Beth Carvalho celebra a música popular em disco gravado ao vivo no subúrbio carioca

Multidão ovacionou a madrinha de Zeca Pagodinho e outros bambas

por e Ailton Magioli 19/12/2014 10:02

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Guto Costa/Divulgação
A cantora carioca Beth Carvalho é o ''Túnel Rebouças'' da música brasileira (foto: Guto Costa/Divulgação )
Responsável por unir a Zona Norte à Zona Sul com o seu samba, Beth Carvalho, de 68 anos, está de volta à capital desse gênero musical, onde gravou CD/DVD ao vivo, no Parque Madureira. Nascida e criada em Ipanema, a cantora revela: “Madureira só não entrou em discos meus quando lancei um com repertório de sambas de São Paulo e outro da Bahia”.

Não por acaso, Beth ganhou do jornalista Sérgio Cabral o apelido de “Túnel Rebouças” – a ligação entre as duas regiões do Rio de Janeiro. Ipanemense e mangueirense, ela é frequentadora assídua da Zona Norte, berço de suas queridas Portela e Império Serrano. Beth viu surgir ali Monarco, Silas de Oliveira e tantos outros mestres do samba.

Enquanto se recupera do problema de coluna que a tirou de cena por mais de um ano, Beth aproveita para divulgar o 34º disco solo em 49 anos de carreira. Além das canções, ele traz o documentário 'Coração em festa', dirigido por Gabriel Mellin e Bruno Murtinho, além das participações de Zeca Pagodinho e Lu Carvalho no show gravado ao vivo.
 
Confira 'Camarão que dorme a onda leva', faixa do DVD de Beth:
 
 
VIOLÃO Fortemente influenciada por acordes e harmonias da bossa nova, Beth aprendeu a tocar violão depois que o pai, um intelectual apaixonado pela MPB, a apresentou à batida de João Gilberto. “Lá em casa, eu era aquela que sabia tudo na ponta da língua, cantava bossa nas festas”, recorda. O entusiasmo pelo baiano durou até ela assistir à Clementina de Jesus no show 'Rosa de ouro'. “Foi ali que me decidi pelo samba”. Na verdade, essa atração era mais antiga. “Muito garota, ia a tudo que era baile infantojuvenil com a minha mãe, uma carnavalesca animada. Fui uma das primeiras meninas da Zona Sul a frequentar escola de samba”, diz Beth.

Influenciada pelo pai, a garota passou a ouvir figuras célebres da música brasileira, como Dorival Caymmi, Noel Rosa e Elizeth Cardoso. Funcionário da alfândega, cassado pela ditadura militar e politizado, ele também foi responsável pelo envolvimento da filha em movimentos políticos de esquerda, enquanto a mãe era fortemente ligada aos subúrbios de Vicente de Carvalho, Marechal Hermes, Padre Miguel e Madureira. Muitas vezes, levava Beth de trem até lá.

Intérprete do sucesso 'Andança' (Edmundo Souto, Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós), que ficou em terceiro lugar no Festival Internacional da Canção (FIC) em 1968, que também projetou as clássicas 'Sabiá' (Tom Jobim e Chico Buarque) e 'Pra não dizer que não falei das flores' (Geraldo Vandré), Beth se emociona ao falar daquela época. “Sinto falta dos festivais, que revelaram quase toda MPB”, diz.
 
Veja trecho do documentário de Beth Carvalho:
 
 
GÊNIOS Alguns anos depois, ela revelou ao Brasil o talento de dois mestres do samba: Nelson Cavaquinho e Cartola. “No caso desses dois, não há uma canção mais ou menos. É tudo genial. Ficava espantada diante deles, da forma como usavam melodias e harmonias incríveis. Tudo de ouvido.”

Cartola, conta Beth, vivia ligado à Rádio MEC. “Ele pedia aos donos de botequins para sintonizar na emissora. Já o Nelson tinha parentes músicos e adorava ir ao cinema para ouvir trilhas interpretadas ao vivo. Sou testemunha de vê-lo solando o clássico 'As time goes by' no violão”, conta, emocionada.

Graças ao jogador Alcir, na época no Vasco da Gama, Beth Carvalho chegou ao Cacique de Ramos, cuja fama já conhecia de nome. “Sabia do bloco, mas não imaginava Jorge Aragão, Almir Guineto, Sombrinha e outros talentos que conheci no mesmo dia. Foi demais, com todos os acordes certinhos”, conta.

Os integrantes do grupo Fundo de Quintal introduziram nova instrumentação no samba, com a adesão do tam-tam, repique de mão e banjo (com afinação de cavaquinho). “O tam-tam dava mais suingue”, explica Beth, salientando que o repique de mão inventado por Ubirany tinha pele só de um lado, enquanto nas escolas de samba ele tem pele dos dois lados.

Segundo ela, em cada esquina do Brasil uma criança passou a tocar esse instrumento, que, infelizmente, Ubirany não patenteou. “Desde então, o Cacique de Ramos passou a ser reduto de bambas”, acrescenta. A cantora passou a gravar os compositores do bloco até chegar a Zeca Pagodinho, em 1984. “Ele apareceu quando já havia lançado Arlindo Cruz, Sombrinha, Luiz Carlos da Vila e Jorge Aragão”.

'Camarão que dorme a onda leva' foi o presente do jovem sambista para a madrinha. “Zeca era um garoto”, diz ela. A dupla gravou a música e um clipe para o 'Fantástico', da TV Globo. Pouco tempo depois, o afilhado de Beth virou ídolo nacional.


EMOÇÃO EM MADUREIRA

'Beth Carvalho ao vivo no Parque Madureira' foi lançado pelo selo Andança, de propriedade da cantora, em parceria com o Canal Brasil e a Som Livre. Além de três inéditas – 'Parada errada' (Rogê, Rodrigo Leite e Serginho Meriti), 'Se a fila andar' (Paulinho Rezende e Toninho Geraes) e 'Estranhou o quê' (Moacyr Luz) –, a artista resgata canções que há muito não constavam de seu repertório, como Ô Isaura (Rubens da Mangueira). O DVD mostra a emocionada multidão que foi ao Parque Madureira, no subúrbio carioca, ver Beth cantar. Nos extras, ela relembra momentos marcantes de sua vida. Artistas lançados por ela falam da madrinha.
 
O álbum foi disponibilizado na íntegra na internet. Ouça:
 

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