Sob as escarpas verticais dos Montes Taihang, no norte da China, escavadeiras de corte e perfuratrizes hidráulicas abriram uma hélice contínua de concreto e rocha sólida que gira em 360 graus no interior da montanha. O maciço rochoso abriga a pista dupla da rodovia que sobe em caracol subterrâneo para superar uma barreira topográfica antes intransponível para o tráfego pesado comercial.
Por que o Túnel Hankou precisou girar em espiral dentro da montanha em vez de subir em linha reta?
Uma diretriz em linha reta entre os pontos de entrada e saída exigiria vencer os 109,34 metros de desnível em um trajeto inferior a 1.500 metros na horizontal. Esse desenho geraria uma inclinação longitudinal superior a 7,5%, patamar que compromete a capacidade de frenagem de composições de carga pesada e induz superaquecimento em tambores e discos de freio.
Ao adotar uma trajetória helicoidal com raio de curvatura de 700 metros, o comprimento desenvolvido da pista é estendido para 4.457 metros na galeria esquerda e 4.366 metros na direita. Essa ampliação geométrica dilui o ganho altimétrico, fixando a inclinação em uma taxa média de 2,5%, permitindo que carretas comerciais trafeguem em regime de torque estável e sem riscos de perda de aderência pneumática.

Quais dados geométricos e geológicos definiram os 4.411 metros de curva e o raio de 700 metros no maciço de Taihang?
A definição das dimensões do Túnel Hankou exigiu sondagens geológicas profundas executadas pela construtora estatal China State Construction Engineering Corporation (CSCEC), responsável pela implantação do lote na Via Expressa Xinxiang-Jincheng. Os ensaios de campo mapearam alternâncias de calcário dolomítico, estratos de arenito e zonas de falhas tectônicas com alta concentração de juntas fraturadas.
A homologação do segmento contínuo espiral pelo Guinness World Records consolidou a medição pericial de 4.411,707 metros em 15 de maio de 2024, superando marcas globais anteriores de túneis rodoviários curvos. As métricas técnicas centrais do projeto estrutural incluem:
- Extensão total da galeria esquerda: 4.457 metros escavados em rocha.
- Extensão total da galeria direita: 4.366 metros com traçado paralelo independente.
- Segmento espiral certificado: 4.411,707 metros contínuos em curva.
- Cota altimétrica do emboque inferior: 784 metros acima do nível do mar.
- Cota altimétrica do emboque superior: 893 metros acima do nível do mar.
- Desnível relativo vencido: 109,34 metros de ganho de altitude vertical.
- Raio mínimo de curvatura horizontal: 700 metros constantes na hélice.
- Profundidade máxima de cobertura (overburden): superior a 320 metros de maciço rochoso sobre a abóbada.
Como funcionam a ventilação longitudinal e o controle de tração dos caminhões ao longo do caracol subterrâneo de Hankou?
Túneis helicoidais impõem uma dinâmica aerodinâmica complexa. Ao contrário de túneis retilíneos onde o efeito pistão dos veículos empurra naturalmente a coluna de ar, a curvatura constante de 700 metros dissipa a energia cinética do fluxo de ar contra a parede externa da galeria, acumulando monóxido de carbono e material particulado nas faixas centrais.
Para mitigar esse acúmulo, a equipe de engenharia instalou um sistema de ventilação longitudinal forçada escalonada, composto por baterias de ventiladores a jato (jet fans) reversíveis suspensos na abóbada a cada 150 metros. Esses equipamentos geram jatos de ar a alta velocidade que aceleram o volume gasoso ao longo da curvatura em direção aos poços verticais de exaustão situados nas extremidades da montanha.
O que as escavações do consórcio CSCEC revelaram sobre a perfuração da espiral tripla sob a rocha?
O avanço subterrâneo nas frentes do Túnel Hankou exigiu o controle de deformações em rocha branda sob altas tensões de confinamento. O método adotado foi o Novo Método Austríaco de Abertura de Túneis (NATM), monitorando a convergência das paredes por estações totais computadorizadas para aplicar o suporte de concreto projetado no instante exato de descompressão do maciço.
Para manter o alinhamento da espiral com precisão milimétrica ao longo dos 4.411 metros, os topógrafos utilizaram giroscópios subterrâneos acoplados a sistemas de orientação a laser, eliminando o acúmulo de desvios angulares inerentes à escavação cega em trajetória circular contínua sob centenas de metros de terra sobrejacente.
Abaixo, um vídeo do South China Morning Post (YouTube) que aprofunda o tema:
De que maneira as diretrizes da norma JTG D70 e os critérios da ABNT NBR 15987 superaram o recorde do Túnel de Jinjiazhuang?
Antes da homologação do Hankou, a marca mundial pertencia ao Túnel de Jinjiazhuang, com 4.166,16 metros na via expressa Yanchong, construído para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 na província de Hebei. O projeto de Hankou ampliou esse recorde em mais de 245 metros, adotando critérios de dimensionamento da norma chinesa JTG D70 e parâmetros equivalentes aos recomendados pela ABNT NBR 15987 para túneis rodoviários urbanos e montanhosos.
A compatibilização estrutural envolveu o uso de revestimento duplo: suporte primário com cambotas de aço treliçadas e camada de concreto projetado com fibras de aço de 25 cm de espessura, seguido por uma manta impermeável de polietileno de alta densidade (PEAD) e anel secundário moldado in loco com concreto armado C35 de 50 cm. Esse conjunto garante estanqueidade hidrostática e estabilidade para uma vida útil de projeto projetada para 100 anos.

Em que momento projetos de túneis e contenções subterrâneas exigem a intervenção de um engenheiro geotécnico especializado?
O desenvolvimento de obras subterrâneas em maciços montanhosos envolve riscos geotécnicos severos que demandam a atuação direta de um engenheiro civil geotécnico e de especialistas em escavação subterrânea. Quando o traçado intercepta rocha com índice RQD (Rock Quality Designation) inferior a 25% ou zonas cársticas com percolação hídrica descontrolada, a ausência de um projeto de suporte sob medida pode deflagrar desmoronamentos imediatos na abóbada.
A presença do profissional especializado é compulsória na definição das etapas de perfuração e plano de fogo, no dimensionamento de chumbadores injetados e na análise contínua de convergência por instrumentação piezométrica e extensométrica. Em projetos de infraestrutura que exigem estabilização de encostas e túneis em espiral, esse acompanhamento técnico evita colapsos estruturais e garante a segurança patrimonial e operacional da via.
