Parlapatões usa o cenário político do país para reforçar a ironia do clássico 'O burguês fidalgo'

Grupo recorre até ao funk para narrar a história de um alpinista social

por Carolina Braga 06/05/2016 08:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Parlapatões/divulgação
(foto: Parlapatões/divulgação)
“É incrível que a gente não tenha montado o Molière antes”, afirma o ator e diretor Hugo Possolo, integrante do grupo Parlapatões. Famoso por suas críticas à sociedade, o autor francês demorou 25 anos para chegar ao repertório da companhia paulistana, conhecida por espetáculos com olhar ácido sobre o nosso mundo. A longa espera se mostrou condizente. Não poderia haver momento mais oportuno para o encontro dos Parlapatões com Molière.


A peça O burguês fidalgo, em cartaz no Teatro Bradesco até amanhã, está profundamente ligada ao contexto histórico brasileiro. “Para além do comportamento, há a questão social e a localização política”, comenta Possolo. Ele faz o papel do Senhor Jordain, homem convicto de que o dinheiro é capaz de comprar tudo. Emergente, não economiza esforços para se tornar membro da nobreza. Contrata professores de música, dança, esgrima e filosofia, tornando-se presa fácil de quem quer apenas ganhar dinheiro.

A “versão Parlapatões” de O burguês fidalgo não chega a ser um musical, embora as canções surjam como forte elemento da dramaturgia. Clássicos do repertório ufanista dos anos 1970 reforçam o comportamento-padrão do alpinista social – até funk entra na parada. O elenco reúne Possolo, Raul Barretto, Fabek Capreri, Alexandre Bamba, Lívia Camargo, Fernando Fecchio, João Paulo Bienemann, Fani Feldman e Débora Veneziani.

O espetáculo estreou em 2013 e apenas agora circula pelo Brasil. A relevância que a montagem ganhou com o tumultuado contexto político atual abre ainda mais espaço para o improviso, marca registrada do Parlapatões. “Estamos trabalhando coisas nacionais”, ressalta Possolo. A essência do palhaço se destaca, com sua forma de ver o mundo. “É uma forma de interferir, de colocar o dedo na ferida. É rir para perceber a realidade”, destaca.

PROJETO O ator, que nunca escondeu sua postura de esquerda, se diz decepcionado com a conjuntura política brasileira. “O momento é de perplexidade, de embate institucional. Falta um projeto de país”, critica.

O momento “jubileu de prata” é de datas redondas para o Parlapatões, que montou cerca de 40 comédias ao longo de 25 anos. Entre elas estão PPP@WllmShkspr.br (1998) – que apresenta todas as peças de Shakespeare em 90 minutos, clássico do repertório –, U Fabuliô (1995) e Sardanapalo (2001).

Em setembro, a trupe planeja outro encontro com a dramaturgia de peso. Vai montar O rei da vela, de Oswald de Andrade, publicada pela primeira vez em 1937. “É um sonho antigo. Foi a primeira peça que li, quando tinha 12 anos. Vamos apostar no espírito que descobrimos com Molière, misturando música e encenação cômica. Oswald vai nos oferecer ainda mais acidez”, conclui.

O BURGUÊS FIDALGO
Com Parlapatões. Hoje, às 21h; amanhã, às 18h30 e 21h. Teatro Bradesco. Rua da Bahia, 2.244, Lourdes, (31) 3516-1360. R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE E-MAIS