60 anos sem Carmen Miranda: O legado da eterna 'Pequena Notável'

Símbolo artístico pioneiro do Brasil no exterior, cantora saía de cena há seis décadas

por Fellipe Torres 05/08/2015 12:12

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Reprodução da internet/DoctorMacro.com
(foto: Reprodução da internet/DoctorMacro.com)
Um bom prato de sopa e liberdade para cantar. No auge da carreira, essa era a representação da felicidade para a cantora Maria do Carmo Miranda da Cunha (1909-1955). Considerada a artista brasileira com maior projeção internacional da história, a Pequena Notável (apelido derivado dos seus 1,52m de altura) chegou a ser a mulher mais bem paga do showbusiness norte-americano (em 1944, recebeu o equivalente a R$ 9 milhões, em valores atualizados). Nesta quarta-feira , quando completa 60 anos a morte de Carmen Miranda, a figura mítica da baixinha de olhos verdes permanece entranhada na cultura e no imaginário popular dos EUA. No Brasil, país onde a portuguesa de nascença chegou com menos de um ano de idade, apenas uma minoria conhece a história por trás da mulher de vestes extravagantes e frutas na cabeça, como o traje de baiana a eternizou na memória coletiva.

De origem humilde, a segunda das seis filhas do barbeiro José Maria Pinto cresceu num Rio de Janeiro cuja população era estimada em 1 milhão de habitantes, sendo 200 mil deles portugueses natos. Habilidosa na costura e rápida no aprendizado de novos idiomas, foi moldada pela malandragem e boemia do bairro da Lapa. Desde jovem sonhava ser atriz ou cantora, numa época anterior à Era de Ouro do rádio. Em fins dos anos 1920, o veículo tomava forma, enquanto o cinema deixava de ser mudo. A partir da primeira gravação de Carmen, em 1929, o sucesso veio quase instantaneamente.

No ano seguinte, com 'Pra você gostar de mim (Taí)', venderia 35 mil discos, o equivalente a 3 milhões e meio de hoje, segundo o biógrafo Ruy Castro. A década começava com a legitimação do samba e das marchinhas de Carnaval enquanto ritmos populares. Estrelou o primeiro dos mais de 20 filmes da carreira, 'O carnaval cantado' (1932), dirigido por Adhemar Gonzaga. Logo se tornou a artista mais bem paga do país.

O ano de 1939 foi um divisor de águas por vários motivos. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Carmen Miranda vestiu pela primeira vez o traje com o qual seria eternamente lembrada, inspirada nas vendedoras de frutas da Bahia. Com ajuda do governo de Getúlio Vargas, interessado em investir na imagem do país no exterior, a cantora se mudou para os EUA, onde se tornou fenômeno de cultura de massa. “Meus queridos amigos, sigo para Nova York, onde vou apresentar a música da nossa terra. Às vezes tenho medo da responsabilidade. Lembrem-se de mim que eu nunca os esquecerei”, pronunciou, antes de embarcar. 

Foi bem recebida no exterior. Subitamente, estava na tevê, no rádio, estrelando espetáculos na Broadway e filmes em Hollywood. Era a “brazilian bombshell” (“bomba brasileira”). Segundo a pesquisadora da PUC-RS Eliane Raslan, a participação de Carmen Miranda no cinema, particularmente, tinha papel catártico: “Enquanto a população norte-americana ia assisti-la para esquecer da guerra, os brasileiros se sentiam aceitos (ou reconhecidos) diante da representante nacional no cinema estrangeiro”.

Em depoimento ao documentário 'Bananas is my business' (1995), de Helena Solberg, o músico Aloysio Oliveira descreve a sensação da cantora diante  dos norte-americanos. “Ela não entendia o que acontecia, porque gostavam muito, mesmo sem entender o que ela cantava. Mas não era a música que os impressionava. Eram fascinados por ela. Eu ficava olhando para o rosto do público e os olhos de todo mundo ficavam grudados nela, como se estivessem hipnotizados. É como se ela tivesse outra dimensão”.

Com a aproximação do fim da Segunda Guerra Mundial, a carreira dela se encaminhava para um desfecho. Por causa do ritmo frenético de shows, consumia cada vez mais remédios para dormir e estimulantes para acordar. Em 1954, voltou ao Brasil sob forte depressão, onde passou quatro meses antes de retornar aos EUA. Em agosto do ano seguinte, após participar de programa de tevê, morreu em casa, vítima de colapso cardíaco. “É difícil compará-la com qualquer outro artista, porque teve sucesso extraordinário tanto no Brasil quanto no exterior. Um ícone. A imagem com as frutas na cabeça se tornou parte da cultura dos EUA. No Brasil, há o problema da memória curta. Existe uma geração que conhece a imagem, mas desconhece a história de Carmen”, pontua Helena.



ENTREVISTA >> Helena Solberg, cineasta
Há algum artista contemporâneo comparável a Carmen Miranda?
É difícil encontrar alguém nos dias de hoje comparável a Carmen. Em relação aos brasileiros, talvez Tom Jobim tenha se tornado tão internacional quanto... Em outra ocasião, fiz referência a Elvis Presley pelo fato de ele ser uma pessoa branca que começou a tocar uma música de negros. Essa foi uma transição muito bem feita por Carmen, em relação ao samba. Ela foi muito rejeitada pela elite brasileira da época, porque o samba era coisa do povo, não era nenhuma produção acadêmica ou clássica. Ironicamente, além de ser branca de olhos verdes, ela era europeia. O racismo existia e se manifestava de outras formas, como a tentativa de tirar os negros da banda. Isso eles conseguiram. Quando Carmen chega aos Estados Unidos, também sente isso. Em certa ocasião, o compositor Synval Silva foi para Los Angeles encontrá-la e, quando andava ao lado dela, no carro, as pessoas a paravam para perguntar se estava tudo bem.

