Nuno Ramos expõe instalação 'O direito à preguiça' e outros trabalhos no CCBB

Estrutura de andaimes e 106 tubos intercalados que tocam 'Samba de uma nota só' ocupa mais da metade do pátio central do prédio

por Pablo Pires Fernandes 27/04/2016 08:34

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Ramon Lisboa/EM/D.A Press
Nuno Ramos diante de sua obra 'O direito à preguiça', aberta à visitação a partir de hoje, no CCBB (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
O direito à preguiça é o nome da instalação – e da exposição – que Nuno Ramos apresenta no Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte (CCBB-BH). A obra, aberta hoje ao público, demandou um trabalho hercúleo para ser montada. A gigantesca estrutura ocupa mais da metade do pátio central do prédio histórico de seis andares. Foi concebida especificamente para o local e, certamente, vai causar impacto.

“Este trabalho foi feito para este espaço, esse pátio é bem interessante”, diz, sobre a estrutura de andaimes com 106 tubos intercalados e cheios de ar que tocam o Samba de uma nota só, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. A instalação do órgão-andaime, explica Nuno, “tem algo meio científico”, por lidar com escala e complexidade inédita. A obra executa a minimalista canção da Bossa Nova através de programação de computador, comandando o fole de ar responsável pela abertura dos tubos, que, por sua vez, executam a música em loop, mas em rotação mais lenta. “A estrutura tem fios e requer afinação, o que é um desafio”, explica durante a montagem.

O resultado, nem o próprio artista consegue dimensionar. Diz que aponta para o que não sai do lugar, referindo-se ao caráter estático do andaime. “Não quis fazer o sublime”, afirma sobre a sugestão da imagem de uma igreja por causa do órgão e da estrutura de linhas verticais e horizontais. “Tem algo de pesadelo, vai ficar opressor”, vislumbra, olhando para a estrutura ainda em construção. Ao mesmo tempo, a ideia de transformar um andaime em um órgão que toca a partir do ar cria a sensação de algo vivo. Ele explica que o sopro traz a noção de fleuma, mas também de espírito e de logos.

Porém, o artista, de formação filosófica, sempre traz outras referências. No caso, O direito à preguiça é o título de uma obra de Paul Lafargue, anarquista e genro de Karl Marx, escrita em 1880. O livro, sobretudo, é uma crítica à lógica do trabalho, seja a do século 19, com jornadas de 16 horas por dia, ou a atual, em que o celular e a internet nos impedem de nos “desligar” e viver o lazer ou o ócio.

Vários adjetivos podem ser atribuídos a Nuno Ramos. No caso do conjunto de trabalhos expostos no CCBB-BH, talvez seja adequado dizer que se trata de um artista que não teme o risco. A ousadia da produção exibida, maior parte dela inédita, é formalmente grandiosa e conceitualmente complexa. “Trabalho em uma zona de risco muito grande – técnico e estético – porque defino enquanto faço”, declara, confessando que, por vezes, tem medo de os trabalhos não serem finalizados a tempo da abertura da mostra. “Tem muito por acontecer. As montagens são violentas, roubam a energia, mas o esforço também coloca energia ali.”

Conceito

Nuno é reconhecido pela versatilidade com que lida com as diversas linguagens – faz literatura, escreve letras de músicas, realiza trabalhos em vídeo, escultura, desenho ou pintura sem se importar com fronteiras. Ele diz que a concepção de uma obra, simplesmente, surge sem qualquer distinção entre linguagens. Apesar disso, O direito à preguiça também lida com a música por meio do tempo, em seu desdobramento, descendo oitavas e inserindo notas. “Não estou compondo, simplesmente não tenho medo da música, que é uma referência forte no meu trabalho.”

