Com 45 anos de carreira, Chitãozinho & Xororó valorizam o sertanejo de raiz

O novo álbum da dupla contém regravações de músicas de Tom Jobim

por Adriana Izel 10/02/2015 10:58

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Junior Lima/Divulgação
(foto: Junior Lima/Divulgação)
Se hoje o sertanejo é um dos gêneros mais consumidos no Brasil, é porque, há 45 anos, a dupla Chitãozinho & Xororó surgiu no mundo da música com o disco 'Galopeira'. O sucesso mesmo veio alguns anos depois, com 'Fio de cabelo', do álbum 'Somos apaixonados' (1982). Desde então, os irmãos Lima, do cabelo mullet e de 'Evidências', abriram portas para o ritmo caipira se tornar cada vez mais popular.


Na última semana, os cantores lançaram o álbum 'Tom do sertão', que traz regravações de músicas do repertório do maestro e compositor Tom Jobim. Para chegar às 14 faixas gravadas no CD, a dupla contou com a ajuda dos produtores Edgar Poças, Ney Marques e Cláudio Paladini. O quinteto escolheu as canções mais românticas e rurais de Tom, inclusive, as menos conhecidas. “Desta vez, fizemos o novo buscando o antigo. Trazendo a obra do Tom para o sertanejo”, explica Xororó.


Durante um bate-papo descontraído no estúdio em que gravaram o mais novo CD, em São Paulo, Chitãozinho & Xororó falaram sobre o mercado sertanejo, a estreia na Broadway e o desafio de revisitar Tom Jobim, antes cantado por artistas da MPB e da bossa nova.

 

Quando vocês começaram a carreira, usavam o cabelo mullet, que era um marco dos roqueiros, e também foram os primeiros sertanejos a inserir as violas elétricas. Vocês tiveram uma referência do rock no início da música caipira?
Xororó: Sempre tivemos. Dos Beatles, principalmente. A música para a gente nunca teve uma coisa de curtirmos um estilo só. A gente ouvia de Neil Diamond a Tonico & Tinoco; de Roberto Carlos a Tião Carreiro & Pardinho. Depois, a gente teve uma influência do country norte-americano. Quando viajamos para fora, veio aquela representação (do mullet) e, na época, a nossa música era conhecida nas nossas vozes, porém, a imagem ainda não. Aquele visual se tornou sucesso no Brasil todo, uma mania nacional. Tudo isso foi importante para chegarmos aonde chegamos.

Com 45 anos de carreira, vocês viveram o auge da indústria fonográfica. O que fizeram para tentar passar por esse período considerado turbulento?
Xororó: Acho que com novos projetos. Na comemoração dos 40 anos, por exemplo, fizemos três discos especiais, entre eles, o sinfônico, que vendeu muito bem e o público gostou. Estamos muito otimistas com o projeto 'Tom do sertão'. Achamos que vai dar um resultado satisfatório em vendas. Mas a gente faz música porque gosta, não porque vende. A intenção é mostrar para o nosso público e fazê-lo sentir o que a gente sentiu.

No ano passado, o sertanejo ficou novamente entre as músicas mais tocadas e teve os CDs mais vendidos. Como vocês avaliam esse novo boom no mercado?
Chitãozinho: A gente enxerga com muita alegria e, ainda maior, de estarmos participando de tudo isso. Nós estamos integrados com essa nova geração. Eles nos respeitam muito e viramos referência dessa nova galera. Para nós, é muito prazeroso poder estar na estrada, conviver com eles e saber que a música sertaneja é muito bem representada, por isso está entre as tops do país.

Em uma entrevista recente, Nelson Motta falou que o sertanejo hoje era “um zero absoluto em harmonia, melodia e composição”. Vocês concordam?
Xororó: O Nelson Motta, na época, veio nos pedir desculpas. Ele falou de uma forma generalizada. O Lulu Santos também fez algumas declarações desse tipo e chegou a falar com a gente. Quando se envelhece, dá para arriscar mais. Por isso, temos gravado tantos projetos elaborados e demorados, como 'Tom do sertão' e o 'DVD sinfônico'. Sei que não é possível para qualquer artista se dar ao prazer de criar com a calma.

