Blocos caricatos e de rua travam batalha pelo Carnaval de Belo Horizonte

Eles cobram maior apoio da Belotur que, por sua vez, anuncia apoio recorde neste ano, admite atraso no repasse, mas pede o fim do "mimimi"

por Pedro Galvão 17/01/2018 08:20

Alexandre Guzanshe/EM/DA Press
Praça da Estação é um dos principais pontos de encontro do Carnaval de Belo Horizonte desde a chamada %u201Cretomada%u201D do carnaval de rua. (foto: Alexandre Guzanshe/EM/DA Press)

No ano passado, foram 3 milhões de pessoas. Para 2018, a expectativa é de público 20% maior. Os números consolidam o carnaval de BH como um dos maiores do país, fato inimaginável há cerca de 10 anos, quando as ruas da cidade ficavam quase desertas nos dias reservados à folia. Quase, porque mesmo antes da chamada “retomada” do carnaval de rua, a partir de 2009, já havia quem desfilasse pela capital.

Bem antes de os blocos Baianas Ozadas, Então Brilha! e Juventude Bronzeada arrastarem uma multidão de foliões fantasiados como bem preferirem, a BH carnavalesca tinha como protagonistas os blocos caricatos, que se orgulham de suas décadas dedicadas ao samba e cobram mais apoio das autoridades e do público. Nos anos 1960, os desfiles na Avenida Afonso Pena contavam com cerca de 50 blocos caricatos. Entre os anos 1990 e 2000, os cortejos foram suspensos, mas agremiações como Corsários do Samba, Inocentes de Santa Tereza e Bacharéis do Samba sobreviveram à quase extinção dos blocos caricatos belo-horizontinos. Em 2017, a Afonso Pena recebeu 10 desfiles. Apesar da longevidade, os caricatos perderam em popularidade para os blocos de rua.

 

 

Presidente do Inocentes de Santa Tereza há 13 anos, Ângelo Lima reivindica mais apoio. “O poder público deveria dar mais prestígio aos blocos caricatos e às escolas de samba. Se o carnaval de BH hoje está deste tamanho, é graças a eles, que seguraram a peteca quando a festa havia acabado. Pelo que a gente vê, parece que dão mais prestígio para os blocos de rua do que a essas agremiações”, afirma.

Segundo a Belotur, em 2018, o total de recursos repassados aos blocos caricatos e escolas de samba que cumprirem as determinações do edital será 50% maior que no ano passado. Cada escola do grupo principal receberá R$ 75 mil e cada bloco caricato, R$ 37,5 mil. As inscrições terminam hoje e só depois do anúncio dos selecionados o dinheiro será encaminhado. O Inocentes de Santa Tereza está entre os inscritos, insatisfeito com o valor e com a demora no repasse.

“Há mais de 10 anos lutamos para chegar a esse ponto. Mas o valor ainda é muito pouco para quem quer fazer uma festa bonita. Muito pouco para um carnaval que abriu um edital com patrocínio tão grande. Exige-se muito mais que bloco de rua – tem artista plástico, soldador, marceneiro, grafiteiro, costureiras. Tudo isso exige equipe de trabalho. Não é com um estalo de dedos que se solda uma alegoria. Além disso, a prefeitura passa o recurso bem em cima da hora. O que adianta ter o dinheiro e não ter tempo para fazer?”, questiona Ângelo Lima. Apesar das queixas, ele garante que os preparativos estão a todo vapor para o desfile do grupo, que conta com 50 instrumentistas e 190 integrantes.

Responsável pela administração do carnaval de BH, a Belotur se defende, alegando “olhar com carinho” para os blocos caricatos e escolas de samba. “Sinceramente, percebo que a gente precisa sair desse lugar de ‘mimimi’ e ‘choração’. As coisas vêm acontecendo, mas algumas pessoas estão olhando para trás. Temos que olhar para a frente, com um carnaval tão reconhecido e projeção nacional. Quem ficar olhando para trás vai perder o bonde da história. Melhoramos a infraestrutura, o auxílio financeiro, a dinâmica do espetáculo. Estamos trabalhando, mas é o primeiro ano de uma gestão de quatro, isso tudo requer planejamento. As coisas não mudam da noite para o dia”, afirma Aluizer Malab, presidente da Belotur.

Malab entende que as agremiações não podem depender exclusivamente do dinheiro repassado pela PBH para viabilizar os desfiles. “O auxílio financeiro coloca uma condição de dependência do poder público. A gente precisa entender que o mundo mudou, não tem cidade com caixa sobrando, a economia pública não se coloca como mantenedora de tudo. Precisamos ter saídas em que o poder público, aliado à iniciativa privada, encontre essas frentes. Trabalhamos muito e, se não estamos agradando, é preciso conversar mais para entender aquilo que eles esperam. Porém, a prefeitura não consegue arcar com o sonho ideal de todos, o que podemos é colaborar com todos”, explica.

