Vanessa da Mata invoca os compositores que admira em show minimalista

Cantora diz que a carreira a levou a lugares onde correu o risco de perder as ''referências''

por Luiz Fernando Motta 19/04/2016 08:00

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KIKA DARSORA/DIVULGAÇÃO
(foto: KIKA DARSORA/DIVULGAÇÃO)
"Preferimos fazer uma coisa mais íntima. A gente tem que se dar um pouco mais e chegar mais perto do público sem aquela armadura toda.”


A frase é de Tom Jobim, no discurso que precedeu sua lendária apresentação somente ao piano no Palácio das Artes, em 1981. Após uma temporada de shows cantando as músicas do gigante bossa-novista, a quem se refere como “meu marido”, Vanessa da Mata demonstra confluência com as ideias do ídolo. A série de shows Delicadeza parte da ideia de criar intimidade com o público. Na apresentação de amanhã, no Minascentro, em Belo Horizonte, Vanessa estará acompanhada apenas pelo piano de Danilo Andrade e o violão de Maurício Pacheco. Para quem se acostuma a ouvir música e não se dá ao trabalho de saber quem a compôs, é bom deixar claro: Vanessa da Mata não é uma simples intérprete. Desde o começo da carreira, há 13 anos, a cantora se destaca como compositora das músicas que entoa. Desta vez, no entanto, a mato-grossense também emprestará sua voz a músicas de seus ídolos com um forte propósito: não deixá-los cair no esquecimento. Além de Jobim e de algumas músicas próprias, Vanessa canta Gonzaguinha, Marcelo Camelo e Padre Zezinho.


A cantora diz que o show intimista lembra as primeiras apresentações em São Paulo, há cerca de 15 anos. “É um show que me tira um pouco dos holofotes maiores. Tive alguns sucessos muito fortes. A carreira às vezes leva para uns lugares onde, se não tiver cuidado, perdemos referências da arte mais profunda, mais delicada”, diz. “Queria sair um pouco do que minha carreira pede que eu faça e fazer um pouco do que eu gostaria de fazer. É um show de dentro de casa, das músicas que sempre cantei, que me fizeram escrever. Talvez seja minha criança no palco, que era intérprete e não compositora”, afirma.

UBERLÂNDIA O show é um forte motivo para Vanessa revisitar suas memórias. A menina pobre de Alto Garças, no interior do Mato Grosso, lembra-se da insegurança no início da carreira, nos bares de Uberlândia, onde foi para estudar e depois da ida para São Paulo. O desafio de se lançar como compositora era enorme. “Na época, cantoras como Zélia Duncan e Cássia Eller se destacavam com vozes mais masculinas e nenhuma era tão autora assim. Não tinha ninguém com vestidão. Não tinha ninguém como foi a Rita Lee na geração anterior, por exemplo. Escrever uma coisa como A força que nunca seca era muito ousado”, avalia a cantora, referindo-se à sua composição, gravada por Maria Bethânia. “Nunca fiquei com diretor da Globo nem com dono de gravadora. Quando a Bethânia cantou minha música, ao mesmo tempo ainda não tinha nada.”
Hoje, a cantora demonstra orgulho da carreira e diz que a insegurança ficou para trás. “Olho pra minha carreira e sou muito feliz. É um caminho feminino muito único na música. Minha voz entrou num senso brasileiro feminino, que é o que Gal Costa e Bethânia faziam na década de 80. Minha essência é autoral.” Vanessa diz ainda que se alegra por transmitir coragem a mulheres que se identificam com sua imagem. “Trouxe isso de se assumir, de admitir as coisas. Meninas chegam para mim na rua para dizer que pararam de alisar o cabelo. Outras chegam para contar que escrevem.”


No entanto, Vanessa diz que a fama traz situações desagradáveis. “Era muito na minha, sempre tive muito medo de perder minha individualidade. Outro dia, fui a um restaurante e as pessoas se calaram na mesa ao lado para prestar atenção na minha conversa. Outra pessoa mais vaidosa acharia isso incrível, mas eu não. De repente, me senti numa cidade pequena e fofoqueira de novo.”