E não é apenas por ser parceiro de vários compositores que a música está presente em sua obra. Quatro instalações da exposição incluem som. E até no silencioso objeto Caldas Aulete (Para Nelson 3), a referência-homenagem é ao compositor mangueirense Nelson Cavaquinho, cujo samba Eu e as flores emprestou o verso escavado em um Dicionário Caldas Aulete. Nelson Cavaquinho, já homenageado pelo artista em outros trabalhos, ressurge em Gangorras – Vou partir (Para Nelson 4), que dialoga e complementa outra, simetricamente exposta na sala em que Carmen Miranda canta “isso não se atura/ lá em Cascadura”, em outra gangorra.

Entretanto, o som é apenas um elemento entre os vários signos e conexões propostos pelo artista. Formalmente, trata-se de dois “balanços/gangorras” de alguns metros. De um lado da estrutura pendular, uma caixa de som emite a voz da Pequena Notável. De outro, tubos de vidro processam jornais para formar queijos de papel. Na peça, um trecho-frase de Nelson Cavaquinho (do curta de Leon Hirszman de 1964) se repete enquanto se equilibra a destilação de 24 garrafas de cachaça, cada qual com uma imagem do filme. Para ele, a sonoridade é simultaneamente corporificação das referências aos músicos e texto dramático por meio das vozes.

O som ainda é imperativo na obra Paredes – O grito/José (Parede 1) e Laranja, vermelho, amarelo/Pirata da perna de pau (Parede 2). Intervenções escultóricas e arquitetônicas radicais, por sua plasticidade, os trabalhos são acrescidos de camadas sonoras. Indicam particular sintonia da obra do artista com a simultaneidade de vozes que se cruzam no espaço e no tempo na atualidade. Nuno busca estabelecer suas próprias conexões, sempre forçando o espectador a um exercício reflexivo.

Valores

Nesses dois trabalhos, dois aquários distorcem as paredes, pressionando-as e estabelecendo um deslocamento espacial. Soma-se então, mais uma vez, o som. De um lado, o áudio de leilões de famosas pinturas repetem os lances dados por compradores. Do outro, Drummond recita um poema e Braguinha canta uma canção folclórica. A oposição entre a riqueza mercadológica dos leilões e a singeleza das vozes dos dois artistas brasileiros expressa uma interrogação ao próprio meio artístico e seus valores. Nuno explica que o som dos leilões tem algo de cômico, mas que, pela repetição, vai se tornando tétrico.

O som se alia à imagem em Hora da razão (Choro negro 3), trabalho que usa formas geométricas em vidro. Dentro deles, monitores exibem três artistas – Rômulo Fróes, Eduardo Climachauska e Nina Becker – interpretando o samba Hora da razão, de Batatinha. Sobre as “lápides de vidro”, uma placa de breu derrete com o calor do equipamento. Aqui, tem-se mais uma vez a oposição de materiais extremamente formais (o vidro) e outros dois (vídeo e breu), instáveis e irregulares. Nuno explica que lhe agrada a ideia de algo que não termina, que não se firma, apontando para a incompletude do ofício artístico.

Em meio a trabalhos tão complexos e repletos de referências, destoa a sala com uma série de 17 desenhos intitulada Confissões de uma máscara. Embora tenha sido inspirado pelo livro homônimo de Yukio Mishima, o jogo de cores e formas lida com o ato de revelação através de círculos, cortes, pontos e cores vibrantes. “Há um pensamento plástico, mas pensei em incluí-las por causa da dramaticidade”, diz. Com a montagem em curso, Nuno decidiu incluir outro trabalho chamado Balada, livro, pólvora, bala. A obra consiste em um livro de 896 páginas, contra o qual foi disparado um tiro de revólver que não chega a atravessá-lo por completo. Fica claro, assim, que uma possível tentativa de dar cabo à sua busca artística, de fato, ainda não chegou ao fim. Inevitavelmente, Nuno Ramos vai continuar a correr riscos.

O direito à preguiça

Exposição de Nuno Ramos. No CCBB-BH – Praça da Liberdade, 450, Funcionários. De quarta a segunda, das 9h às 21h. Entrada franca. Até 27 de junho.

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