Luís Melo protagoniza peça que alerta sobre o caos que ronda o mundo, sem dizer uma palavra

'Ausência' fala de indiferença, desespero e solidão

por Walter Sebastião 13/05/2016 08:00

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Renato Mangolin/divulgação
(foto: Renato Mangolin/divulgação)
Certa vez, uma revista científica publicou artigo especulando sobre as consequências do choque de um asteroide com a Terra, previsto para 2036. O texto inspirou os diretores Artur Luanda Ribeiro e André Curti, do grupo franco-brasileiro Dos à Deux, a criar a peça Ausência. No palco, um homem solitário se vê às voltas com o caos. Sem água e energia elétrica, tem apenas a companhia de um peixinho vermelho preso no aquário. A montagem – sem palavras – segue a linha de pesquisa do teatro gestual.

“Essa história mexe muito com a gente. Só quando falta algo pensamos na reação das pessoas àquela situação”, observa Luís Melo, que faz o papel do protagonista. O espetáculo ficou em cartaz em São Paulo durante a crise hídrica. O ator se lembra de carros-pipa monitorados para evitar saques e da manifestação de medos os mais diversos. Porém, evita dar sentido único à montagem. “Como se trata de uma encenação com linguagem poética, próxima dos quadrinhos, permite que cada um, a partir de suas ausências, dê um significado à história”, explica.

A trama, simples e clara, traz muitos sentidos. O aspecto que mais chamou a atenção do ator foi a solidão de um homem que se sente ameaçado e se isola, vendo-se obrigado a recriar o próprio universo. Melo destaca o quanto as pessoas se acostumam com tragédias. Acabam até cultivando certa indiferença em relação ao que ocorre ao seu redor.

MARIANA

“Só percebemos os dramas do cotidiano quando tomamos distância deles. O que está no palco já é a realidade de muita gente”, ressalta, citando a população pobre das favelas. “Nós nos acostumamos, vamos nos adaptando às tragédias de certas ausências”, observa, referindo-se ao desastre ecológico provocado pelo rompimento da barragem da Samarco em Mariana (MG).

Ausência tem encenação rigorosa. Todos os elementos em cena se tornam elementos da história. Sem a cidade em ruínas do cenário, exemplifica o ator, não dá para fazer a peça. “Falo só com gestos, olhares e movimentos. Não há necessidade de palavras”, reforça, sem esconder a admiração pelo teatro gestual desenvolvido por Artur Luanda Ribeiro e André Curti. “É uma pesquisa incrível. As pessoas se perguntam: ‘É dança?’. Não é. É teatro de primeira qualidade. Um trabalho que traz a precisão de que o teatro precisa. Essa história tão bem contada faz a gente pensar no excesso de palavras que o teatro tem”, garante.

CIÊNCIAS SOCIAIS

O curitibano Luís Melo é um dos mais conhecidos atores brasileiros. “Entrei no mundo do teatro vendo teatro”, comenta. Adolescente com curso de técnico em edificação, ficava curioso com o que via nos palcos. “Decidi saber como aquilo funcionava”, brinca. Depois de ser reprovado no vestibular de arquitetura – “passei em ciências sociais” –, ele fez um curso de teatro rápido, que o levou a outro, com quatro anos. A família até achou que era “fogo de palha” do jovem que gostava de experimentar. “Aos poucos, viram que a escolha era para valer”, revela.

“Nem penso que já tenho 40 anos de palco. Só tenho a agradecer sempre ter sido adotado por quem faz teatro de pesquisa. Talvez porque esteja sempre disponível para essas produções. Meus trabalhos carregam um desafio, uma dificuldade, são quase defesa de tese. Tenho a sensação de que nunca saí da escola”, diz. Fundamental para esse percurso foi participar do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), de Antunes Filho. No momento, Melo está às voltas com a criação do Campo das Artes, espaço para residências artísticas em São Luiz do Purunã, a 40 quilômetros de Curitiba.

O ator vai logo avisando: não tem definição para teatro. “Nenhuma delas traduz o que se faz ali. Procuro criar no palco a sensação que o público tem ao ver a bicicleta do filme ET sair voando. É encantador quando, sem nenhum recurso tecnológico, você consegue momentos assim, em que a plateia respira junto com você. Significa que o espectador entrou na viagem, que você conseguiu alterar a sensibilidade dele”, explica.

Para Luís, trata-se de uma experiência arredia a registros, “amiga do ao vivo”. “O que ameniza a dor de saber que a interpretação é arte efêmera e fugidia é saber que ela perdura na memória, marcando profundamente quem a faz ou assiste”, observa. Prova é que todos guardam recordações claras de cenas inteiras que se passaram no palco.

“Se na TV você é substituído por outro quando um trabalho sai do ar, no palco está algo que só aquela pessoa faz”, compara. Motivo de vaidade é constatar que se muitos vão ao teatro ver o ator de muitas novelas, também há o espectador interessado no que ele faz no palco.

Luís Melo é espectador atento. “Como tenho grande amor por essa arte, sofro. Muitas vezes, gostaria que ela fosse mais bem cuidada”, explica. Sem fazer julgamentos, comenta que a área padece com a superficialidade. “Se às vezes me decepciono, certas montagens dão orgulho pela proposta e o grau de profundidade radical que uma pesquisa continuada atinge” afirma. “Gosto do que arrepia, emociona, vibra, tem pulsação. A vida é assim”, conclui, defendendo a parceria com o espectador.

AUSÊNCIA
De Artur Luanda Ribeiro e André Curti. Com Luís Melo. Amanhã, às 20h, e domingo, às 19h. Sesc Palladium. Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro, (31) 3214-5350. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada). Classificação: 14 anos.

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