 

cinco perguntas para...

 

vanessa da mata
cantora

 

1 Você considera Maria Bethânia uma madrinha. Tem a preocupação de assumir esse papel de madrinha em relação a alguém? Tem olhado por novos compositores?
Vi outro dia uma menina, cantora de soul, que me chamou a atenção – Isabela Lins, do Rio de Janeiro. Tenho conversado com ela. Acho que ela vai traçar uma carreira muito bonita como compositora. Descobri o trabalho dela quando fui fazer um depoimento para um documentário sobre a Marina Lima. Na sala ao lado, estavam produzindo o trabalho dela. Gostei bastante, até me arrepiei. É bonito ver uma carreira nascer. Falei para ela ter cuidado com o monte de gente maluca que aparece no começo na carreira. No começo, há muitos empresários que mentem. Já falei isso tudo para ela: “Não vá com esse, vá com ele”.

2 Você se lançou como escritora com o livro Filha das flores, em 2013. Como foi a recepção a essa obra? Continua se dedicando à literatura?
Ultimamente, estou focada em escrever. Virá um novo livro por aí, mas o processo é muito sofrido. O outro livro demorou um ano e meio para ser feito. Acho que o processo até o lançamento desse novo trabalho deverá durar pelo menos mais um ano. Fiquei muito feliz com a recepção do primeiro livro. Foi elogiado por pessoas que entendem de literatura. É um livro que não tem vergonha de ser brasileiro. Tem muita poesia. Eu me senti muito vaidosa escrevendo. Mas acho que aquilo é uma grande letra, nada muito diferente. Lembro-me de quando  era pequena e ainda nem sabia ler. Pegava um livro de cabeça pra baixo, ia para a porta de casa e fingia que estava lendo.

3 E quanto a compor canções? Quando sairá o sucessor de Segue o som, de 2014?
Estou mais dedicada ao livro, mas também há um processo de composição em curso. Estou tendo umas ideais de músicas, ainda embrionárias, mas já vou vendo quais são seus potenciais. É uma coisa que nunca se para de fazer. No entanto, aquela ideia que eu tinha de lançar um disco a cada dois anos foi enfraquecendo.

4 Acha que passamos por uma crise de compositores?
Acho que isso é condizente com falta de educação escolar. A desvalorização do professor é gigantesca. As pessoas não compreendem mais. Não compreendem uma música, uma frase. Se veículos (de comunicação) não puxarem para coisas inteligentes, vão ser coniventes com a burrice das pessoas. A época da arte incide na capacidade intelectual das pessoas. Não se pode comparar o popular de hoje em dia com Roberto Carlos ou com o Guilherme Arantes, Odair José, até o sertanejo, com Tonico e Tinoco. Estamos muito aquém. Usar verbos infinitivos para rimar é uma coisa absurda, me incomoda. Passamos por uma crise mundial intelectual, conceitual, de compreensão de maturidade. É tudo uma crise. É o consumismo.

5 Recentemente, você saiu em defesa de Chico Buarque no episódio com manifestantes pró-impeachment no Leblon dizendo que “ninguém tem o direito de tirar satisfação de qualquer pessoa, pública ou não”. Você já sofreu com alguma situação semelhante? Como tem encarado esse tipo de comportamento?
Comigo nunca aconteceu, mas tenho visto que as pessoas estão desesperadas, porque não têm saída. É uma raiva guardada por muito tempo, junto a uma falta de saber sobre a política. É uma geração que não lê, infelizmente. Ou você está de um lado ou está do outro. Na minha cidade, que é pequena, irmãos brigam, irmãos se separam. Como se fosse mais íntimo do político do que do próprio irmão. Pessoas enlouqueceram dessa maneira. Sou muito desestimulada pela política. É um sistema completamente falido.
Não acredito mais nos valores dessas pessoas.

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