Depois de brilhar em Avenida Brasil, diretor mineiro estreia minissérie e flerta com o cinema

José Luiz Villamarim comanda O canto da Sereia, com Ísis Valverde, baseada em romance de Nelson Motta

por Carolina Braga 01/01/2013 07:27

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Walter Carvalho/Divulgacao
Villamarim começou a vida profissional como economista em Belo Horizonte, mas logo foi vencido pela paixão pelo audiovisual (foto: Walter Carvalho/Divulgacao )
Era a década de 1980. Na seara audiovisual mineira, uma turma de videomakers dava o que falar. A videoarte experimentava período de efervescência. Foi nesse cenário que o então economista mineiro José Luiz Villamarim começou a colocar para fora uma antiga paixão. Números, tendências mercadológicas ou fluxos financeiros pouco a pouco se tornavam menos sedutores do que câmeras, atores, roteiros e afins. Para aquele ex-aluno dos Maristas, que caiu na economia quase por acaso, a mudança de rumo não parecia ser nenhuma novidade.

“Estudei economia sempre com o desejo de fazer cinema. Trabalhava na Fundação João Pinheiro. Lá tinha um equipamento U-matic e um estúdio completo. Comecei a fazer documentários. Uma vez, fiz um docudrama para a polícia de Minas e o meu desejo de trabalhar com atores aumentou. Consegui mandar uma fita com esse trabalho para o Denis Carvalho”, conta. Foi a guinada na carreira.

Da primeira experiência como estagiário de Anos rebeldes à recente empreitada como um dos diretores de Avenida Brasil, lá se vão 20 anos que José Luiz Villamarim dedica à Rede Globo. O currículo do ex-economista é recheado por 16 novelas, três seriados e duas indicações ao Emmy Internacional. No meio disso, um interesse constante por novas linguagens, principalmente inovações na forma de se fazerem telenovelas.

Em 2012, ao lado de Ricardo Waddington e Amora Mautner, fez da novela de João Emanuel Carneiro um dos maiores fenômenos da teledramaturgia do país. Como ele prefere dizer, Avenida Brasil deve ser analisada como um case de sucesso. “Há uma união de texto, direção e acerto de casting. Foi uma conjunção que deu certo”, diz. E não se pode negar: o êxito das imagens em close, câmera na mão, falas sobrepostas e tecnologia de ponta na captura das cenas foram algumas das inovações da pouco criativa linguagem das telenovelas.

“O João (Emanuel Carneiro) trouxe uma pegada das séries americanas. Brincávamos que ele era o Capitão Gancho. A novela dele é prismática, gira muito”, analisa. A essa característica do autor da trama, José Luiz acrescenta o desejo do trio de diretores de explorar uma interpretação mais orgânica dos atores aliada às à qualidade trazida pela captação digital.

Assim, à medida que João Emanuel Carneiro dava o mote com a narrativa inovadora, Villamarim e seus companheiros na direção acompanhavam à altura com ideias visuais. “A câmera na mão aproxima. Temos uma coisa mais documental . A novela não trabalhava com planos gerais, eram planos médios que garantiam uma integração do ponto de vista de linguagem. As pessoas se sentiam lá dentro, participando. A história é o que interessava. Ela fluía. Além de tudo, foi a primeira vez que todo o processo de externa foi feito com lente fixa. Isso traz uma qualidade de imagem que chama a atenção”, avalia o diretor.

Se depender de Villamarim, a teledramaturgia brasileira vai seguir na mesma toada. “Estamos fazendo para a TV, mas pode virar um produto híbrido”, anuncia sobre O canto da Sereia. A microssérie baseada no livro de Nelson Motta vai ao ar a partir do dia 8. Serão quatro capítulos com a história de Sereia, a bem-sucedida cantora de axé assassinada em cima de um trio elétrico, em plena terça-feira de carnaval. “Como é um projeto que chamamos de especial, faço uma mistura. Não estou fazendo cinema, é televisão, mas tenho uma equipe híbrida”, completa.

Rumo à telona
O cinema está nos planos de José Luiz Villamarim este ano. Ele pretende tirar do papel o projeto de um longa-metragem acalentado há anos. É a adaptação do segundo volume da série Inferno provisório, de Luiz Ruffato. “Ele tem uma linguagem inovadora. Trata de uma classe média que o cinema ainda não visitou”, analisa o diretor. Com produção de Vânia Catani, da Bananeira Filmes, a ideia é rodar o filme em Cataguases.

• Villamarim na TV
Novelas
2012 – Avenida Brasil
2010 – Tempos modernos
2008 – Três irmãs
2007 – Paraíso tropical
2005 – Bang bang
2004 – Cabocla
2003 – Mulheres apaixonadas
2002 – Desejos de mulher
2001 – Um anjo caiu do céu
1999 – Andando nas nuvens
1998 – Torre de Babel
1997 – Anjo mau
1996 – O rei do gado
1995 – Cara e coroa

Minisséries
2013 – O canto da Sereia
2011 – Força-tarefa
2005 – Mad Maria

Estevam Avellar/Rede Globo
Ísis Valverde, que interpreta a cantora de axé Sereia, ao lado do diretor da minissérie (foto: Estevam Avellar/Rede Globo)


Realismo e sensualidade
Com elenco conhecido da telinha – Ísis Valverde como a protagonista, Gabriel Braga Nunes, Camila Morgado, Marcos Palmeira e Margareth Menezes, entre outros –, a equipe por trás da câmera de O canto da Sereia vem toda do cinema. A fotografia será assinada por Walter Carvalho e todos os autores, George Moura, Patrícia Andrade e Sérgio Goldenberg, têm vasta experiência em roteiros para a telona. Patrícia, por exemplo, é co-criadora de Dois filhos de Francisco.

Depois de todo o alvoroço causado por Avenida Brasil, José Villamarim evita falar em inovação quando se refere a O canto da Sereia. Mesmo assim, reconhece que a série partirá do mesmo princípio da novela. “É um thriller sem beber tanto na fonte do cinema americano, mas tentando fazer isso com cara de Brasil. Vamos trazer essa interpretação o mais realista possível, beirando o documental”, explica o diretor.

A Bahia que estará na tela não tem nada a ver com a imagem folclorizada do estado, mesmo que o axé seja pano de fundo para a trama. A trilha sonora, por exemplo, não destacará nomes do gênero, mas figuras como Caetano Veloso, Gal Costa, Novos Baianos e Carlinhos Brown. “Estou perseguindo a Bahia contemporânea, que existe hoje, cosmopolita. Não é a Bahia do Jorge Amado”, avisa. Para contribuir com o tom realista, atores baianos foram escalados para dividir a cena com os protagonistas.

Assim como no livro de Nelson Motta, a trama da série será contada em flashback. Sereia morre no primeiro capítulo e a partir da investigação do crime o espectador vai conhecer as nuances e segredos da mulher intensa, de 25 anos, que em apenas dois anos se tornou ícone do axé. Na obra de Nelson Motta, a personagem é picante, provocante, sem preconceitos.

Segundo José Luiz Villamarim, toda a intensidade de Sereia também estará na telinha, mas comedidamente. “Evidentemente,não vamos pesar a mão em nada disso. As histórias existem. A Sereia tem essa pulsão, é muito sensualizada. É uma história apaixonante, ela se apaixona por várias pessoas”, adianta. O canto da Sereia foi gravado em Salvador e na Patagônia.

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