Com canções inéditas, MPB4 lança o disco '50 anos - O sonho, a vida e a roda via!'

Com décadas de história grupo reúne jovens compositores que defendem a arte como política

por Walter Sebastião 27/05/2016 11:17

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Camila Guimarães/divulgação
(foto: Camila Guimarães/divulgação)
O MPB4, talvez o mais famoso grupo vocal da música popular brasileira, celebra seus 50 anos de carreira – na verdade, um pouco mais – com novo CD: 50 anos – O sonho, a vida e a roda viva! (Sesc). Apesar de o título sugerir obra retrospectiva, trata-se de um álbum de inéditas. É o primeiro trabalho com a presença de Paulo Malaguti, escalado para o lugar de Magro Waghabi, que morreu em 2012, além de Dalmo Medeiros (substituto de Ruy Faria, que deixou o grupo em 2004) e dos fundadores Miltinho e Aquiles. “Os novos integrantes têm perfil e experiência que se afinam com a do grupo”, conta Miltinho.


A morte de Magro colocou em risco a continuidade do grupo, mas, durante o velório, a viúva do cantor e diretor musical estimulou os colegas a não interromper a carreira. Miltinho recorda que foi um momento de reflexão. “Sabíamos que tínhamos um papel para o canto vocal e veio a consciência da nossa importância para a MPB. Decidimos que o show tem que continuar”, observa

Os shows que o MPB4 vem fazendo no país e o lançamento do CD soam como recomeço. A história, porém, é longa. O grupo foi articulado por volta de 1962, atuando em unidades do Centro Popular de Cultura (CPC), movimento voltado para a valorização da arte brasileira e canções de protesto. “Com o golpe militar de 1964, não podíamos mais ser quarteto CPC. Assim, passamos a nos chamar MPB4, nome que todos odiaram”, conta Miltinho, com bom humor. “Fomos nós que inventamos a sigla MPB”, avisa, informando que, nos anos 1960, a sigla traduzia uma atitude “bem radical”: a decisão de só cantar música brasileira.

“O MPB4 é reconhecido como grupo com história artística séria, com atitude. Quando começamos, acreditávamos que era possível fazer revolução e mudar o Brasil. Mas a dança não foi essa. Apanhamos e, quando vimos, estávamos numa ditadura que durou 20 anos”, lamenta. Ao mesmo tempo, o quarteto participou de “muitas revoluções”, ocorridas a partir da segunda metade da década de 1960. Miltinho cita como exemplo a mudança nos costumes e a transformação da música brasileira.

“Somos pós-Bossa Nova. Bebemos a água desse rio maravilhoso. Com letras mais contundentes e que refletiam a realidade, fomos além da postura só contemplativa. Abriram-se outras possibilidades musicais”, observa, citando as guitarras de Lô Borges, Beto Guedes e Toninho Horta, “diferentes” das dos baianos e do rock.

A fama de grupo engajado rendeu outro problema ao quarteto. “Passamos a receber músicas extremamente políticas, mas horrorosas. Veio, então, a necessidade de tirar a capa que nos envolvia”, diz Miltinho. Essa mudança está expressa na caixa recém-lançada que reúne os discos 10 anos depois (1975), Canto dos homens (1976) e Vira virou (1980). O primeiro álbum recorda o início da carreira, enquanto o segundo fala de tempos sombrios no Brasil e o terceiro é mais leve, sem o peso de Canto dos homens.

Miltinho não esconde a apreensão com o atual momento político brasileiro e condena “o golpe jurídico-político”. “Estamos vivendo dias difíceis, de esperar pelo pior, com a esperança de que venham dias melhores. Houve deslizes do PT, fizeram coisas erradas, mas também muitas coisas boas foram realizadas”, argumenta. “Hoje, vemos que a arte é, naturalmente, social. Pode não mudar o mundo, mas chama a atenção para muitas coisas”, pondera Miltinho.

NOVA GERAÇÃO

 

O novo álbum traz 13 canções. Entre elas, Jornal de ontem, parceria do mineiro Sérgio Santos com Joyce Moreno, que acrescenta mais peças à obra de um grupo singular. Disco de tons líricos, fala da vida, de ser feliz e do Brasil. É bem-humorado – como se vê na faixa Ateu é tu, de Rafael Altério e Celso Viáfora – e também irônico, como mostra Brasileia, de Guinga e Thiago Amud. Leveza fina, elegante e madura, voltada para apresentar um ponto de vista sobre o mundo e sua diversidade.

Miltinho vai logo avisando: não tem distanciamento para analisar o novo CD. Diz que, como em outras vezes, o grupo caprichou em todos os aspectos – dos arranjos vocais à valorização de autores jovens e veteranos. A escolha do repertório se deu por voto dos integrantes, pontuando letras expressivas, atualidade de conteúdo e belas melodias.

“Estamos mais soltos, vemos a música com a serenidade que a idade traz”, observa Miltinho, recordando que, nos primeiros 15 anos, a turma adotou como opção preferencial as composições políticas. “Se é necessária a postura de defesa da justiça e da liberdade diante da vida, o que fizemos e continuamos a fazer, também é importante ter prazer, beleza no que se canta”, argumenta.

O repertório do CD foi escolhido a partir do pedido de canções aos amigos compositores e pelas redes sociais. Dezenas de músicas foram ouvidas. “Há produção farta, mas você tem que buscá-la”, observa Miltinho. O processo de seleção despertou nele a simpatia pelo mundo indie (apresentado, inclusive, pelo filho, também músico) e pela profusão de diversidade estética de propostas.

“Há garotos, uma geração nova de instrumentistas tocando maravilhosamente”, elogia. Miltinho saúda o conhecimento musical da moçada. “Na minha época, era ouvir disco na vitrola e tirar a música de orelha”, brinca. “Internet é uma sorte. O que está na mídia, particularmente na TV aberta, não nos representa. É muito ruim, especialmente no conteúdo”, critica.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE MÚSICA