ATRASO O fato de o repasse da verba ocorrer próximo do dia do desfile se deve ao atraso no contrato de patrocínio, alega a Belotur. “É um gargalo, sempre houve atraso. Fizemos nosso planejamento, formalizamos o edital de patrocínio, mas houve um problema de documento. Ele foi cancelado e reaberto só em janeiro. Nosso planejamento original era viabilizar isso em novembro, distribuindo o recurso em dezembro, mas fomos pegos de surpresa”, diz Malab. Ele diz que a burocracia envolve prazos e recursos. “Estamos nos esforçando ao máximo e, mesmo com esse atraso, blocos e escolas vão receber ainda em janeiro, com antecedência que nunca receberam.”

A cobrança de mais recursos vem também de outros grupos carnavalescos. Fundado em 1947, o Leão da Lagoinha desfilou até 1986. Ano passado, retornou às ruas do bairro e à Avenida Afonso Pena, como no passado. “Incorporamos o Leão na associação do bairro e consegui um aporte de R$ 10 mil (de uma fabricante de cerveja). Os desfiles na comunidade e na Afonso Pena foram um sucesso. Mas, para este ano, ainda não conseguimos patrocinador”, conta Jairo Moreira, presidente do primeiro bloco de rua da cidade. O Leão também reivindica fatia maior da verba destinadas ao carnaval.

“Segundo a Belotur, houve aumento dos recursos vindos de patrocinadores, com aumento para blocos caricatos e escolas. Porém, para os blocos de rua não houve aumento. O valor máximo continua R$ 10 mil para os classificados no edital. E nossos instrumentos são caros. Isso não paga nem o cachê de R$ 12,6 mil para os nossos 11 músicos, fora alegoria, abre-alas, equipamento de som, abadás. Um bloco na rua custa R$ 50 mil. Sem desmerecer blocos caricatos e escolas de samba, só com eles a cidade não teria a dimensão de carnaval que tem hoje. É hora de repensar, buscar apoio de empresas privadas, especialmente para blocos de grande porte”, diz Jairo Moreira. Para este ano, os desfiles estão confirmados na Lagoinha, em 11 de fevereiro, e na Afonso Pena, em 13 de fevereiro. “Teremos uma novidade: além dos metais, sairemos com bateria com 30 componentes e um carro abre-alas com um leão de quatro metros de altura”, adianta.

Outra vanguarda do carnaval belo-horizontino, o bloco caricato Aflitos do Anchieta, fundado em 1966, pretende aproveitar o crescimento da folia de rua para se fortalecer, mas também cobra um apoio maior da prefeitura, como explica o atual presidente, Mario Afonso Ligorio. “Já existia essa manifestação popular, mas o carnaval não tinha essa organização de hoje, quando os jovens reacenderam essa chama. Acho muito válido. Bloco de rua nunca atrapalhou bloco caricato. Acredito que a tendência seja melhorar, mas tem que tomar cuidado com comércio. Estão comercializando demais. A estrutura vai ficando comprometida. A relação (com a prefeitura) é amigável, mas eles exigem de mais e colocam de menos. O valor que repassam é quase fictício. Deviam fazer uma coisa mais segura, melhorar a estrutura, que está boa, mas ainda falta. Ainda vemos escolas de samba que beiram o ridículo, porque não têm condições financeiras de colocar coisas melhores”, diz Mário.

Em 2018, a exemplo do ano passado, o Aflitos do Anchieta não desfilará, pois passa por uma reestruturação. O bloco pretende retornar ao desfile oficial no ano que vem. Por enquanto, o grupo planeja um desfile pelas ruas do Anchieta durante o carnaval.

Estudioso dos primórdios do carnaval belo-horizontino, o historiador Marcos Maia defende a harmonia entre todas as partes interessadas e um apoio maior a quem mais precisa. “Se olharmos para trás, quem manteve o carnaval foram principalmente as escolas de samba e os blocos caricatos. Daí a importância de a Belotur e fundações de cultura enxergarem isso como uma manifestação não só turística, mas cultural. É preciso olhar com carinho para eles. E também é preciso se unir, se organizar e parar de brigar. A maioria dos blocos e escolas são de comunidades carentes e acabam marginalizados. Nosso papel de historiador é mostrar como esses grupos são guerreiros, quanto eles amam o samba”, argumenta.

O desfile oficial dos blocos caricatos está marcado para 12 de fevereiro e o das escolas de samba para o dia seguinte, ambos na Avenida Afonso Pena, onde será montada a estrutura para o evento.

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