Vocês tocarão na Broadway, em Nova York, em 21 de fevereiro. Como surgiu o convite?
Chitãozinho: Foi de um empresário amigo nosso, que teve essa vontade de fazer, e ele conhece muito bem Nova York. A gente topou para mostrar que existe uma música sertaneja brasileira que é muito bem tratada.
Xororó: É comum os artistas cantarem em outros países, mas os palcos não são os que a gente está acostumado a tocar no Brasil. Fazia muito tempo que a gente não ia por isso, não queríamos cantar em qualquer palco, e aqui fazemos shows superproduzidos. Falando com o Marconi Maia, ele sugeriu que fizemos na Broadway. Ele foi atrás e nos deu o retorno já com o teatro e o dia. Vamos começar o ano fazendo esse show que vai dar muita alegria, porque a expectativa está muito grande. A gente espera que não sejamos apenas os primeiros e os únicos, queremos que a Broadway se torne o palco dos sertanejos.

Em 'Do tamanho do nosso amor' (2013), vocês trabalharam com  o Fernando, da dupla Fernando & Sorocaba, para fazer um som mais pop. Desta vez, em 'Tom do sertão', pode-se dizer que vocês fizeram o caminho inverso?
Chitãozinho: Quando a gente começou o repertório e a desenhar o disco, a gente não sabia que ia ficar tão sertanejo. Ele foi se revelando. Acho que, pelo fato de se chamar 'Tom do sertão', a gente foi atrás das músicas mais adequadas para serem cantadas por uma dupla sertaneja.
Xororó: Depois que cantamos as 14 faixas é que sentimos que estávamos fazendo o disco mais sertanejo da nossa história. Porque é muito comum a gente gravar uma música de viola nos nossos discos pois essa é a nossa preocupação sempre, nunca deixar a nossa música perder a verdadeira identidade, mas são duas ou três num CD só. O restante são músicas mais pop, balada, rock e com a mescla do que a gente faz nesses anos todos. Esse repertório, particularmente, é o nosso CD mais sertanejo da carreira.

É importante trazer um resgate do sertanejo mais caipira depois que o gênero passou por tantas mudanças?
Chitãozinho: O sertanejo vive um momento muito bom dentro do mercado. Você vê que é a música mais ouvida e a mais consumida. Os grandes espetáculos são feitos por duplas sertanejas, então, é um momento bacana de fazer um resgate para a juventude e o público atual.
Xororó: As duplas sertanejas de hoje, os chamados universitários, cantam modão e o público gosta muito dessa música que era feita por Tião Carreiro & Pardinho e Tonico & Tinoco. Esse disco vai mostrar para esse público que está consumindo a música sertaneja de hoje que existe música caipira dentro do universo do Tom Jobim, na sonoridade, na maneira de falar da natureza, mas de uma forma diferente, muito mais bem elaborada com mais poesia ainda do que já existe dentro da música sertaneja.

Por que gravar um disco com músicas de Tom Jobim?
Chitãozinho: Porque a obra dele é simplesmente maravilhosa. Acho que é um desafio muito grande trazer o Tom Jobim para essa linguagem mais sertaneja e mais caipira. Essa é a proposta do projeto: mostrar um Tom que a gente não conhece. Já o ouvimos em vários idiomas e ritmos, mas sertanejo ninguém tinha feito. O desafio foi muito bom, porque, ao longo do desenvolvimento, descobrimos que ele era mais rural do que a gente pensava. Ele tinha muito da coisa da música sertaneja de viola e da natureza. Na melodia, tivemos várias surpresas muito agradáveis, e o disco se tornou sertanejo acima de tudo.
Xororó: Porque a gente sempre quer fazer alguma coisa diferente e estar se reinventando. Desta vez, fizemos o novo buscando o antigo. Trazendo a obra do Tom para o sertanejo

O repertório traz músicas mais clássicas, como 'Águas de março', mas também tem faixas consideradas “lado b”. Como foi a escolha das canções que entrariam no disco?

