Inhotim inaugura pavilhão dedicado à obra da fotógrafa Claudia Andujar

Artista tem décadas de registros do modo de vida e das ameaças sofridas pelo povo ianomami

por Walter Sebastião 26/11/2015 08:00

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Claudia Andujar/Divulgação
Obra será exibida no pavilhão da artista no Inhotim (foto: Claudia Andujar/Divulgação)
Claudia Andujar nasceu na Suíça e, fugindo da perseguição nazista, vem morar com a mãe no Brasil, em 1955. Para conhecer o ambiente, anda pelo país, fotografa famílias brasileiras, registra o mundo intelectual e da moda para publicações nacionais e internacionais. Em 1970, é enviada à Amazônia a serviço de reportagem sobre a região. E tem contato com os índios ianomamis, de quem se torna amiga. Vê por lá projeto de estrada atrair para a região trabalhadores, fazendeiros e garimpeiros. E doenças trazidas por eles dizimarem tribos inteiras. É obrigada, então, a transformar um olhar sonhador e curioso para outro, em defesa da saúde, da terra e da cultura das comunidades.


Mais de 400 fotos que mostram esse percurso estão reunidas no pavilhão dedicado a Claudia Andujar, que será aberto ao público hoje, no Instituto Inhotim. São quatro blocos: a região amazônica; o cotidiano ianomami; as consequências da chegada dos não indígenas, e uma sala com desenhos dos índios. Registram desde momentos de grande beleza até situações dramáticas. A narrativa é pontuada com sequências de retratos, um dos grandes temas da artista, na avaliação do curador Rodrigo Moura. “Estamos mostrando a beleza do olhar de Claudia Andujar, que revela compromisso ético profundo. Quando ela diz que os índios estão ameaçados, ela está dizendo que estamos todos ameaçados”, afirma.

A proposta, segundo o curador, é mostrar como a imersão numa outra cultura influenciou o fazer fotográfico de Andujar. Nas fotos estão uma mescla de diferentes miradas (a estética, a consideração social, o registro utilitário, a busca de linguagem para captar outra cultura etc.), cita o curador. “Claudia desmonta o olhar frio, distanciado, pseudocientífico do documental. Traz calor, luz, permite que o retratado se manifeste sendo o que ele é”, afirma.

Presente à apresentação de seu pavilhão para a imprensa, na última terça, Claudia Andujar falou com suavidade sobre o tempo em que esteve entre os ianomamis. “Ficaram curiosos comigo. Como estava de calças, não sabiam se eu era homem ou mulher”, recordou, irônica. “As mulheres se aproximaram, gentis, para tirar dúvida, querendo saber se eu tinha família, filhos. Começamos uma amizade que dura até hoje”, contou.

Os dramas trazidos pela disseminação de doenças fizeram com que ela tirasse fotos para fichas médicas e lutasse por ações visando à saúde e à educação e, mais tarde, pela demarcação do território, conquistada em 1992. “Mas as invasões do território ianomami continuam até hoje”, denunciou Andujar, pedindo ações do governo federal em relação a isso.

DEFESA  “Gostaria que a exposição criasse um movimento mundial de maior conhecimento e defesa dos ianomamis”, disse a fotógrafa. Um motivo de satisfação, ela diz, é ver que os índios estão aprendendo a se defender e hoje estão mais conscientes de seu direitos. “Fico feliz também com uma exposição bonita e com conteúdo, o que para mim é importante.”

Ela diz que as temporadas entre os ianomamis não foram fáceis. De tempos em tempos, a fotógrafa tinha de se deslocar para São Paulo, para revelar os filmes. “Depois de dois anos, já estava sonhando com um bolo”, brincou, lembrando que nas aldeias não havia sal nem açúcar.

O xamã Davi Kopenawa, presente ao encontro com a imprensa, chiou sobre o uso das imagens dos ianomamis, “como o que vocês (brancos) chamam de recordação”, sem autorização dos índios. Mas elogiou a iniciativa do pavilhão dedicado a Claudia Andujar. “Permite aos brancos conhecerem as nossas aldeias. Os velhos estão morrendo; os novos, crescendo. Então, nossos filhos e os filhos de vocês vão poder vir aqui para conhecer a nossa imagem”, disse. Sobre Claudia, a quem define como uma amiga corajosa, afirmou: “Aprendemos muito com ela”.

Cobiçadas pelo garimpo, as terras ianomamis em Roraima são alvo de invasões desde o final dos anos 1980. A partir de 1987, tornou-se frequente o assassinato de índios na região. Em 1993, ocorreu o chamado Massacre de Haximu, em que toda uma comunidade ianomami que vivia em Haximu foi dizimada num ataque. Nos anos 1970, com a construção da BR 210, que abriu caminho até o território ianomami (a tribo mantinha contato apenas com outras tribos até então), também se registrou mortandade de índios. Hoje, segundo Kopenawa, a população ianomami conta com cerca de 22 mil indivíduos, espalhados em diversas aldeias em Roraima, na Amazônia e na Venezuela.

Galeria Claudia Andujar
Inauguração hoje, das 9h30 às 13h30, no Instituto Inhotim, Rua B, 20 Brumadinho, (31) 3194-7300 ou 3571-9700. De terça a sexta-feira, das 9h30 às 16h30; sábados, domingos e feriados, das 9h30 às 17h30. Entrada: quarta-feira, franca; terça e quinta-feira, R$ 25; sexta, sábado, domingo e feriado, R$ 40.

SEMINÁRIO  E FILME

Amanhã, das 10h às 16h, será realizado no Teatro Inhotim, que fica no Centro de Educação e Cultura Burle Marx, o seminário “Visão ianomami, com participação de Davi Kopenawa, Carlo Zacquini, Ailton Krenak, Ana Paula Souto Maior, Moacir dos Anjos e Maurício Ye’duana. Às 21h de sábado, será exibido dentro da programação do Fórum.doc, no Cine Humberto Mauro, o documentário A estrangeira, de Rodrigo Moura, sobre Claudia Andujar. A fotógrafa e o diretor comentarão o filme após a sessão.

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