Com influências de jazz e erudito, quarto disco do grupo paulistano Projeto B empolga

Improviso e experimentação chamam a atenção no trabalho, que conta com 10 faixas. Arnaldo Antunes participa com sua poesia numa delas

por Kiko Ferreira 03/04/2016 17:03

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Claudio Manculi/Divulgação
O grupo paulistano projeto B (foto: Claudio Manculi/Divulgação)
Um dos melhores títulos de disco da música brasileira é Confusão urbana, suburbana e rural, de Paulo Moura. Tirando o rural e acrescentando um erudito, e ainda um jazz, poderia bem ser o nome do quarto CD do grupo paulistano Projeto B, Isso. Vindos de instigantes trabalhos dedicados a Villa-Lobos e Frank Zappa, os rapazes somam seus talentos num conjunto coeso de 10 faixas em que o termo contemporâneo parece pairar acima de tudo, como um pêndulo. Ou um metrônomo.


Pela formação e história de cada um, dá para imaginar de onde vêm as referências, os sotaques e as levadas. O guitarrista Yvo Ursini faz trilhas sonoras para televisão, teatro e cinema, tocou e toca com combos bem-sucedidos como o Axial, Dr. Morris e B. Grooves. É formado em música, bacharel em composição. O saxofonista Leonardo Muniz também estudou música, e esteve com os grupos Cardume, Armazem Abapuru e Manu Maltez. Maurício Pereira, Tulipa Ruiz e Skowa são/foram colegas de palco e disco de Amilcar Rodrigues, responsável pelo trompete e pelo flugelhorn. E Soul Legacy, Artur Verocai e Trio Canoa são alguns dos parceiros do baterista Maurício Caetano, que já andou por festivais de jazz na Europa, França e Bahia. Fechando o clube, o baixista Henrique Alves vem tocando com Arnaldo Antunes, Elza Soares, Benjor, Edgar Scandurra e Tom Zé.


Com doses corajosas de improviso e experimentação, Isso não deve ser ouvido como pano de fundo nem para trilhas para outras imagens que não as sugeridas pela trilha que mescla, além das informações citadas, cacoetes e levadas de rock progressivo, free jazz e música erudita. Para citar alguns álbuns que ficariam bem ao lado dele, vale lembrar o Slave mass de Hermeto Pascoal, o Go! de Stomu Yamashta, os primeiros do Mingus Dinasty pela ECM, o Free Jazz de Ornete Coleman, a caixa Shut up and play your guitar, de Frank Zappa.


O disco é instrumental, mas a faixa 339 tem letra e voz de Arnaldo Antunes, reproduzida num dos apêndices do encarte e sintonizado com o que há de mais desconcertante de sua poesia, com versos que vão além do epitelial (ou aquém?), cheios de referências a verruga, caroço, calombo acne, cicatriz, pólipo, farpa e outros volumes incômodos. Apesar de conter uma longa, climática e pouco ortodoxa Canção de ninar para Pedro, é um daqueles trabalhos que não deixam dormir quem se atreve a dedicar seu tempo à sua fruição.


Além dos temas próprios, gerados depois de 16 anos de trabalho em conjunto, o Projeto B oferece temas de três compositores eruditos contemporâneos Debussy (Des pas sur la neige, adaptado por Ursini), Alexander Mosolov (Zavod/Iron Foundry, também em versão do guitarrista) e Gyorgy Ligeti (Musica ricercata nº 7, adaptado por Leonardo Muniz Corrêa). Gravado em apenas três dias, em maio do ano passado, Isso oferece caminhos para muitas rimas, mas nunca com indiferença.



VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE MÚSICA