Chitãozinho: São músicas que se identificam com a linguagem rural e sertaneja tanto na letra quanto na melodia. Então, as canções cresceram. A gente tinha a impressão de que ele escrevia música sertaneja, mas, não tinha um artista adequado para cantar do jeito que ele estava escrevendo. Aí, a música cantada em MPB e em bossa nova se tornava mais urbana. Mas a essência do que ele estava compondo era uma coisa sertaneja.

Dá para perceber também que vocês tiveram muito cuidado na questão do arranjo e da melodia. Como foi esse processo de mudar a roupagem das faixas?
Chitãozinho: Foi algo demorado e de muito respeito ao original. O Xororó sempre fala isso que é muito importante entrar no universo do Tom e trazê-lo para o nosso sem descaracterizar. Então houve um cuidado muito grande. Ali tem a característica da dupla e do Tom. Foram alguns meses de estudo do tipo de som que a gente ia chegar, então, entre a ideia de iniciar o projeto e a de lançar demorou um ano para ser feito.
Xororó: A conversa, inicialmente, foi essa. Falamos para os produtores Edgar Poças, Ney Marques e Cláudio Paladini que a nossa vontade era trazer o máximo que a gente pudesse, mas sem descaracterizar e respeitando muito a harmonia. Em cada acorde e cada arranjo, procuramos respeitar e trazer para o nosso universo utilizando os instrumentos típicos da música sertaneja, que é a viola caipira e o acordeon, mas dentro do universo do Tom Jobim.

Qual música foi mais especial para cada um de vocês?
Chitãozinho: O Xororó gosta muito do Chovendo na roseira, que é uma música que ele fez questão de colocar, porque ele já gostava de cantar. Gosto muito de Estrada branca, que tem uma característica de uma música nossa que fez um sucesso, que é Coração sertanejo, e me remete àquela época.

Pensam em transformar o material em DVD?

Chitãozinho: A ideia é lançar o disco agora, fazer uma turnê e, possivelmente, essa série de shows deve virar um DVD, incluindo outras canções, porque no CD, no máximo, são 14 músicas. No DVD, a gente pode trabalhar com 18 ou até 20. Vamos estudar isso, mas a vontade é essa.

Esse projeto vai fazer com que as novas gerações conheçam a obra do Tom Jobim?
Xororó: A gente não tinha pensado nisso, mas ouvimos do Edgar Poças: “Vocês se deram conta de que estarão apresentando o Tom a quem não conhece a obra dele?”. E a gente se lembrou de quando gravamos 'No rancho fundo', a música virou um hit nas nossas vozes e os brasileiros achavam que era uma música inédita, mas já tinha anos da gravação de Ary Barroso & Lamartine Babo. A gente sentiu que agora pode acontecer com a obra do Tom em algumas canções.
Chitãozinho: Porque não são basicamente as músicas mais famosas. Tem muita coisa que as pessoas não conhecem. Acho que é uma chance de conhecer essa obra com essa linguagem mais rural.

Vocês são de uma família artística. Como manter essa intimidade e separar isso da fama?
Xororó: Não temos uma preocupação, por exemplo, de as pessoas não verem o Theo (neto e filho de Sandy). Ele é um ser humano comum. O artista tem esse lado que as pessoas pensam que tem ser divulgado. A gente simplesmente leva a nossa vida. Não gosto muito de expor. As férias, para mim, são para descansar, descontrair, falar bobagem — que eu gosto de falar — e procurar um lugar mais tranquilo. Mas nunca se esconder. Não andamos expostos no Brasil porque a gente não consegue. Não fazemos nossas compras como uma pessoa comum porque não dá. A gente não quer divulgar, mas jamais esconder.

É comum ver duplas que brigam e se separam. Como é a relação de vocês? Nunca pensaram em se separar?
Xororó: A gente briga, mas não separa (risos). Felizmente, aprendemos muito cedo. Viemos de uma família humilde e muito unida. Sempre falamos que o espaço de um começa no do outro. É essa regrinha básica do ser humano que a gente usa. Nos entendemos muito também no mundo da música.

A repórter viajou a convite da Universal Music

Ouça à faixa 'Águas de março', por Chitãozinho & Xororó:


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