Parceiros de Naná Vasconcelos dão andamento ao material inédito que deixou

Morto em 9 de março, o percussionista pernambucano criou até seus últimos momentos de lucidez

por Luiza Maia 27/03/2016 09:33

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João Rogério Filho/Divulgação
Enquanto teve saúde, Naná desenvolveu novas ideias. Chegou a comandar os ensaios de rua para a abertura do carnaval do Recife (foto: João Rogério Filho/Divulgação )
A despedida de Naná Vasconcelos foi embalada pela música. Um processo emocionante e intenso de criação, baseado em gestos e na cumplicidade artística estabelecida ao longo de anos com o maestro Gil Jardim e o compositor Egberto Gismonti, com o qual dividiria uma turnê pela Ásia a partir de abril, e testemunhado pelos amigos e familiares mais próximos no quarto do hospital onde viveu os últimos dias até morrer em 9 de março, aos 71 anos. Aos amigos e parceiros musicais coube a responsabilidade de concluir as duas últimas composições do mais renomado percussionista pernambucano. O projeto deve ser gravado com orquestra, em consonância com o desejo de Naná, reunindo Amém, amem (com Gil Jardim), O budista afrobudista (com Egberto), uma trilha inédita composta em parceria com Jardim para o filme Tentação de São Sebastião (com cerca de 8 minutos e escrita para um pequeno grupo, com kalimba, piano, marimba, contrabaixo, quatro cellos, duas flautas e percussão) e a música Respire fundo e diga 33 (composta para um espetáculo do grupo Dança Vida, da cidade paulista de Ribeirão Preto, e já gravada). %u201CEle já não podia falar, mas gesticulava. Tinha horas em que ele não se aguentava, puxava a máscara (de respiração) e falava. No momento de dor, ele mostrava uma grandeza, uma leveza que os médicos se espantavam. Ele estava com esperança, estava compondo. A cabeça dele não parava%u201D, conta Patrícia, viúva e empresária. Além de música, a despedida foi conduzida por diálogos engraçados e piadas, traço marcante da personalidade do artista. Inquieto, ele exigiu pressa do maestro Gil Jardim para a composição de Amém, amem, título inspirado em um dos dizeres auspiciosos dele. As ideias da música de caráter sacro, com orquestra de cordas e tambores, estavam registradas em um gravador e foram mostradas a Gil Jardim no hospital. %u201CNo domingo, ele ainda estava superesperto, com uma vontade de trabalhar. Ele queria que eu anotasse as ideias. Na segunda, passamos quase três horas trabalhando. Fui escrevendo e anotando, fazendo a partitura. Depois, eu mostrava o que tinha escrito e ele corrigia%u201D, lembra, bastante emocionado, na primeira entrevista concedida desde a partida do amigo. %u201CMeu compadre querido me passou uma lição de casa. %u2018Passa três vezes o tema inteiro. Depois, você cria um interlúdio. Na segunda, faça variações harmônicas. Na terceira, rítmicas.%u2019 Ele é assim, vai sugerindo coisas%u201D, explica. Gil Jardim planejava dois projetos com Naná para 2016: uma trilha sonora para um espetáculo de dança em homenagem a Pierre Verger e uma retomada do show da Orquestra de Câmara da USP, regida por ele, e o cantor e compositor recifense Lenine, com participação do amigo, em outubro. A tarefa de Egberto é mais árdua, pois ainda não foram localizadas as gravações que Naná teria feito de O budista afrobudista, inspirada no título de uma matéria escrita por um jornal argentino. %u201CQuando cheguei, ele já não podia se expressar com facilidade, a voz falhava totalmente. Certamente, em algum momento, Naná registrou essas ideias. Eu daria tudo para ter acesso ao que ele deixou. Ele tinha me falado da ideia, por telefone. %u2018Você tem que escrever isso aí%u2019. Infelizmente, o destino fez com que as coisas se confundissem um pouco%u201D, confessa o carioca.
SESC / Divulgação
Naná Vasconcelos, Zeca Baleiro e Paulo Lepetit gravaram no ano passado o álbum Café no bule (foto: SESC / Divulgação)
Força, simplicidade e leveza guiaram a vida do percussionista pernambucano, inclusive no último ano, após a doença. Substituía a agressividade do câncer e a invasão do tratamento por brincadeiras. Uma vez, quando foi tomar vacina em um posto de saúde, começou a gritar, como se sentisse dor, atraiu todas as atenções e caiu na gargalhada. Noutra, era conduzido pelos corredores hospitalares na cadeira de rodas e imitava o barulho de buzinas para pedir licença. Desde a descoberta do câncer no pulmão, em agosto do ano passado, não deixou de compor. Na primeira internação, pediu um caderno e chegou a anunciar uma biografia, mas o projeto não chegou a ser consumado. %u201CNão acho que tem tanta coisa escrita. Naná era mais de fazer do que escrever. Pode ser que eu me surpreenda, porque, como ele era muito monossilábico, gostava de fazer silêncio sobre as coisas dele. Até brinquei, pois, depois da doença, ele começou a contar muitas histórias engraçadas%u201D, recorda Patrícia. Ela vai se mudar para os Estados Unidos, onde o percussionista morou 27 anos, para acompanhar a filha Luz Morena, de 16 anos, durante a faculdade de moda. Atualmente em Nova York, para concluir trâmites burocráticos, ela promete esforço para o lançamento do disco inédito e já recebeu até propostas