Experiências negativas na gestação e na infância são capazes de produzir alterações no DNA

Traumas podem levar a doenças e problemas de comportamento, ou mesmo ser transmitidas para gerações futuras. Felizmente, contudo, é possível reverter essas mudanças nocivas nos genes

por Correio Braziliense 02/10/2015 15:00

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Cristiano Gomes / CB / D.A Press
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Abandono dos pais, violência dentro e fora de casa, problemas vividos pela mãe durante a gestação. Muitos dos traumas sofridos no início da vida podem ser esquecidos ao longo do tempo. Mas o que se apaga da memória fica escrito no DNA. Nos últimos anos, estudos têm mostrado que grande parte dessas experiências negativas deixam marcas genéticas que podem influenciar comportamentos e o surgimento de doenças durante a vida adulta, podendo, até mesmo, ser transmitidas para as gerações seguintes.

A área que estuda a influência do ambiente e das experiências de vida no código genético é chamada epigenética. E uma das principais contribuições que ela tem trazido é reforçar a importância da atenção à primeira infância, compreendida entre o momento da concepção até a entrada da criança na escola. Isso porque, ao contrário do que se pensava há 20 anos, não é apenas durante a concepção e a gestação que as características genéticas de um indivíduo são formadas. E essa influência parece ser determinante no aparecimento de certas características de personalidade e doenças, principalmente as metabólicas e as ligadas aos sistemas nervoso e cardiovascular:

“É como uma bola de neve. Numa situação de estresse, uma mulher sofre de depressão após o parto e não dá atenção ao filho. Essa criança, sem o afeto materno, pode apresentar um quadro de depressão ou ansiedade mais tarde e, quando tem filhos, a história se repete”, exemplifica a bióloga e neurocientista Fabíola Zucchi. A partir da epigenética, a pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) estuda como situações estressantes mudam a forma como alguns genes são lidos ao longo da vida, e como mudanças nessa leitura são transmitidas para outras gerações. “Todos sabiam que uma criança feliz tinha mais chances de ser um adulto saudável. Com a epigenética, podemos dizer como e por que isso também afeta seus descendentes”, destaca.

Bom-senso

O farmacólogo Moshe Szyf, da Universidade de McGill, no Canadá, observa que os cuidados nos primeiros anos de vida são importantes não só a longo prazo, pois alguns problemas podem se apresentar cedo. “O estresse afeta todo o sistema de aprendizagem e ansiedade do ser humano por causa da mudança de função do gene”, explica. De acordo com Szyf, uma das pistas encontradas pela epigenética sobre os efeitos do estresse é a metilação do DNA, um processo natural de regulação da forma como cada gene será lido. “Com o estresse precoce, existe uma pequena, mas significativa, mudança na metilação de genes. Vários são desativados ou ativados.”

Outro alerta vem da bióloga Miriam Galvonas, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que estuda a formação de tumores de pele causados por interferências do meio externo. Ela esclarece que, durante a fase embrionária, são estabelecidas marcas genéticas que serão alteradas ao longo da vida, resultando em doenças ou não. “Não há uma receita do que se fazer para evitar a má influência externa. Mas é uma questão de bom-senso. O consumo de drogas, a exposição a poluentes e uma má nutrição da mãe durante a gravidez deixam marcas nos bebês que, no futuro, podem se transformar em cânceres e outros problemas.”

Na pesquisa mais recente, publicada no ano passado em parceria com um grupo da Universidade de Lethbridge, no Canadá, Zucchi mostrou que situações estressantes durante a gravidez de ratos fêmeas afetaram até a terceira geração dos animais. Quando cresceram, os filhotes do sexo feminino apresentaram partos prematuros e problemas comportamentais (dificuldade cognitiva e de locomoção, por exemplo). A neurocientista e colegas sugerem que essa experiência pode ajudar a entender a hereditariedade de algumas doenças em humanos, como obesidade, diabetes, depressão, ansiedade, autismo, complicações cardíacas, entre outras. “O que nossas avós viveram, o estilo de vida que elas levavam, pode explicar algumas marcas genômicas que temos hoje”, avalia.

