Mostra Udigrudi Mundial de Animação, Mumia, começa nesta quinta e ocupa vários espaços em BH

Festival apresenta 230 filmes de 31 países e aponta um bom momento da produção nacional

por Gracie Santos 04/10/2012 08:41

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Turgut Akacik / Divulgação
Não vá (Don't go), de Turgut Akacik, da Turquia (foto: Turgut Akacik / Divulgação)
 
Professor de cinema do Centro Universitário UNA, Sávio Leite sempre achou que a animação é vista de forma preconceituosa. Parte da culpa disso ele atribui a Walt Disney, “que acostumou as pessoas a verem o gênero como algo dirigido às crianças”. Curador e realizador da Mostra Udigrudi Mundial de Animação (Mumia), que começa hoje em BH, ele acredita que essa ideia tenha começado a mudar a partir de A viagem de Chihiro (2001), de Hayao Miyazaki. “Passaram a perceber que a animação podia ser milhares de coisas, inclusive tocar em temas pertinentes, da mesma forma que a ficção e o documentário.”
E é exatamente por acreditar que animação merece “militância subversiva” e que a produção de curtas no Brasil não é objeto de estudos da academia (“animação menos ainda”), que Sávio Leite quer contribuir para reduzir cada vez mais esse estigma que persegue o gênero e “mostrar que tudo é uma arte só”. Principal ferramenta dessa sua luta tem sido a Mumia, que começou há 10 anos, com um diferencial dos demais festivais: todo mundo que se inscreve, participa. “Hoje, ela é a segunda maior do país, atrás apenas do Anima Mundi”, celebra o idealizador, que preparou extensa programação até dia 31, em variados espaços da cidade. Serão exibidos 230 filmes, de 31 países. São 53 produções nacionais, sendo 23 de Minas.
Na abertura, nesta quinta-feira, a partir das 19h30, no Cine Humberto Mauro do Palácio das Artes, além dos programas nacionais 1 e 2, haverá mostra de curtas italianos com a presença do artista Andrea Martignoni, que criou trilhas sonoras para obras de Blu, Saul Saguatti, Michele Bernardi, Pierre Hébert. Professor de história da animação da escola de belas-artes de Palermo (Itália), ele trabalha em colaboração com vários festivais internacionais, ministrando aulas magnas, workshops e palestras. Depois, haverá festa no bar Nelson Bordelo, no Centro. Durante o festival, vai ser lançado livro bilíngue sobre a história da animação mineira organizado por Sávio Leite e editado pela ONG Favela é isso aí.
Isabel Herguera/Divulgação
Cena do filme Pauliceia, da Birdo Studios (foto: Isabel Herguera/Divulgação)
EM ALTA
O crescimento da Mumia está intimamente ligado ao aumento da produção brasileira, evolução que, Sávio Leite acredita, esteja relacionada a fatores como o próprio desenvolvimento tecnológico, facilitador da criação/produção. “Hoje, os softwares e cursos on-line permitem que as pessoas aprendam a animar sem sair de casa”, argumenta. Ainda que quantidade não implique qualidade, a prática é importante. Para ele, fundamental no processo evolutivo foram os editais do governo Lula, criados há dois anos, com incentivo específico para o cinema de animação. Cita obras como Meu AmigãoZão (série feita em coprodução Brasil/Canadá), de Claudia Koogan Breitman e Andrés Lieban, e Historietas mal-assombradas (para crianças malcriadas), de Vitor Hurgo Borges, incentivadas pelo Ministério da Cultura (MinC). “Sem falar em Peixonauta, série de Kiko Mistrorigo e Célia Catunda, criada em 2009, agora sucesso inclusive internacional”, aponta o animador.
Para o realizador da Mumia, o grande divisor de águas da produção Disney foi Toy Story, em 1995. “Nunca haviam feito uma animação em 3D. E tinha também a proposta nova de fazer roteiro, o que encantou todo mundo, de crianças a pessoas mais velhas. O desenho mostrou que havia vida inteligente nos estúdios Disney”, afirma. Já o marco da animação brasileira, para ele é Meow (1981), de Marcos Magalhães, um dos diretores do Anima Mundi, história de um gato que pedia leite sem parar e, depois de lavagem cerebral, passou a tomar Coca-Cola. “Recebeu prêmio especial do júri em Cannes e isso abriu portas. A partir daí, mapearam o Brasil e o Centro Técnico Audiovisual (CTAv), no Rio, a Escola de Belas-Artes da UFMG, em BH, e a Casa Amarela, em Fortaleza, como espaços com capacidade de trabalho. Houve incentivos internacionais e surgiu, então, uma geração de animadores, a minha inclusive”, conta o professor.
Entre os novos nomes que Sávio Leite destaca na produção brasuca estão Carlos Eduardo Nogueira, autor de Yansan (2009); César Cabral, de Dossiê Rebordosa (2008); além do mineiro Leonardo Catapreta, de O céu no andar de baixo (2011). “Em todas as mostras de que participo, no país e fora, o que vejo é uma produção brasileira de qualidade. Quando é necessária uma seleção, ficam muitas obras de qualidade de fora. São produções com muita vitalidade. Não é uma arte acanhada, tem tudo que o brasileiro gosta, muito sexo, muita cor e violência latente.” Ele acredita que vivemos a era do documentário. “Até 20 anos atrás, as pessoas não tinham o hábito de assistir aos filmes do gênero, que passa por espécie de boom. Os filmes se tornaram mais poéticos, anteriormente se assemelhavam mais às reportagens. E o público percebeu que há vida inteligente no mundo do documentário”, analisa. Para ele, “o próximo boom será da animação”.
 
