Último disco de Belchior foi gravado em Belo Horizonte, com Gilvan de Oliveira

Violonista mineiro fala do disco 'Um concerto a palo seco', de 1999, lembra da parceria de cinco anos na estrada e se dispõe a retomar turnê

por Eduardo Tristão Girão 17/04/2016 10:39

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Arquivo/EM
(foto: Arquivo/EM )
Ao iniciar seu processo de desaparecimento, quase dez anos atrás, Belchior deixou algumas pistas, foi visto raras vezes e praticamente não deu entrevista. O cantor e compositor cearense, que completará 70 anos em outubro, foi fotografado pela última vez em Porto Alegre, em 2012, já com a carreira totalmente interrompida. No quesito discografia, o panorama é ainda mais desolador: os últimos lançamentos são invariavelmente coletâneas. E a última vez que o artista entrou num estúdio foi justamente em Belo Horizonte. O ano era 1999.

O álbum em questão é 'Um concerto a palo seco', que gravou com o violonista mineiro Gilvan de Oliveira no estúdio Bemol. Inclui 12 faixas de Belchior, como Alucinação, Tudo outra vez, Medo de avião, Divina comédia humana e De primeira grandeza, todas arranjadas por Oliveira. Só voz e violões. Na época, ambos trabalhavam com o produtor cultural Jackson Martins, que os apresentou e assinou a produção executiva do disco, relançado em 2006 apenas com o nome Acústico e com duas faixas extras. “A ideia foi minha. Eu trabalhava com Belchior havia 14 anos e fizemos esse formato com vários instrumentistas. Com o Gilvan deu muito certo”, diz Martins.

“Belchior tinha acabado de gravar o disco Auto-retrato, com arranjos do Ruriá Duprat, e queria apresentar as canções como foram feitas, apenas ao violão. A canção nua, sem orquestra ou banda, preservando para o ouvinte a obra quase no estado puro. Os grandes momentos dos grandes artistas foram assim. João Gilberto fez isso, Baden Powell, Toquinho. Caetano e Gil voltaram a fazer isso também. Procurei ser sofisticado, mas sem interferir. Tem solos e até alguma influência espanhola, como em Galos, noites e quintais”, conta o violonista.

Inicialmente, era para ter sido um álbum apenas de Belchior, acrescenta ele, mas as performances de ambos não deixaram dúvida de que se tratava de um trabalho a ter a capa assinada pelos dois. “A voz dele ficou muito forte, presente. Tudo bem captado, um momento muito feliz. Na semana da gravação, a voz dele não deu nenhum problema. Ele não fazia nenhuma preparação, cantava a palo seco. Brincava que tinha voz de jegue, voz de homem, e não me lembro dele pedir nada de especial antes de gravar”, afirma.

REPERTÓRIO A escolha do repertório foi do próprio Belchior, e as gravações levaram menos de uma semana. Ficaram de fora três músicas: Ismália (poema do mineiro Alphonsus de Guimaraens musicado pelo cearense), Doce mistério da vida (versão de Alberto Ribeiro para a música de Victor Herbert) e Aparências (Márcio Greyck); as duas últimas são o bônus do relançamento de 2006. Nos intervalos, o clima era de camaradagem, revela Oliveira: “Eu, ele e o Dirceu Cheib, um dos donos do estúdio, fumávamos cachimbo e na hora das confabulações ficávamos cada um com sua ‘pipa’”.

A propósito, o violonista amplia o elogio: “Belchior era muito legal, gostava de bons vinhos, de sair à noite. Era quase vegetariano, só comia peixes e frutos do mar. Ele sempre foi muito sociável. Em toda cidade, tinha gente que o conhecia e ele dedicava tempo para conversar. Era impressionante a paciência dele em receber as pessoas após os shows, sem frescura. Recebia todos e não reclamava de assédio nesse sentido. Sempre foi muito tranquilo trabalhar com ele. Um parceiro de viagem, boa prosa, intelectual”.

Oliveira e o cantor viajaram juntos pelo Brasil para tocar durante cinco anos. Nessa época, Belchior andava às voltas com a tradução da Divina comédia, clássico de Dante Alighieri. “Viajava com uma mala de livros que pesava mais do que o nosso equipamento. Lia o tempo todo, todos os assuntos”, lembra. Talvez pelo grande conhecimento de literatura, teoriza, suas canções ainda sejam relevantes: “Músicas como A palo seco não têm idade. Os problemas são atuais e as abordagens, diferentes. Ao falar de política, por exemplo, não é panfletário”.

Belchior não fazia exigências em relação aos locais das apresentações ao lado do violonista. “Era o lugar que o produtor conseguisse, com boas condições de trabalho”, afirma. O mais importante para o artista, diz o mineiro, era magnetizar a plateia. Nas músicas em que o cantor não tocava violão, costumava ficar mais solto como intérprete, livre para pôr em prática seu mise-en-scène, que incluía se levantar da cadeira e dar chutes com seu sapato bicolor.

Leandro Couri/EM/D.A Press
(foto: Leandro Couri/EM/D.A Press )
DOIS VIOLÕES “Ele dizia que, já que íamos fazer um show só com dois violões, tínhamos de botar sangue, ter punch como se fôssemos uma banda. E acontecia. Na última música, o público estava enlouquecido e a gente também. Isso é a força da música acústica, que é a que menos envelhece. A eletrônica passa rápido. O som do piano é o mesmo há séculos e João Gilberto é outra prova disso”, observa. Isso não significava demonstrar virtuosismo no violão, uma vez que Belchior costumava dizer que tocava apenas o suficiente para escrever as próprias canções.

O mineiro conversou com o parceiro pela última vez há cerca de sete anos, pelo telefone (“Estava bem, não reclamou de nada”). Ele acredita que, talvez, o retiro do cearense se deva ao fato de ter concluído que sua contribuição à música brasileira tenha terminado. Ou não: “Talvez tenha cansado de viagem, quisesse ficar mais tempo com a mulher ou um tempo sabático. A gente cobra do artista que ele seja do jeito que a gente quer, que toque sempre, quer saber por onde andou, o que comeu, com quem dormiu. Isso beira a fofoca e incomoda”.

O problema, garante o violonista, não foi falta de inspiração: “Na época, ele me disse ter muita música inédita, mas que não queria fazer nenhum lançamento do tipo”. E aproveita para mandar um recado: “Se ele aparecer aqui, a música ainda está debaixo dos meus dedos. Tenho memória boa e dá para fazer igual a gente fazia”.

Impossível prever se esse reencontro acontecerá, mas o sentimento, para o mineiro, é de que valeu a pena: “Já era fã dele desde os anos 1970. Na virada no milênio, me tornei parceiro de andanças e gravação. Isso é muito legal, é estar perto da história”.

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