Celso Frateschi critica descompasso na produção cultural brasileira

'Espero que a gente consiga resistir', diz o ator em cartaz com a peça A tempestade, com direção de Gabriel Villela.

por Carolina Braga 27/11/2015 07:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Joao Caldas / Divulgacao
Celso Frateschi como Próspero, protagonista de 'A tempestade' em cartaz no Cine Theatro Brasil (foto: Joao Caldas / Divulgacao)
Celso Frateschi é um homem de fala mansa e séria. Se o assunto é teatro, os desafios do papel são expostos com a propriedade de professor. Próspero, por exemplo, não é um personagem que respeite as escolas americanas de interpretação. “Shakespeare não é um autor que permite ser somente naturalista ou realista. Exige uma técnica diferente o que é muito bom”, diz, sem esconder uma empolgação comum aos iniciantes.

Quando a conversa caminha para o campo da política, a prosa ganha um tom mais denso. “Não sou um político de profissão. Sou um ator, engajado do meu País e eventualmente me chamaram para exercer um cargo público”, define-se.

A primeira vez que Frateschi assumiu um cargo público foi na gestão de Celso Daniel em Santo André. Foi também secretário de cultura do governo Marta Suplicy em São Paulo, período de importantes conquistas para a classe. Surgiram na administração dele, por exemplo, a lei de fomento ao teatro da Cidade de São Paulo e o projeto vocacional para a formação de plateias. “Ao fazer teatro a pessoa consegue entender as regras e se reconhecer como público”, explica.

Joao Caldas / Divulgacao
'A tempestade' foi a última peça escrita por William Shakespeare (foto: Joao Caldas / Divulgacao)
Afastado da função política, Celso Frateschi observa com reservas o vício gerado pelas Leis de Incentivo à Cultura. Para ele, esta forma de financiamento vigente há mais de 20 anos no Brasil gera um paradoxo cruel apostando mais em quantidade do que qualidade. “Cada vez mais espetáculos e menos temporadas. O teatro se realiza na repetição. Temos uma lei que privilegia a produção e não o público”, observa.

Frateschi lembra Shakespeare. “Ele fazia o espetáculo para agradar o público e aquelas pessoas pagavam. Hoje a relação deixa de ser com a plateia e passa a ser com o patrocinador que vai bancar. Ou seja, vai para um outro lado que não deveria ir”, critica.

O ator identifica um descompasso até mesmo naqueles que defendem o teatro independente. Por não ter patrocínio, muitos colegas se esquecem que promover o teatro significa pensar um espetáculo em relação ao público. “O teatro existe no espaço entre o palco e a plateia. Tem gente que começa a criar para si. Por que eu quero saber do umbigo do outro? Você já reparou a quantidade de espetáculos confessionais estamos tendo?”, pergunta.

Celso Frateschi reconhece que o momento político é muito ruim. “Espero que a gente consiga resistir. Batalho pela permanência do estado democrático e que a gente consiga passar esse momento de crise, que é muito grave”, afirma. Segundo ele, continua fiel aos princípios de uma sociedade justa, igualitária e livre.

 

A TEMPESTADE
De Gabriel Villela. Adaptação do clássico de Shakespeare. Com Celso Frateschi. Cine Theatro Brasil Vallourec, Praça Sete, Centro, (31) 3201-5211. Sexta e sábado, 21h; domingo, 20h. Inteira: R$ 50 (plateia 2) e R$ 60 (plateia 1).

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE E-MAIS