Luzes artificiais cortaram o breu total a centenas de metros sob a superfície oceânica quando as lentes de um submersível registraram uma ramificação amarela viva, erguendo-se sobre rochas basálticas como a copa luminosa de uma árvore dourada.
Como a estrutura ramificada do coral Laurinque elenya garante nutrição sem luz solar?
Diferente dos corais de recifes costeiros, que dependem da luz solar para alimentar microalgas simbióticas (*zooxantelas*), o recém-descrito Laurinque elenya habita uma zona permanentemente escura. Sem capacidade fotossintética, a espécie sobrevive como um predador passivo por filtração, dependendo das massas de água fria que colidem contra as montanhas submarinas.
O animal faz parte dos octocorais, caracterizados por pólipos microscópicos com exatamente 8 tentáculos orlados de pequenas projeções. Essas estruturas abrem-se na correnteza como minúsculas pás para reter a neve marinha — detritos de matéria biológica e plâncton morto que descem continuamente das camadas superficiais do oceano.

Por que os pesquisadores precisaram erguer uma nova família biológica para o coral amarelo?
A identificação formal de novos animais geralmente os posiciona dentro de gêneros ou famílias biológicas já conhecidas. Contudo, quando a equipe coordenada pela pesquisadora Dr.ª Odalisca Breedy, da Universidade da Costa Rica (UCR), realizou a análise molecular das amostras colhidas a 529 metros, o perfil genético gerou um nó taxonômico.
Três marcadores genéticos comumente utilizados para classificar octocorais — os genes mtMutS, COI e 28S rDNA — apontaram para direções incompatíveis entre si. Um marcador indicava parentesco com a família Incrustatidae, outro sugeria proximidade com Eunicellidae, e o terceiro isolava o organismo em uma posição desconhecida, indicando um conflito profundo na árvore filogenética tradicional.
Qual é a relação entre o nome do coral e o chão estrelado dos montes submarinos?
O nome escolhido pelos biólogos conecta a filogenia à visualização física do habitat. Em quenya, uma das línguas élficas idealizadas pelo filólogo e escritor J. R. R. Tolkien, o vocábulo Laurinquë refere-se a uma mítica árvore de cachos dourados. Já o termo elenya expressa a ideia de “estelar” ou “da natureza das estrelas”.
A combinação traduz o que as câmeras do submersível registraram no monte Las Gemelas II. O solo basáltico ao redor do coral estava coberto por centenas de ofiúros, equinodermos com um disco central rodeado por cinco braços sinuosos esticados sobre a pedra, simulando uma constelação cintilante no leito oceânico.
| Atributo Biológico | Coral Abissal (Laurinque elenya) | Corais Tropicais de Recife Raso |
|---|---|---|
| 🌊 Faixa de profundidade | 360 a 529 metros | 0 a 30 metros |
| ☀️ Incidência luminosa | Escuridão ininterrupta (zona afótica) | Radiação solar contínua (zona eufótica) |
| 🍽️ Via primária de energia | Filtração passiva heterotrófica de neve marinha | Fotossíntese mediada por microalgas simbióticas |
| 🦴 Composição do arcabouço | Hastes flexíveis com escleritos microscópicos | Bloco maciço calcário rígido de aragonita |
Como os submersíveis robóticos exploram as encostas vulcânicas do Pacífico costarriquenho?
A investigação de relevos submarinos a centenas de metros de profundidade demanda robótica naval avançada. O ROV SuBastian desce pelas encostas dos montes ligado à embarcação de superfície por um cabo umbilical blindado, alimentando monitores da tripulação com vídeo em resolução 4K e leituras de temperatura, oxigênio e condutividade.
Munido de pinças com controle tátil micrométrico e compartimentos estanques, o veículo coletou fragmentos vivos a 529 metros de profundidade sem esmagar o esqueleto do animal, permitindo que a equipe depositasse os holótipos intactos no Museu de Zoologia da UCR para validação anatômica.
Abaixo, um vídeo do canal Schmidt Ocean Institute (YouTube) que aprofunda o tema:
Quais evidências do estudo na revista ZooKeys confirmaram a linhagem isolada?
A descrição científica formal foi publicada no periódico internacional ZooKeys, com coautoria de geneticistas e taxonomistas como a Dr.ª Catherine S. McFadden e a Dr.ª Andrea M. Quattrini, do Smithsonian Institution. O estudo aplicou análises filogenômicas avançadas baseadas em Elementos Ultraconservados (UCEs), sequenciando centenas de regiões do genoma nuclear.
O alinhamento dos dados genômicos revelou que a linhagem de Laurinque elenya forma um grupo irmão em relação a famílias vizinhas da ordem Alcyonacea. O resultado comprova que o coral se separou de outros octocorais há dezenas de milhões de anos, mantendo-se isolado nos relevos vulcânicos submersos do Pacífico Oriental.
Quais atividades humanas e ameaças submarinas colocam em risco os recifes de Las Gemelas?
Mesmo localizados a centenas de metros da superfície, os montes submarinos são categorizados como Ecossistemas Marinhos Vulneráveis (EMVs). A principal ameaça direta sobre essas formações reside na pesca de arrasto de fundo, cujas redes pesadas varrem o leito rochoso e destroem em instantes colônias que levaram séculos para crescer.
Outro perigo emergente envolve a exploração de crostas de ferromanganês e sulfetos polimetálicos no fundo do mar. A dispersão de plumas de poeira mineral provocada pela mineração submarina ameaça asfixiar os pólipos filtradores do Laurinque elenya, impulsionando a demanda de cientistas pela ampliação das Áreas Marinhas Protegidas na costa pacífica costarriquenha.
📖 Leia também: Como este animal das profundezas consegue passar anos sem comer e continuar vivoO espécime-tipo de Laurinque elenya permanece preservado em álcool etílico a 70% nos arquivos do Museu de Zoologia da UCR, enquanto colônias vivas seguem filtrando água fria a 529 metros de profundidade sob as correntes escuras do Pacífico.