Torres Gêmeas
As descobertas na área da epigenética impressionam os cientistas por explicarem, em nível molecular, o que acontece em doenças complexas, como as psicológicas e metabólicas, para as quais se acreditava haver origem apenas genética. Galvonas destaca um estudo clássico da área que analisou duas gerações de gêmeos idênticos, uma jovem e outra idosa. “Os pesquisadores viram que as marcas epigenéticas entre os mais jovens eram praticamente as mesmas, enquanto nos idosos eram bastante diferentes. Isso tem a ver com o estilo de vida, como as experiências vividas por cada um alteraram essas marcas”, explica.

Outros estudos recentes expõem a relação estreita entre meio ambiente e DNA. A neurocientista Rachel Yehuda, da Icahn Escola de Medicina Monte Sinai (EUA), analisou dois grupos de gestantes sobreviventes: as do holocausto, na Segunda Guerra Mundial, que passaram por períodos de fome; e as do atentado às Torres Gêmeas, em Nova York, que sofreram um severo estresse pós-traumático.

Yehuda observou que os bebês do primeiro grupo apresentavam índices de hipertensão e disfunções metabólicas mais altos. Os bebês do outro grupo nasceram com alterações no nível de cortisol, o hormônio do estresse, e com um aumento na resposta de angústia, quando eram estimulados. Os estudos foram publicados, respectivamente, em 2005, no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism e, em abril deste ano, no Biological Psychiatry.

Integração
A epigenética é uma espécie de resposta científica a uma longa discussão, que remonta a grandes nomes da ciência, como Darwin, Freud e Lamarck. Essa linha de pesquisa oferece uma explicação integrada de como os seres vivos se adaptam às situações adversas, como ter de fugir de um predador. Não só o meio ambiente seleciona o mais adaptado, como diria Darwin, como os estímulos ambientais mudam o desenvolvimento dos seres, como sugeriu Lamarck com a lei do uso e desuso. Nos seres humanos, um fator a mais precisa ser considerado: o psicológico. A emoção, as experiências de ganhos e perdas, marcam biologicamente e passam isso de uma geração a outra, como já imaginava Freud.

Embora os últimos estudos tenham se concentrado na identificação de doenças associadas à relação entre fatores externos e hereditariedade, os especialistas ressaltam que muitos trabalhos apontam para formas de prevenir enfermidades e sua perpetuação na família. A boa notícia é que uma infância traumática não representa uma condenação definitiva, que certamente se multiplicará na família. “A epigenética mostra que essas alterações na expressão dos genes são reversíveis. É possível que isso se consiga com a prática de exercícios físicos, massagem, nutrição equilibrada e sem consumo de drogas, especialmente durante os períodos pré e pós-parto”, diz Zucchi.

Intervenções benéficas
A pesquisadora da UnB reconhece que alguns pontos dessa linha de pesquisa ainda não foram respondidos, como quais práticas podem causar ou não alterações maléficas para a saúde e o comportamento. No entanto, lembra, várias pesquisas indicam vantagens psicológicas e cardiovasculares, entre outras, de um estilo de vida equilibrado. Galvonas reforça: “Já se sabe, por exemplo, dos benefícios da meditação. Agora, há indícios de que horas dessa prática podem reverter marcas genéticas. Durante a gestação, ela pode interferir na forma como o estresse do meio modifica a expressão dos genes”.

Com a possibilidade de reverter e mesmo evitar uma alteração no modo como os genes serão lidos, Szyf chama a atenção para os benefícios de se tomar cuidados durante a gravidez e os primeiros anos de vida. “Deve-se proporcionar um ambiente o menos estressante possível para proteger as crianças e atenuar as consequências sociais e financeiras de saúde mental, além das complicações físicas que poderão desenvolver em caso contrário.”

Um estudo do qual Szyf é um dos autores mostrou que ratos cujas mães são mais afetuosas (lambem e acalentam os filhotes) têm menor metilação do DNA na região do hipocampo cerebral. Uma das surpresas do grupo foi perceber que, quando trocavam as mães, os filhotes com alto nível de metilação do DNA tinham esse processo reduzido quando passavam a receber carinho. Já os bichos que passaram a ser cuidados por mães menos atenciosas começaram a apresentar uma metilação mais alta.

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