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'Quem Ama Cuida': por que é tão difícil sair de uma relação abusiva?

Personagem de Mariana Sena enfrenta controle, dependência emocional e violência no casamento

Elenice, de Quem Ama Cuida, vive relação abusiva; entenda por que romper é difícil

Divulgação TV Globo
'Quem Ama Cuida': entenda por que Elenice não consegue deixar Tom
Redação Entretenimento clock 11/10/2026 11:00
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“Por que ela simplesmente não vai embora?” A pergunta costuma aparecer quando uma história de violência doméstica é observada de fora. Em “Quem Ama Cuida”, Elenice, personagem de Mariana Sena, ajuda a mostrar por que a resposta pode ser muito mais complexa.

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Casada com Tom, vivido por Allan Souza Lima, Elenice entrou na trama como uma mulher batalhadora presa a um relacionamento tóxico que ela própria tinha dificuldade de reconhecer. O marido se colocava como provedor e a impedia de trabalhar. Com o avanço da novela, controle, ciúme e violência psicológica deram lugar a agressões físicas. Mais recentemente, Tom chegou a trancá-la dentro de casa, enquanto a própria filha tenta convencê-la a denunciá-lo. Ainda assim, Elenice resiste.

 

É justamente essa contradição que torna a personagem tão próxima de situações vividas fora da ficção. Para o psiquiatra Dr. Ciro Jorge, a dependência emocional pode alterar a maneira como a própria vítima interpreta a relação.

 

“Existe uma construção progressiva. A pessoa pode passar a acreditar que não consegue viver sem aquele parceiro, sentir culpa pela possibilidade de terminar ou manter a expectativa de que ele vai mudar. Quando autoestima, autonomia e rede de apoio vão sendo enfraquecidas, aquilo que parece uma decisão óbvia para quem está de fora pode se tornar extremamente difícil para quem está vivendo a situação”, explica.

 

Violência nem sempre começa com uma agressão

 

Um dos pontos mais importantes da história de Elenice é justamente a escalada. Antes da violência física, vieram comportamentos de controle e restrição de autonomia. A trama já mostrou também violência psicológica e patrimonial antes de chegar às agressões.

 

A advogada Silvana Campos alerta que reconhecer essas outras formas de violência é fundamental.

 

“Ainda existe a ideia de que violência doméstica só existe quando há agressão física. A legislação brasileira reconhece também as violências psicológica, moral, sexual e patrimonial. Controlar dinheiro, impedir a mulher de trabalhar, ameaçar, humilhar ou criar mecanismos para limitar sua liberdade também são situações que precisam ser levadas a sério”, afirma.

 

A dificuldade aumenta porque momentos de agressividade podem coexistir com pedidos de desculpas, promessas e períodos aparentemente tranquilos.

 

Para Glaucia Santana, terapeuta do Espaço Hi, essa alternância ajuda a compreender por que o vínculo não desaparece automaticamente depois de um episódio de violência.

 

“Uma mulher pode amar aquela pessoa e, ao mesmo tempo, sofrer dentro daquela relação. Pode lembrar de quem o parceiro foi no início, acreditar nas promessas de mudança e se apegar aos períodos em que tudo parece voltar ao normal. Aos poucos, ela também pode começar a duvidar da própria percepção e se perguntar se está exagerando ou se provocou determinada situação. É por isso que acolhimento é muito mais importante do que julgamento”, explica.

 

“Por que ela não denuncia?” pode ser a pergunta errada

 

Na novela, até Dafne, filha do casal, tenta fazer a mãe procurar a polícia. Elenice, porém, chega a se responsabilizar pelos abusos e não consegue romper imediatamente com Tom.

 

Para Ciro, cobrar uma reação imediata pode aprofundar o isolamento. “Quando dizemos ‘você precisa sair daí’ sem compreender medo, dependência, filhos, questões financeiras e o enfraquecimento emocional provocado pela própria relação, corremos o risco de fazer a vítima se sentir ainda mais incompreendida. A rede de apoio precisa ajudá-la a recuperar segurança e autonomia.”

 

Silvana acrescenta que o momento da ruptura também precisa ser pensado com proteção. “Quando existe violência, não devemos tratar a separação simplesmente como o fim de um relacionamento comum. A mulher precisa conhecer seus direitos, procurar uma rede segura e, quando houver risco, buscar os órgãos competentes e orientação jurídica para que as medidas de proteção adequadas sejam avaliadas.”

 

Talvez seja justamente aí que a história de Elenice encontre sua maior força. Em vez de mostrar uma mulher que reconhece a violência e imediatamente fecha a porta, a novela expõe algo mais desconfortável: às vezes, perceber que aquilo não é amor também faz parte de um processo.

 

“Romper um vínculo de dependência emocional envolve reconstruir coisas que foram sendo perdidas ao longo da relação: autoestima, confiança, autonomia e a percepção de que existe vida fora daquele relacionamento”, conclui Glaucia. 

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