O &ldquotête-à-tête&rdquo entre o profeta dos novos meios de comunicação e o crítico da indústria cultural
Filósofo lança o livro &ldquoTeoria Crítica e Pós-História. Diálogos Possíveis Entre Theodor Adorno e Vilém Flusser&rdquo
Como seria o diálogo entre dois dos filósofos mais importantes do século XX, considerados no respectivo meio acadêmico como muito diferentes entre si? O encontro entre o alemão Theodor Adorno (1903-1969) e o tcheco naturalizado brasileiro Vilém Flusser (1920-1991) realmente aconteceu, mas o teor do &ldquotête-à-tête&rdquo nunca veio a público. Graduado e mestre em Filosofia pela UFMG, e doutor na disciplina pela Universidade de Kassel, Rodrigo Duarte pensou muito nesta possível conversa e começou a escrever sobre ela há seis anos. O resultado é o livro &ldquoTeoria Crítica e Pós-História. Diálogos Possíveis Entre Theodor Adorno e Vilém Flusser&rdquo, que será lançado no dia 29 de agosto, na Livraria Quixote, Savassi.
A publicação da obra é justificada por Rodrigo Duarte pelo fato de estes dois filósofos contemporâneos poderem ser enfocados conjuntamente na abordagem de temas atuais relevantes para a sociedade de forma crítica, como o autoritarismo político, a cultura contemporânea e o impacto dos meios tecnológicos na vida das pessoas, dentre outros. O público-alvo são pessoas interessadas em compreender e se posicionar criticamente diante das grandes questões do nosso tempo.
&ldquoUm estímulo interessante para eu pensar em escrever este livro foi tentar imaginar o que os dois filósofos poderiam ter conversado em 1966, lá em Frankfurt - o encontro foi documentado em ao menos quatro cartas de Flusser, que se referiu à conversa como &lsquoimportante e instrutiva&rsquo. Fiquei pensando se deveria ficcionalizar um pouco. Depois, cheguei à conclusão que isto não era para mim e fiz como sempre: uma abordagem mais teórica, mais filosófica&rdquo, conta o autor.
O processo originou sete capítulos - Auschwitz Autenticidade Comunicação Cultura Educação Kafka e Música -, que seriam tópicos sobre os quais Adorno e Flusser teriam bastante a dizer por terem publicado muito sobre os mesmos, revela Rodrigo Duarte.
Dentre os fatores de aproximação entre Adorno e Flusser, destacam-se o contexto judaico de cultura alemã e a origem na Europa Central, assim como a criação de filosofias que enfocam com profundidade e precisão tópicos característicos da cultura contemporânea, tais como a sociedade de massas, a arte e os meios audiovisuais altamente tecnológicos. Autor da primeira orelha do livro, o ensaísta Gustavo Bernardo afirma que a escrita de Rodrigo Duarte traduz ambos os filósofos, &ldquocom clareza e elegância&rdquo, para a &ldquolíngua de gente&rdquo. A expressão contém uma dose de humor, adverte o autor do livro.
De forma clara, então, a atualidade existente tanto no pensamento de Flusser quanto no de Adorno atrai o leitor. Flusser, considerado uma espécie de profeta dos novos meios de comunicação, previu o surgimento das redes sociais e seus efeitos. Adorno estabeleceu o impacto da indústria cultural no direcionamento das massas.
Mas é na questão política que os dois filósofos convergem bastante, afirma Rodrigo Duarte. Se ambos foram vítimas do nazismo, o contexto da fuga os difere. Adorno emigrou para os Estados Unidos, ao passo que Flusser se exilou no Brasil, onde morou por 30 anos. &ldquoO primeiro capítulo do livro, Auschwitz, aponta para uma situação muito triste e de apreensão que vivemos hoje, que é exatamente sobre a ascensão da extrema direita no mundo. Porque o corolário do surgimento do nazismo na Alemanha foram os campos de concentração, os campos de extermínio nazistas. E acho que deveria estar claro para todos que o objetivo da extrema direita no mundo, inclusive o que existe a este respeito no Brasil, são campos de extermínio. Calcula-se que durante a pandemia 400 mil mortes por Covid poderiam ter sido evitadas no país&rdquo, adverte Rodrigo Duarte.
SAIBA MAIS
Theodor Adorno
Filósofo e sociólogo alemão
Um dos principais representantes da Escola de Frankfurt, é crítico da indústria cultural e da sociedade de massa. Para ele, a cultura popular pode ser uma forma de controle social que impede a crítica e a verdadeira expressão artística.
Vilém Flusser
Filósofo Tcheco naturalizado brasileiro
Teórico da mídia, analisa como o ser humano é dominado por aparelhos como câmera fotográfica e computador. Este período, chamado de pós-história, teria começado no século XIX com a invenção da fotografia. A imagem deixa de ser produzida pela mão do homem, como na época das pinturas rupestres e das primeiras escritas, no terceiro milênio AC - as ditas imagens tradicionais. Na pós-história, as pessoas deixam de ser trabalhadoras no sentido industrial clássico para se transformar em funcionários automatizados de máquinas que deveriam servi-las.
SERVIÇO / LANÇAMENTO
Local: Livraria Quixote
Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi
Horário: 11 horas
Data: 29/08
MINIBIOGRAFIA
Rodrigo Duarte é graduado e mestre em Filosofia pela UFMG e doutor nessa disciplina pela Universidade de Kassel (1990), com pós-doc na Universidade da Califórnia em Berkeley (1997). Foi professor visitante na Universidade Bauhaus de Weimar (2000) e na Hochschule Mannheim (2011). A partir de 1990 foi professor do Departamento de Filosofia da UFMG, tendo se aposentado em 2023.
Atualmente é docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFMG. Foi presidente da Associação Brasileira de Estética, de 2006 a 2014 e, de 2022 a 2026, foi presidente da International Association for Aesthetics.
Publicou, além de numerosos artigos e capítulos de coletâneas, no Brasil e no exterior, dentre outros, os livros: Adornos. Nove ensaios sobre o filósofo frankfurtiano (1997) Adorno/Horkheimer & a Dialética do esclarecimento (2002) Teoria crítica da indústria cultural (2003) Dizer o que não se deixa dizer (2008) Deplatzierungen (2009 segunda edição: 2017) Pós-história de Vilém Flusser: gênese-anatomia-desdobramentos (2012) e Varia Aesthetica (2014).
E-mail: [email protected]
Link para o Currículo Lattes: lattes.cnpq.br/9952013182741941