Com hinos próprios, blocos consolidam seu estilo de fazer música no carnaval de BH

Grupos resgatam ritmos tradicionais em marchinhas, mas também incluem hits do rock, pop e axé. Influências inspiram canções próprias que simbolizam a festa na capital

por Daniel Camargos 17/02/2015 10:23
Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press
Para historiadores e integrantes dos blocos, o uso de músicas autorais e a incorporação de estilos marcantes são características que definem o carnaval de BH (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A.Press)

Na retomada do carnaval de Belo Horizonte, o cardápio de ritmos contempla diversos gostos, mas mantém a sintonia na música brasileira, com exceção – entre os blocos já considerados mainstreans – do Alcova Libertina, que carnavaliza hits de Beatles e Rolling Stones e outros pesos pesados do rock internacional e nacional. A festa começou para valer na quarta-feira com a brasilidade das canções de Tim Maia e Jorge Ben do repertório rico em metais e bateria do Chama o Síndico. Seguiu com os sambas do Moreré, na quinta-feira, e passou embaixo da cordinha com o axé de raiz do Tchanzinho Zona Norte, na sexta-feira. Sem perder o rebolado e o ritmo baiano, o Então, Brilha! encantou a manhã de sábado. O domingo amanheceu azul com os afoxés e mantras do Pena de Pavão de Krishna (PPK) e terminou com a catarse do rock com confete da Alcova. Ontem, foi a vez de o Baianas Ozadas retomar o axé e com uma poderosa bateria sacudir uma multidão. No caldeirão de ritmos tem espaço até para o maracatu e o congo do bloco Unidos do Barro Preto, que ganhou as ruas do bairro na tarde de ontem.

“O carnaval de Belo Horizonte assume suas características a partir dessas canções”, define o professor de literatura e um dos organizadores do Então, Brilha!, Geison Bezerra. O Então, Brilha! tem um hino oficial, com o mesmo nome do bloco, que e foi cantado com entusiamo pelas 20 mil pessoas que participaram do desfile na Rua Guaicurus, epicentro da boemia belo-horizontina. “A gente criou a canção meio despretensiosamente, mas assumiu um caráter de composição grande”, pontua Bezerra.

Dessa amálgama de ritmos e influências nasceram as canções que simbolizam a festa da capital. Além do hino do Então, Brilha!, outros blocos têm músicas marcantes que os foliões sabem de cor e cantam juntos ao som da bateria. O Pena de Pavão de Krishna seguiu pelas ruas da Lagoinha entoando clássicos com pegada espiritual de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Clara Nunes e outros bambas. Mas mesmo com a concorrência de alta patente, a música Aflorou, de autoria de Gustavito, é um dos sucessos do PPK. “O bloco promove uma expansão da consciência, que tem muita relação com a criatividade. Vou lançar um disco neste ano e as músicas que criamos para o bloco estarão nele”, contou o músico.

Pouco antes do começo do carnaval foi lançado o LP duplo Deita no cimento, projeto realizado via Lei Estadual de Incentivo à Cultura com curadoria de Luiz Valente, criador da Vinyl Land, e Guto Borges, historiador, músico e um dos mais ativos participantes dos blocos da capital. Além das marchinhas que venceram concursos, como o Baile do pó Royal e Imagina na Copa, o disco tem também os hinos do Então, Brilha! e do PPK, sendo 18 músicas criadas entre 2009 e o ano passado, o período mágico do renascimento do carnaval de BH.

COLETIVO
Entre as músicas está aquela que, talvez, seja o hino mais conhecido, a Marchinha da Alcova, famosa pelo delicioso e anárquico refrão: “Chuta, chuta, chuta/Chuta a família mineira”. O produtor executivo do bloco, André Leal, explica que o sucesso vem desde a origem, em 2010, quando foi criado um ateliê para artistas de diversas áreas, incluindo músicos, no Bairro Santa Tereza. O coletivo gestou o bloco Alcova, que se apresentou pelo quarto ano na noite de domingo. “Os blocos começaram a ter vida. Fazemos apresentações fora do carnaval e conseguimos arrecadar o dinheiro para apresentar durante a festa de maneira independente”, detalha André.

O Alcova destoa um pouco da pegada brasileira dos outros blocos do mainstrean do carnaval de BH. O repertório tem muito rock, com clássicos e sucessos recentes repaginados pelo suingue da banda, mas não abandona a origem, pois contempla sucessos da Tropicália e Mutantes. Entre os integrantes do bloco estão músicos profissionais, com carreiras paralelas em outras bandas e discos gravados, como Thiakov e Paim, da banda Ram.

EXPERIÊNCIA
Além do Então, Brilha!, outros blocos privilegiam os ritmos da Bahia. O Tchanzinho Zona Norte, que saiu na sexta-feira no Bairro Dona Clara, tem um repertório dominado pelos sucessos do É o Tchan. O regente do bloco é o músico Rodrigo Picolé, que além da bateria animada conta com o teclado do músico Artênius Daniel, uma das estrelas da Orquestra Mineira de Brega. Já o Baianas Ozadas, que se consolidou como o maior bloco de Belo Horizonte, teve um repertório homenageando os 40 anos dos blocos afro de Salvador, em especial o Ilê Aiyê.

Entre as centenas de blocos que já pipocam pelas ruas da cidade há espaço para inovações. Marcos Nascimento, um dos músicos do Unidos do Barro Preto, detalha a receita do caldeirão do bloco: “Um pouco de resgate do “axé roots” com um pouco do maracatu, uma onda de funk e um pouco de mangue beat e Nação Zumbi”. Para Pedro Martins, colega de Marcos na bateria, as misturas estão criando uma identidade do som do carnaval da capital mineira com elementos próprios. “O congo é um ritmo mineiro que conhecemos e mandamos no bloco”, conta Pedro. “No final, a coisa groova e surge um som diferente”, acredita Marcos. (Colaborou Renan Damasceno)

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