A 19 km de Aracaju pela BR-235, uma cidade de 30 mil habitantes esconde um dos conjuntos coloniais mais bem preservados do Brasil nas margens do Rio Cotinguiba. Laranjeiras, fundada em 1605, guarda a Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, construída na segunda metade do século XVIII e considerada a primeira dedicada ao Sagrado Coração de Jesus no Brasil. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico da cidade foi tombado em 1995 e reúne aproximadamente 500 edificações preservadas em ruas de paralelepípedo. Também abriga um dos museus afro-brasileiros mais antigos do país, inaugurado em 1976. No auge do ciclo açucareiro no século XIX, Laranjeiras concentrou mais de 70 engenhos e recebeu a primeira Alfândega do estado. Hoje, é considerada uma das principais referências brasileiras em Cultura Popular pela mesma instituição federal.
Do porto das laranjeiras à visita de Dom Pedro II em 1860
O nome do município vem literalmente das muitas laranjeiras que existiam no local durante a colonização portuguesa. O Marco da Cidade, erguido em 1944 no antigo porto, registra as três fases da história: povoado em 1606, vila em 1832 e cidade em 1848. Laranjeiras é considerada a segunda cidade mais antiga do estado de Sergipe, depois de São Cristóvão. Segundo divulgação do portal oficial do IPHAN, o desenvolvimento econômico ocorreu com o cultivo da cana-de-açúcar no século XVIII, gerando um apogeu financeiro que atraiu comerciantes de todo o estado. A cidade tinha o primeiro porto e a força da arquitetura antiga.
A visita mais ilustre foi a de Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina, que estiveram em Laranjeiras em 14 de janeiro de 1860. Segundo divulgação do portal oficial da Prefeitura Municipal de Laranjeiras, o casal imperial fez uma doação de 500 mil-réis para o término da torre sineira da Igreja Matriz, já que na época pagava-se imposto conforme o número de torres. O Paço Municipal, edificação do século XIX, guarda memória dessa visita e hoje abriga a sede da prefeitura. A cidade também foi berço de lutas em defesa da República e pela Abolição da Escravatura.

Um dos museus afro-brasileiros mais antigos e o legado dos mais de 70 engenhos
O Museu Afro-Brasileiro de Sergipe ocupa um casarão do século XIX que pertenceu à família Brandão, servindo antes como residência e cartório. É um dos museus afro-brasileiros mais antigos do país, com sede fixa desde 1976, anterior ao Museu Afro Brasil de São Paulo, inaugurado apenas em 2004. O acervo reúne objetos de cultos religiosos, fotografias, telas e documentos ligados à cultura afro-brasileira e ao sincretismo religioso do Brasil. A visita guiada dura cerca de 30 minutos e inclui informações sobre os folguedos locais.
O passado açucareiro explica por que a cidade ganhou tanto peso cultural. No auge, Laranjeiras concentrou mais de 70 engenhos que dominaram a economia sergipana. O Vale do Cotinguiba era pontilhado de propriedades açucareiras que dependiam de mão de obra escravizada. Muitos dos negros escravizados viviam na cidade, trabalhando nas docas, no comércio e nos ofícios urbanos, e alguns conquistaram a liberdade antes da abolição. A Casa de Ti Herculano, na Rua da Cacimba, tornou-se referência da tradição nagô e do Terreiro de Santa Bárbara Virgem, liderado no início do século XX por Umbelina Araújo. Esse legado afro-brasileiro se expressa no Cacumbi, na Taieira, na Chegança e nos rituais que preservam a memória viva do Nordeste.

O que fazer entre as ruas de paralelepípedo e as igrejas jesuíticas
Laranjeiras concentra em poucas quadras um dos maiores conjuntos coloniais preservados do Brasil. Reserve pelo menos um dia inteiro para o essencial. Museus e igrejas fecham às segundas-feiras.
- Igreja Matriz Sagrado Coração de Jesus: primeira dedicada ao Sagrado Coração de Jesus no Brasil, com pinturas do forro atribuídas ao pintor baiano José Teófilo de Jesus.
- Museu Afro-Brasileiro de Sergipe: um dos museus afro-brasileiros mais antigos do país, aberto em 1976 no casarão da família Brandão.
- Igreja Nossa Senhora da Conceição da Comandaroba: construída pelos jesuítas em 1731 às margens do Rio Cotinguiba, tombada pelo IPHAN.
- Casa do Engenho Retiro e Capela de Santo Antônio: primeira residência jesuítica em Laranjeiras, inaugurada em 1701, tombada pelo IPHAN em 1944.
- Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito: construída por negros na metade do século XIX, palco do Cacumbi, da Taieira e da Chegança.
- Museu de Arte Sacra de Laranjeiras: segundo mais importante do estado, fundado em 1980 no casarão da família Sobral Franco.
- Mercado Municipal: construção neogótica do século XIX que abrigou a primeira Alfândega de Sergipe.
O vídeo do canal Nildo Mello, com mais de 1,2 mil visualizações, apresenta uma visita turística à cidade histórica de Laranjeiras (SE).
Um sítio arqueológico a céu aberto e a Renda Irlandesa do Cotinguiba
A Universidade Federal de Sergipe (UFS) instalou seu Curso de Bacharelado em Arqueologia em Laranjeiras justamente porque a cidade é considerada um sítio arqueológico a céu aberto pelo governo estadual. O campus fica no centro histórico, no Quarteirão dos Trapiches, ao lado do Mercado Municipal. Os Trapiches do século XIX, com calçamento pé de moleque e fachadas preservadas, foram antigos armazéns da produção açucareira que escoava pelo porto fluvial. A Ponte Nova, construída em 1842 pelo tenente-coronel João Bloem, do Imperial Corpo de Engenheiros, era usada para escoar o açúcar dos mais de 60 engenhos da região.
A cidade também é a maior referência brasileira da Renda Irlandesa, ofício feminino característico dos municípios do Vale do Rio Cotinguiba. O Modo de Fazer a Renda Irlandesa foi registrado pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. As artesãs trabalham as peças em bureaus de informações turísticas, oferecendo aos visitantes a chance de ver a técnica em execução e adquirir peças diretamente de quem as fabrica. O Teatro Santo Antônio, do século XIX, um dia recebeu grandes companhias nacionais e internacionais e hoje abriga a Biblioteca da UFS do Campus das Artes. A Gruta da Matriana, refúgio antigo dos jesuítas, conserva pinturas do artista plástico Horácio Hora.
A capital brasileira da cultura popular do Nordeste
Segundo o Portal do IPHAN, Laranjeiras é uma das principais referências brasileiras em Cultura Popular. Não é para menos: por 30 anos consecutivos, a cidade sedia o Encontro Cultural de Laranjeiras, o mais importante evento do gênero em Sergipe e uma das maiores referências da arte popular do Nordeste. O calendário anual reúne grupos folclóricos de todo o estado e do país, com apresentações do Cacumbi, da Taieira, da Chegança e do São Gonçalo, além de rituais afro-brasileiros que resistem há séculos.
A Chegança, encenada tradicionalmente no segundo domingo de outubro, representa batalhas simbólicas entre negros e indígenas domesticados pelos senhores de engenho, mostrando a complexidade das relações étnicas do Brasil colonial. As igrejas construídas por escravizados, como a Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, ainda hoje sediam esses rituais. A Casa de João Ribeiro, museu instalado na casa onde nasceu o jornalista, filólogo e historiador imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), preserva o acervo desse que foi um dos primeiros sergipanos a ocupar cadeira na academia brasileira.
Como é o clima e a melhor época para visitar
Laranjeiras tem clima tropical litorâneo, próximo do de Aracaju. As temperaturas oscilam entre 20°C nas madrugadas de inverno e 32°C nas tardes de verão. A estação chuvosa concentra-se de abril a julho, quando os aguaceiros podem ser fortes mas curtos. A estação seca vai de setembro a fevereiro, ideal para caminhar pelas ruas de paralelepípedo e visitar as igrejas coloniais.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Para chegar de Aracaju, os 19 km são cobertos pela BR-235, com trajeto médio de 30 minutos. Quem vem do Sudeste chega pela BR-101. O Aeroporto Internacional Santa Maria, em Aracaju, é a principal porta aérea da região. Muitos visitantes combinam Laranjeiras com São Cristóvão, cidade histórica cuja Praça São Francisco é Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), distante 35 km de Laranjeiras. Ônibus intermunicipais partem diariamente da Rodoviária Velha de Aracaju com viagem de 45 minutos.
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Suba a BR-235 e conheça a Cidade das 500 Edificações Tombadas
Laranjeiras guarda um pedaço raro do Nordeste colonial, onde 500 edificações tombadas convivem com a primeira igreja dedicada ao Sagrado Coração de Jesus do Brasil, um dos museus afro-brasileiros mais antigos do país e o reconhecimento do IPHAN como referência em Cultura Popular. Poucos destinos combinam a Renda Irlandesa registrada como Patrimônio Imaterial, um sítio arqueológico a céu aberto reconhecido pela UFS e um Encontro Cultural que há três décadas reúne o folclore do Nordeste inteiro.

