dono de assinatura inconfundível e humor ferino, só e apenas ele é capaz de escrever crônica da sociedade, expor suas raízes e tripas com cinismo e ironia proporcionais ao sangue que faz jorrar na tela. A carnificina não poupa o espectador de cenas de embrulhar o estômago. O absurdo das situações denunciadas revela a impotência dos desprovidos de poder. E o que parece pertencer ao passado  mostra-se ainda tão presente.

Catchup e balas de festim à parte, Tarantino mantém senso de humor afiado. A cena em que integrantes da Ku Klux Klan se queixam de não enxergar nada pelo buraco de suas máscaras está entre as mais impagáveis da história do cinema. As teorias da organização são dissecadas por Calvin Candie em grande interpretação de DiCaprio. Impressiona também  Samuel L. Jackson, que dá vida ao escravo e mordomo Stephen, homem asqueroso e figura crucial na trama. Sem falar em Jamie Foxx, impagável canastrão.

A estética Tarantino, outra assinatura inconfundível do diretor, é amarrada por figurinos geniais, closes nos momentos exatos e trilha sonora que pode ganhar vida além das telas. O hip-hop de Rick Ross (100 Black Coffins) rouba a cena. Tem ainda o dueto (póstumo) do rapper 2 Pac com James Brown (Unchained – The Payback/Untouchable) e músicas do maestro Ennio Morricone, só para citar algumas.

A primeira incursão de Tarantino pelo western é tudo o que ele havia prometido. Negros são mostrados como nunca antes no gênero (ainda que o humor tenha incomodado gente como Spike Lee). Na estreia nos EUA, o diretor declarou que queria contar história de um passado para o qual americanos “realmente não querem olhar”. Lembrou que “muitos westerns se passaram durante a escravidão e fizeram o impossível para evitar o tema”, como se costuma fazer sempre por lá. Sobre a violência de seu filme, disse: “Não pode ser mais espantoso, surrealista ou vergonhoso do que a realidade.” Mais uma vez, Tarantino não resiste e  entra em cena. E de maneira, digamos, explosiva. Tanto quanto seu filme.

Confira o trailer de 'Django livre':


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