O quanto do sucesso de Carmen pode ser atribuído ao contexto em que ela viveu?
É uma congruência de fatores. Realmente o momento histórico pesa muito, o fato de Getúlio Vargas ter visto na figura dela uma possibilidade de trabalhar a imagem do país de uma maneira atraente. Você a vê participar em feiras internacionais posando ao lado do café, um produto que estava sendo vendido ali...

Duas décadas depois de lançar o documentário biográfico, alguma coisa mudou na maneira como você percebe a figura de Carmen Miranda?
Continuo achando ela fascinante, com essa coisa meio kistch. Cada vez ela se reinventa, vai ficando mais interessante, mais inesperada. Tem algo nela que eu já tinha “sacado”, mas que continua muito viva. Vai se transformando.

Divulgação
(foto: Divulgação)


BRASIL PÓS-CARMEN >>>> 
Carmen Miranda inaugurou a figura do “cicerone” brasileiro no exterior. Segundo o pesquisador pernambucano Thiago Soares, coordenador do Grupo de Pesquisa em Mídia, Entretenimento e Cultura da UFPB, a indústria pop precisa desses artistas para representar o país. Por isso, cada momento histórico tem o seu cicerone, e um elemento comum a eles são as críticas recebidas. “A intelectualidade nunca quer se enxergar nos seus discursos de prazer, de sexualidade. Prefere trazer um tipo de representação mais racional, mas o mundo não gira em torno do que os intelectuais pensam”. 
 
NA ORLA DE COPACABANA
Com João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, a bossa nova tornou-se dos movimentos mais influentes da história da música popular brasileira, conhecido em todo o mundo. “É o nosso jazz, um tipo de música ligada a uma ideia de Brasil, de praia, sensualidade. Enquanto o samba representa a periferia, a bossa nova é a música da intelectualidade, das elites, de um Rio de Janeiro Branco”, diz Thiago Soares.

LENÇO NEM DOCUMENTO
Na década de 1960, a Tropicália surge forte com Caetano Veloso e companhia. Assim como a bossa, revisita Carmen em espécie de antropofagismo. Ao The New York Times, ele afirmou, em 1991: "A canção-manifesto Tropicália, homônima da obra de Oiticica, termina com o brado 'Carmen Miranda da-da dada'. Tínhamos descoberto que ela era nossa caricatura e radiografia. Típica menina do Rio, nascida em Portugal , usando estilização espalhafatosamente vulgar, mas conquista o mundo e chega a ser a mulher mais bem paga dos EUA”

FAVELA POP
Carioca de origem humilde, Seu Jorge passa a ganhar visibilidade no Brasil e no exterior, sobretudo a partir dos anos 2000. Assim como Carmen, surgiu no contexto da “política de boa vizinhança” da Segunda Guerra Mundial, ele veio no momento de Cidade de Deus para representar uma “favela pop”, a negritude brasileira. “A favela é espécie de Gangues de Nova York, um Bronx (bairro dos EUA) periférico”, analisa Thiago Soares.

AI SE EU TE PEGO 
Em 2011, a Forbes comparou Michel Teló a Carmen, e o apontou como primeiro ícone brasileiro após a Pequena. Ele emplacou nas listas de músicas mais ouvidas de vários países. “Reclamaram por ele ser sertanejo, por não ser de raiz. É urbano, loiro, faz música com conotação de sacanagem. Representa um Brasil que não passa pelo Rio, não tem coqueiro, mas é agrário, do Centro-Oeste. As críticas são parecidas com as recebidas por Carmen, que não era hegemônica, mas nem por isso deixou de ser um ícone brasileiro”.
 
PARA LER   
Carmen – uma biografia, de Ruy Castro
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 632
Preço: R$ 71

O “it” verde e amarelo de Carmen Miranda, de Tânia da Costa
Editora: Fapesp
Páginas: R$ 49,45
Preço: R$ 49,50
 
PARA OUVIR  
Carmen Miranda 100 anos – duetos e outras Carmens
(CD duplo)
Gravadora: Sony
Preço: R$ 32,90



DEPOIMENTOS >>>>
"Nenhum brasileiro de bom senso pode ignorar o muito que Carmen Miranda fez pelo Brasil lá fora, transportando este país na sua bagagem, ensinando a povos, que jamais haviam tomado conhecimento de nossa existência, a cantar as nossas músicas e a adorar o nosso ritmo. Carmen Miranda será sempre uma dívida irresgatável." 
Heitor Villa-Lobos, compositor, em 1952

"É uma honra para mim como baiana, como mulher, poder cantar e homenagear Carmen Miranda, uma artista que levaram o nome da Bahia para o mundo e sempre foi fonte de inspiração para o meu trabalho”.
Daniela Mercury, cantora, em 2009

"Hoje está tudo muito diluído (sobre a influência de Carmen nas cantoras brasileiras atuais). Ela era um charme sem igual. Nunca houve cantora e intérprete como ela e com charme maior do que o dela. Mas acho que Ney Matogrosso é uma Carmen Miranda"
Sérgio Cabral, pesquisador 

"Carmen teve um estilo próprio de apresentação e de cantar. Elegante, brejeira e muito sensual, criou um estilo muito copiado por outros artistas".
César Balbi, diretor do Museu Carmen Miranda

"Samuel Johnson dizia que o nacionalismo é o único refúgio dos canalhas. Ela foi uma vítima desse tipo de mentalidade, você sente um patrulhamento ideológico. Ela tinha de se posicionar e devia estar de saco cheio de cantar o Brasil. Quis cantar tango, mas não podia. Ela tinha de fazer um acarajé por dia para provar sua brasilidade."
José Antônio Nonato de Barros, pesquisador

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