Cancioneiro de Zé Ramalho ganha releitura de Zeca Baleiro, que dribla obviedades e destaca pérolas

No DVD, a direção de fotografia valoriza as interpretações

por Kiko Ferreira 24/08/2015 08:00

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RAMA DE OLIVEIRA/DIVULGAÇÃO
No CD, o cantor Zeca Baleiro resgatou músicas esquecidas, como 'Um pequeno xote' e 'Desejo de mouro' (foto: RAMA DE OLIVEIRA/DIVULGAÇÃO)
Dois Zés cantam temas populares com dicção própria e originalidade. De um lado, José Ramalho Neto, que, além de compositor de criatividade difícil de questionar, “exerceu” plenamente, em 35 anos de carreira, ídolos e amigos como Bob Dylan, Beatles, Fagner, Jackson do Pandeiro, Gonzagão e Raul Seixas. Do outro, quase 17 anos mais jovem, José de Ribamar Coelho Santos, o Zeca Baleiro, criador de sotaque próprio, fez o mesmo com Sérgio Sampaio, Raulzito, Vander Lee, Fagner e Martinho da Vila. 'Chão de giz – Zeca Baleiro canta Zé Ramalho' (CD e DVD/Som Livre) registra o espetáculo criado em 2013 para o projeto Banco do Brasil Covers, a convite da curadora Monique Gardenberg, cineasta, que dirigiu a gravação em vídeo.


Baleiro, que vê semelhanças entre as obras dos dois – evidente em canções como 'A peleja do diabo com o dono do céu' e 'Heavy metal do senhor' –, fez uma pesquisa afetuosa sobre a discografia de Ramalho. Chegou a uma seleção que não cheira a greatest hits, equilibrando bem temas manjados (e devidamente recriados) com preciosidades “lado B”. Procurou dosar gosto pessoal “com fatores como a importância histórica e o alcance popular das canções, bem como o perigo da redundância”, conforme explica no texto de apresentação do projeto. Assim como fez com a obra de  Fagner, Zeca Baleiro conseguiu tornar mais digestivas (embora não menos contundentes) canções de Ramalho que muitos não se permitem gostar por não apreciar arroubos vocais de seu criador. Aqui, nada soa a pastiche ou imitação de vida e obra.

AVÔHAI Dos clássicos mais evidentes de Ramalho, há versões inspiradas de 'Ave de prata', 'A terceira lâmina', 'A dança das borboletas', 'Garoto de aluguel', 'Vila do sossego', 'Eternas ondas', 'Táxi lunar', 'Admirável gado novo' e 'Avôhai', além de 'Frevo mulher', 'Bicho de sete cabeças' e 'Pelo vinho e pelo pão' (essas três só no DVD). No terreno das (re)descobertas, parecem ter sido escritas pelo próprio Zeca 'O rei do rock', 'Um pequeno xote', 'Desejo de mouro' e 'Não existe molhado igual ao pranto'.


Gravado em maio de 2014 no Teatro Castro Alves, em Salvador, o DVD valoriza as interpretações com direção e fotografia elegantes, tornando delicado e sutil o que originalmente era messiânico e ostensivo. E ainda ficaram registrados o clipe cult de 'Garoto de aluguel' e as projeções de 'Powaqqatsi' (o delírio visual de Godffrey Reggio) e de 'Ivan, o terrível' (filme de Eisenstein), duas referências mais evidentes do trabalho, que Monique compara a seu registro de 'Un caballero de fina estampa', de Caetano Veloso, também gravado com segurança e poesia.

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