para um museu, nos Estados Unidos. Tirando satisfação foi o primeiro título pensado para o projeto musical de Naná Vasconcelos, Zeca Baleiro e Paulo Lepetit. Quando lançado, no ano passado, o álbum foi batizado de Café no bule, mas o prazer do processo de composição foi reforçado em entrevistas reiteradamente pelo trio. A estreia nos palcos do projeto, com sonoridade permeada por referências de vários ritmos, como jazz, afoxé, samba e maracatu, marcada para 29 de agosto, em São Paulo, enfrentou o desfalque do percussionista. Na semana anterior, ele fora internado e descobrira o câncer. %u201CEle é rápido, então você tinha que deixar tudo pronto. %u2018Agora vou fazer, mudar para lá%u2019. Em poucos minutos, já estava tudo armado%u201D, narra Lepetit. Todas as 13 faixas %u2013 várias delas com letras assinadas por Naná, algo não tão comum na discografia dele %u2013 foram compostas durante encontros no estúdio mantido por Lepetit e Zeca, em São Paulo, e através de ligações, mensagens e e-mails, ao longo de um ano. Todas as reuniões musicais foram gravadas. O material audiovisual seria completado pela gravação das apresentações ao vivo, abruptamente canceladas pela doença e morte do pernambucano. %u201CA gente está muito frustrado de não ter conseguido levar para o palco, mas perdeu o sentido. A coisa era o encontro dos três. Nem chegamos a conversar sobre isso, mas, naturalmente, acho que cada um vai partir para outra coisa%u201D, lamenta Lepetit. Não há músicas inéditas. A proposta era criar 10 faixas, mas eles acabaram por inserir três vinhetas, ideia de Naná explicada como %u201Cum gole d%u2019água ou vinho entre uma garfada e outra%u201D %u2013 aliás, o processo de criação delas deve ser redescoberto nos vídeos. O material bruto, com mais de 15 horas, de acordo com o diretor Matthieu Rougé, será visto pelo grupo nos próximos dias, mas uma provinha, composta por cinco vídeos sobre músicas, já está no ar. BARBATUQUES O show deveria ter a participação de Naná, mas virou bela homenagem musical ao mestre. O grupo paulista Barbatuques dividiria pela primeira vez os palcos com o pernambucano em12 e 13 de março, em São Paulo, três dias após a morte dele, para a apresentar o disco Ayú, com participação dele em duas faixas: Tá na roda, de Naná e Vinicius Cantuária, e Quererê, do Barbatuques, com uma pegada de maracatu ao final da execução. Hermeto Pascoal também foi convidado. As gravações, na capital paulista, renderam dois vídeos, ambos disponíveis no YouTube: um sobre o processo de criação, do convite às gravações, e outro fruto de uma entrevista sobre a carreira de Naná, o Barbatuques, música e influências africanas, europeias e da produção cultural mundial, exibido pela primeira vez no show em São Paulo e liberado na internet. %u201CEle é, acima de tudo, um ser humano especial, generoso. Hoje, isso é de glorificar. Musicalmente, não tem o que falar. É referência mundial de um jeito de tocar percussão. Não é qualquer pessoa que toca com a diversidade de artistas que ele tocou, ganha a quantidade de prêmios que ele ganhou. Só tenho a agradecer%u201D, destaca André Hosoi, um dos integrantes. Os membros do Barbatuques conheceram Naná nos bastidores do programa televisivo Altas horas, apresentado por Serginho Groisman. Eles tocaram juntos Tá na roda, selecionada para o repertório de Ayú, 10 anos depois, com uma percussão vocal feita pelo pernambucano. Naná é uma das referências musicais do Barbatuques, especialmente pela arte de extrair sons do corpo. %u201CEle foi um dos primeiros a usar o corpo como instrumento no Brasil de forma intencional. Incorporou isso como assinatura. A voz, o peito faziam parte da música tanto quanto o berimbau%u201D, exalta Hosoi, que ouviu pela primeira vez Naná em parceria com o norte-americano Pat Metheny. COM YAMANDÚ Dois dos maiores instrumentistas do país, Yamandú Costa e Naná Vasconcelos tocaram juntos várias vezes. O último encontro sobre os palcos foi em 27 de janeiro, quando encerraram a programação da 34ª Oficina de Música, em Curitiba, pouco após a segunda internação do percussionista pernambucano para o tratamento do câncer. A apresentação foi gravada pela produção. %u201CTocar com ele era uma maravilha, uma coisa incrível. A energia dele era única, especial. Ele tinha uma calma no palco, uma serenidade e um comando de cena incrível. Naná improvisava muito, tinha o tema e saía tocando. Tinha um ritmo de palco muito único, sem fazer muita piada. Era um cara extremamente focado na mensagem que queria passar%u201D, recorda o amigo. Outro registro permanece inédito. Em 2008, eles cumpriram temporada no Teatro Fecap, em São Paulo, e gravaram um CD ao vivo. %u201CÉ um material supervalioso, tem muitas coisas legais, inéditas. Não tenho ideia se vai ser lançado e também não quero forçar nada%u201D, comenta Yamandú sobre o material, de cerca de uma hora e meia. Uma das músicas, Pandeirada, foi feita por Yamandú para Naná e é executada pela dupla. Uma inédita do pernambucano, Maracatu dos Andes, também está no repertório, além de É doce morrer no mar, de Dorival Caymmi, e Boi bumbá, de Valdemar Henrique, entre outras.

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