O QUE VOCÊ NÃO PODE PERDER 
 
Céu, inferno e outras partes do corpo – de Rodrigo John (RS), com desenhos de Fábio Zimbres e música de Jamelão. Já é novo clássico brasileiro colecionador de prêmios (na Mostra Nacional 1).
Pauliceia – Birdo Studios. São vencedores do Mumia do ano passado. O conjunto das obras inclui animações do disco Pequeno cidadão. É produto brasileiro tipo exportação (Nacional 3).
Cabeça papelão – do mineiro residente no Rio Quiá Rodrigues (RJ) – Quia já participou do Festival de Cannes com seu primeiro curta De janela 
pro cinema e apresenta o programa Animania, na 
TV Brasil (Nacional 5).
Mais valia – de Marco Túlio Vieira (MG) – É representante da nova safra da produção mineira. Estava em competição no 45º Festival de Brasília (Mineira 2).
Um passeio matinal (A morning stroll) – de Grant Orchand (Reino Unido) – Foi premiado no Anima Mundi e em vários lugares do Mumia (Internacional 1).
Tempest in a bedroom – de Laurence Arcadias e Juliette Marchabd (França) – Tórrida historia de amor (Internacional 2).
This thirst – de François Vogel (França) – Hipnótica viagem em trem em Dubai, mensagem perturbadora com efeitos especiais atordoantes (Internacional 4).
Historia d'este – de Pascual Perez (Espanha) – Personagens de massinha apresentam sua versão para a bebedeira sem falsos moralismos em conto sobre o alcoolismo (Internacional 8).
Luminaris – de Juan Pablo Zaramella (Argentina) – Acumula mais de 50 prêmios internacionais. Feito em pixilation (Internacional 10).
Get real – de Evert de Beijer (Holanda) – Sobre viciado em jogo de computador que corre atrás de uma cantora megastar. Visão apocalíptica da atualidade em obra feita com canetas comuns (Internacional 12). 
Indicações de Sávio Leite 
 
MUMIA – MOSTRA UDIGRUDI MUNDIAL DE ANIMAÇÃO
Nesta quinta-feira, a partir das 19h30, no Cine Humberto Mauro do Palácio das Artes, Av. Afonso Pena, 1.537, Centro. Entrada franca. E a partir de amanhã, em outros espaços da cidade: C.A.S.A (Rua Himalaia, 69, Vale do Sol, Nova Lima); Cineclube Sabotage (Rua Álvaro Henriques, 144, Taquaril A); Cineclube Joaquim Pedro de Andrade (Rua Tupinambás, 179, Centro); Cineclube Uma Tela no Meu Bairro (Rua Jaime Gomes, 198, Floresta); PUC São Gabriel (Rua Walter Ianini, 255, São Gabriel). Informações: www.mostramumia.blogspot.com. 


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