Fotógrafo Eduardo Trópia tem a histórica Ouro Preto como maior motivo de seus trabalhos

Mineiro surpreende com o recurso das sobreposições, em que uma imagem é combinada com outra

por Walter Sebastião 14/12/2015 08:30

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 Eduardo Trópia/Divulgação
Quem poderia imaginar Ouro Preto sem carros ou pessoas? Trópia visualizou isso e registrou (foto: Eduardo Trópia/Divulgação)
O mineiro Eduardo Trópia, de 59 anos, é o autor de uma foto aparentemente singela mas, de fato, rara: a Praça Tiradentes, em Ouro Preto, vazia. A foto, feita em 1989, tem história. Foi possível devido a uma contrapartida da prefeitura por uso de imagem dele sem autorização. E a “indenização” foi a cessão do espaço por dois dias, com o local sem veículos, para que pudesse ser feita. Entre as 5h45 e as 6h, a equipe de produção cuidou de interromper o fluxo de pessoas, o que possibilitou a foto antológica. Transformada em cartaz, vendeu 7 mil cópias. Uma das versões, com sol nascendo atrás do Museu da Inconfidência “acrescido” em laboratório, rendeu polêmica.

 

“Ouro Preto nunca saiu da minha fotografia. É a minha referência. Já fiz desde registros documentais até a cidade que está no meu imaginário”, conta Trópia. Desde visões clássicas (“imagens equilibradas, boa luz e boa composição”), herança do estilo do pai, Milton Trópia, até experimentos que vem desenvolvendo desde 2013, interferindo na imagem, procurando a síntese entre a visão plástica e crítica da situação da cidade, inventário da arquitetura da cidade.


As sobreposições e outros recursos de montagens atuais ajudam na releitura do arquivo do artista. E refletem momento que Ouro Preto padece com excessos. “Muitas placas, banners, carros, fios, palanques, construções irregulares, estacionamentos. E a cidade vai acabando sem que a gente perceba”, protesta. O lamento não afasta o amor pela cidade, onde mora há mais de 40 anos. “É cidade do mundo, fantástica em qualquer horário. Sob qualquer luz, é favorável à fotografia”, garante Trópia.
A explicação se justifica pelos personagens onipresentes nas ruas da antiga Vila Rica: gente com câmera na mão. “Cada casa tem um conto para narrar, então é natural que todos queiram fotografar”, admite. “Eu mesmo, todos os dias, descubro detalhes novos.” No seu caso, continua, são imagens pensadas do ponto de vista técnico, de expressão. “Valorizo fotos construídas, racionais, que carregam um olhar, uma opinião”, argumenta.

Eduardo Trópia/divulgação
"Valorizo fotos construídas, racionais, que carregam um olhar, uma opinião" (foto: Eduardo Trópia/divulgação)
Dramas
Eduardo Trópia evitou fazer fotos dos dramas trazidos pela ruptura da barragem da Samarco em Bento Rodrigues, na vizinha Mariana. “Se tivesse de ir lá, seria para ajudar as pessoas, não para fazer fotos”, garante. Ele considera o episódio mudança drástica em uma história sempre associada à mineração. “É atividade que tem riscos, barragem é risco. Existem outras formas de trabalhar os rejeitos”, ressalta, defendendo rigor também no licenciamento ambiental para a instalação delas.


Chocante, para ele, foi a ausência de alarmes, de treinamento da população, o fato de todos saberem dos riscos há tempos e nada fazer. “O argumento é sempre que é atividade importante para a economia da cidade, mas é também dinheiro que cega”, critica. “Para nós que moramos aqui foi um susto. Ninguém nunca tinha visto algo assim, um mar de lama que em 10 horas já havia atingido várias cidades”, conta. Grave, observa, é tudo ter acontecido em empresa que era referência de segurança. “Se isso aconteceu com empresa assim, qual a situação de outras barragens espalhadas pelo estado?”, pergunta.
“Hoje, a discussão em toda a região é desejo de nova vida econômica sem a mineração”, continua Eduardo Trópia. “A esperança, o tamanho e o impacto da catástrofe favorecem a compreensão da importância econômica do turismo, que nunca foi trabalhado de forma competente”, observa.

 

Educando o olhar

 

A fotografia sempre fez parte da vida de Eduardo Trópia. Aos 7 anos, ele já estava no estúdio do pai, Milton Heleno Trópia, ajudando na revelação de postais de Ouro Preto e fotos de casamento. “Cresci dentro de laboratório. Como nunca fui bom laboratorista, fiquei com trauma da atividade”, recorda. Estudos durante os festivais de inverno, com Dimas Guedes, Alair Gomes, Emigio Luigi, Walter Firmo e Miguel Aum, lhe trouxeram novas vivências. “Frans Krajcberg certa vez tirou a câmera da minha mão e disse: ‘Você vai ficar uma semana me acompanhando, sem fotografar, para aprender a olhar e não clicar tanto. Foi reeducação do olhar”, recorda.


A primeira exposição de que participou foi uma coletiva organizada por Yara Matos em 1982, reunindo trabalhos de Eduardo, do pai Milton e do irmão Sérgio Trópia. E desde então vem circulando por espaços alternativos da região. A produção recente vem das discussões no coletivo Olho de Vidro, em atividade desde 2005. Voltado para a busca de uma visão contemporânea de Ouro Preto, o grupo foi formado inicialmente por Antônio Laia e Eber Bezerra e pelo poeta Guilherme Mansur e hoje incorpora também Alexandre Martins.


A fotografia, avisa Trópia, tem história antiga em Ouro Preto, com registros desde o início do século 20. Por isso ele considera que o setor merecia, inclusive, a criação de uma instituição específica. “Seria um modo de preservar uma história e também Ouro Preto”, observa.

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